Na Amazônia, cruzar o caminho de uma onça-pintada ou de uma onça-parda não é algo tão raro quanto muitos imaginam. Em comunidades rurais e áreas próximas à floresta, esse encontro faz parte da rotina. Foi olhando para essa realidade que, em 2017, o professor Rogério Fonseca, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), reuniu pesquisadores e estudantes para estudar esses animais e ajudar a construir uma convivência mais segura entre pessoas e onças.
O trabalho ganhou forma no Laboratório de Interações Fauna e Floresta (LaIFF), que vai muito além da pesquisa acadêmica. O grupo conversa com moradores, atua em ações de educação ambiental, mantém presença ativa nas redes sociais e trabalha em parceria com outras instituições. Mesmo jovem, o laboratório incorporou projetos que já existiam desde 2008, como o Projeto Amigos da Onça e o Observatório de Imprensa, Avistamento e Ataques de Onças (OIAA Onça).
Essas iniciativas surgiram no Sul do Amazonas, região onde os conflitos com onças são mais frequentes, especialmente em áreas de criação de gado e aves e ao longo de rodovias como a BR-319 e a BR-230. A proposta é simples, mas essencial: levar informação a quem convive diariamente com esses felinos e reduzir situações de risco para pessoas e animais.
Enquanto o Projeto Amigos da Onça orienta produtores rurais sobre manejo e prevenção de prejuízos, o OIAA Onça faz um trabalho único no Brasil. Desde 2008, o observatório acompanha e analisa registros de ataques de onças, inclusive casos envolvendo seres humanos, ajudando a entender padrões e a qualificar o debate público.
“Hoje nosso trabalho tem várias frentes, mas o observatório é o coração do projeto”, explica Rogério Fonseca. O grupo monitora notícias sobre onças no Brasil e em outros países e troca experiências com pesquisadores e instituições internacionais. Essa rede de colaboração mostra que o desafio de conviver com grandes felinos não é só da Amazônia, mas uma questão compartilhada por diferentes regiões do mundo.
Soluções em nível estratégico
O professor Rogério Fonseca explica que o Projeto Amigos da Onça atua diretamente com os produtores rurais para compartilhar técnicas de manejo que protejam o gado e as galinhas, reduzindo os prejuízos e a necessidade de abater os felinos após eventual ataque. “Uma vez que fornecemos informações, eles se tornam os principais divulgadores do conhecimento da Universidade no campo”, afirma ele.
O LaIFF monitora a distribuição das onças-pintadas em toda a cobertura do solo brasileiro, ou seja, consegue cobrir 5.568 municípios. Entre os achados, o grupo observa a presença crescente de onças-pardas em áreas urbanas. Uma das pesquisas é uma tese de doutoramento cuja proposta central é compreender os habitats das onças-pintadas e identificar o principal elemento paisagístico que elas utilizam, que pode ser área de floresta, uma área de preservação ambiental, uma reserva legal, monocultura, um sistema agroflorestal ou de silvicultura pastoril. As técnicas empregadas na investigação incluem a realização de entrevistas com moradores locais em todo o País e ainda a comparação entre os relatos dessas pessoas e as notícias publicadas pela imprensa.
O trabalho ganha força em regiões críticas, como no sul do Amazonas e ainda nos eixos da BR-319, rodovia federal de 885 quilômetros que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), e da BR-230, conhecida como Transamazônica, com aproximadamente 4.260 quilômetros de extensão entre as cidades de Cabedelo (PB) e Lábrea (AM). O pesquisador explica que, em municípios como Humaitá, Manicoré e Lábrea, a incidência de ataques de onças à fauna doméstica é alta, o que muitas vezes gera um sentimento de vingança por parte dos proprietários em relação à espécie nativa.
No Amazonas, os municípios com as principais ocorrências estão concentrados na porção mais ao Sul do estado, ao longo do eixo rodoviário da BR-230, no trecho que vai de Humaitá até a cidade de Lábrea, passando por Manicoré. “No Brasil, a maior concentração de ocorrências é na Amazônia Legal, como em algumas regiões da Amazônia brasileira que têm o pulso de inundação. Nessas áreas, as onças coexistem com gado e humanos, e ocasionalmente ocorrem conflitos. Os dois principais biomas onde temos ocorrências divulgadas pela imprensa são o Pantanal e a Amazônia”, esclarece o coordenador do LaIFF.
Em relação ao Cerrado brasileiro, o pesquisador afirma que, apesar de ser rico em biodiversidade, o bioma enfrenta uma redução drástica na população de onças-pintadas. Isso se deve sobretudo à conversão da vegetação nativa em áreas para agricultura e pecuária como resposta à pressão internacional pelo incremento da produção de alimentos. “A opção por converter a floresta de savana, adaptada para a convivência com animais silvestres, em plantios de monocultura, como a soja, impacta diretamente o habitat das onças. Essa prática resulta no confinamento das onças em unidades de conservação, áreas de preservação permanente ou nas reservas legais, localizadas sobretudo nas grandes propriedades rurais”, completa o professor.
“Pescando onça”
Na Amazônia, o monitoramento não se limita à floresta: o laboratório utiliza dados da imprensa global e relatos recebidos via WhatsApp e Telegram para mapear a presença desses animais também na área urbana. Nesses anos todos de dedicação ao estudo das onças-pintadas, um dos marcos históricos a darem mais visibilidade ao trabalho do grupo foi o que Rogério Fonseca batizou como a primeira “pesca de uma onça-pintada” no mundo, ocorrida no Rio Negro, num local próximo da ponte que liga as cidades de Manaus e Iranduba. O trabalho de resgate se desenrolou no âmbito de uma operação logística envolvendo diversos órgãos de segurança pública e de proteção ambiental, os quais contaram com a expertise dos pesquisadores e extensionistas da Universidade.
“A ocorrência da onça-pintada do Rio Negro iniciou quando um cidadão avistou o felino no rio e acionou a Polícia Militar pelo 190. A PM, por sua vez, acionou o Batalhão Ambiental, que entrou em contato com a Ufam. Vale ressaltar a participação da Polícia Rodoviária Federal e dos Corpos de Bombeiros Militares na ocorrência. Essas instituições atuam diretamente em contato com a população e desempenham um papel fundamental na conservação ambiental. O Batalhão Ambiental providenciou logística para que os nossos equipamentos chegassem com a Secretaria de Estado de Proteção Animal. Por meio de seu pelotão fluvial do Comando de Policiamento Ambiental, o Batalhão realizou a pesca”, relata o especialista no tema das onças-pintadas.
Educação ambiental
O foco principal das ações é a parcela mais jovem da população. Os extensionistas têm a compreensão de que os principais agentes de mudança, quando se trata da aquisição de hábitos intra e interfamiliares, concentram-se nas faixas etárias iniciais. “A Amazônia permanece em pé porque o povo amazônico tem opções alimentares diferentes do resto do Brasil. […] Acreditamos que pescar por seis meses e caçar por seis meses nos permite interagir com a fauna de forma sustentável, promovendo a interação entre a fauna e a floresta que tanto enfatizamos”, sustenta o pesquisador, segundo o qual a difusão do conhecimento científico no ambiente escolar é uma importante frente de atuação dos pesquisadores. “É o povo que reduz as emissões, evita o desmatamento e promove o manejo integrado entre floresta e fauna, e vice-versa”, enfatiza.
Para o professor Rogério Fonseca, a conservação da floresta deve ser compreendida a partir de uma ligação com a própria identidade do povo amazônico, que historicamente interage com a fauna regional de forma sustentável. “Nosso objetivo é fazer com que a realidade da Amazônia se torne a identidade dessas pessoas com as quais estamos compartilhando informações úteis e indispensáveis por meio da educação ambiental”, frisa o docente da Ufam a respeito das ações realizadas junto aos comunitários. Os projetos comportam iniciativas voltadas aos produtos rurais e à sociedade na totalidade.
Do ponto de vista institucional, podem atuar nos projetos estudantes de todos os cursos da Ufam – da Medicina até as formações em Ciências Humanas. O enfoque aqui é no aspecto abrangente e acolhedor, com potencial de reforçar a ideia básica de que a proteção da biodiversidade é uma missão plural e universal, e não só de ativistas ambientais.
Tecnologia aplicada
A sociedade pode colaborar diretamente com as pesquisas através do aplicativo OIAA Onça. A ferramenta permite registrar avistamentos e ocorrências, ajudando a alimentar um banco de dados nacional que orienta políticas de preservação e segurança. Para conhecer o histórico completo das ações e entender como o projeto evoluiu de uma iniciativa no sul do Amazonas para uma rede de colaboração global, acesse: oiaaonca.ufam.edu.br.
Fonte – UFAM
Edição – Coopnews
Foto – Ascom/Ufam




