O papel da mulher rural é a base para agricultura familiar proporcionando o acesso à terra e a recursos produtivos

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A luta pelo reconhecimento, a busca pela terra e pela valorização da mulher no campo, além do esforço para conseguir recursos produtivos tornou-se parte da vida das mulheres do assentamento São Sebastião (GO), que por anos viveram sem um lugar para poderem chamar de lar.

Em janeiro de 1997, na fazenda São Sebastião, no município de Silvânia viviam acampadas 17 famílias. Dentre elas, a agricultora familiar, Sandra Pereira de Faria, 48 anos, que vivia com dois filhos em lonas provisórias.

As famílias do assentamento não tinham recursos para se manter e se sustentavam por meio de cestas básicas doadas pela igreja do município. Dona Sandra não conseguiu concluir os estudos, mas o que ela sabia ensinava para as outras pessoas do assentamento. Mesmo morando em lonas ela criou a alfabetização solidária com duração de quatro meses para ajudar a todos que precisassem.

A agricultora recorda os momentos difíceis que passou na fazenda. “No acampamento havia muitas crianças e sofríamos várias ameaças e muito desprezo da sociedade. ”

Dona Sandra conta que as famílias foram despejadas duas vezes do acampamento, mas por não terem onde ficar, voltavam para o mesmo local. Todas as famílias assentadas sofriam com as ameaças do gerente da propriedade. “Lembro-me de uma noite que me abriguei na mata para poder dormir com os meus filhos, pois destruíram minha barraca”, recorda.

Com tantas ameaças, as agricultoras se revoltaram e foram reivindicar por seus direitos e pelo seu pedaço de terra. Assim, começaram a ter mais liberdade para o sustento da família por meio da agricultura. Antes de tudo, fizeram uma lavoura comunitária de arroz, depois os grupos começaram a se organizar e passaram a plantar milho, feijão, mandioca, hortas e iniciaram a criação de gado.

Com a permissão de posse da terra e o desenvolvimento da produção, a luta das agricultoras passou a ser a construção de um lar para o conforto e a segurança das famílias. “Passamos por muitas dificuldades, pois não tínhamos recurso suficiente para pagar os pedreiros. ” A comunidade se uniu e definiu um mutirão para construir uma casa por vez, priorizando as famílias mais necessitadas. Todos ajudaram com a mão de obra, inclusive as mulheres. “As mulheres do assentamento são fortes e guerreiras, eram elas que preparavam a argamassa, faziam reboco de parede e carregavam os tijolos”, ressalta.

Dona Sandra recorda com muita alegria e satisfação o que vivenciou ao ver sua casa construída. “O momento mais importante da minha vida foi a construção da minha casa, a emoção de poder ver o meu espaço, pois desde a minha juventude eu não tinha um lar, um lugar para chamar de meu”, relembra. A casa da agricultora foi a última a ser construída, já que ela deu prioridade às outras famílias que estavam mais necessitadas.

Depois que as famílias conseguiram se estabilizar, as mulheres foram à luta em busca de luz elétrica. Em 2003, foram instalados os postes de iluminação no município. “A chegada da luz foi uma imensa alegria para nós. Principalmente para as nossas crianças que não conheciam a televisão nem a geladeira”, conta Dona Sandra.

As agricultoras do assentamento reivindicaram também as melhorias da comunidade, e por intermédio dessas mulheres as escolas se desenvolveram e hoje, cada comunidade tem um ônibus escolar.

Atualmente, vivem no município 33 famílias, e em sua maioria, os jovens da comunidade possuem formação superior e ainda assim, preferem voltar e trabalhar com agricultura familiar. Dona Sandra ressalta sobre a vivência na comunidade. “Hoje a nossa vida é um paraíso, temos uma produção muito boa e diversificada. ” As agricultoras produzem pimenta, açafrão, rapadura, melado, leite, a ainda, artesanato.

As mulheres do assentamento São Sebastião são reconhecidas dentro da comunidade e buscam esse reconhecimento também fora dela, sendo elas o suporte econômico do município e também da agricultura familiar. “A mulher é o esteio da casa e na agricultura mais ainda. São elas que produzem e dão assistência à comunidade, são autoras de tudo e não são reconhecidas. São as agricultoras as primeiras a levantar, vão à luta e são as últimas a dormir”, enfatiza.

Para Dona Sandra toda a luta que viveu em busca da terra e a conquista de recursos para a produção da comunidade valeu à pena. Hoje a agricultura do município é bem desenvolvida e reconhecida, mas o mais importante para Dona Sandra é a harmonia entre as pessoas. “O que é mais significativo para mim é a união dentro das famílias do assentamento, a amizade e a confiança que se consolidou, uma conquista para toda a vida”, destaca.

Toda a história de Dona Sandra ajudou na formação do que ela é hoje, uma mulher forte, destemida, agricultora e independente. “A luta pela terra transformou a minha vida, se fosse preciso eu começava tudo de novo. Eu não imagino a minha vida se eu não estivesse dentro do assentamento.”

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, ainda não possuem o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito, com a desigualdade de gênero e com outros problemas que herdaram da vida. Ainda há um longo caminho para o equilíbrio de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. A fim de mostrar que equidade de gênero e respeito são valores necessários cotidianamente, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou que 2018 seria o Ano da Mulher Rural.

Pensando nisso, a partir do primeiro dia do mês de outubro, iniciamos, no portal, uma série de matérias que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Fonte – MDA

Foto- Divulgação