Um estudo inédito lança um olhar mais amplo sobre a presença, o perfil e os desafios das cooperativas da agricultura familiar na Amazônia brasileira. O artigo Cooperativas da Agricultura Familiar na Amazônia Brasileira: diagnóstico e perspectivas para a ação pública foi apresentado e premiado no 8º Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cooperativismo, realizado em 2025, e ajuda a preencher uma lacuna importante de informações sobre o cooperativismo rural na região.
O trabalho reúne e organiza bases de dados nacionais que até então eram pouco exploradas de forma integrada. Com isso, o estudo amplia a compreensão sobre como as cooperativas atuam na Amazônia e quais são os principais entraves enfrentados no dia a dia, oferecendo um retrato mais fiel da realidade regional.
Assinado por Graziela Reis do Carmo, Isabela Renó Jorge Moreira, Alair Ferreira de Freitas, Marcos Vinicius Andrade Gomes e Almiro Alves Junior, o artigo parte da constatação de que as pesquisas anteriores se concentravam, em sua maioria, em estudos de caso isolados. Essa limitação dificultava análises mais consistentes e a construção de políticas públicas alinhadas às necessidades do território amazônico.
Retrato regional a partir de bases nacionais
Para superar essa limitação, os autores adotaram uma abordagem quantitativa e descritiva, combinando dados do Censo Agropecuário do IBGE (2017) com informações do Extrato da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) de 2023. O recorte territorial abrangeu os oito estados da Amazônia Legal, além de todo o estado do Maranhão.
A partir do Censo Agropecuário, o estudo identificou que, em 2017, a Amazônia Legal possuía 749.328 estabelecimentos agropecuários, dos quais 24.740 estavam vinculados a cooperativas, o equivalente a 3,3% dos estabelecimentos da agricultura familiar na região. Mato Grosso, Rondônia e Pará concentravam os maiores números absolutos de estabelecimentos cooperativos, enquanto Amapá e Roraima apresentavam as menores participações.
Os dados mostram diferenças relevantes entre estabelecimentos cooperativos e não cooperativos. Entre os associados a cooperativas, 83,27% tinham a comercialização como finalidade principal da produção, percentual superior aos 61,24% registrados entre os não cooperativos. Também foi maior o acesso à assistência técnica (27,83% contra 16,75%) e a proporção de famílias cuja renda principal provinha da própria atividade agrícola.
Práticas produtivas e organização social
O estudo também apontou diferenças nas práticas produtivas. Cerca de 56% dos estabelecimentos cooperativos declararam não utilizar agrotóxicos, e 4,14% informaram praticar agricultura ou pecuária orgânica. A titularidade da terra também se mostrou mais presente entre cooperados, com 84,96% declarando condição de proprietários.
A composição societária revelou diversidade entre os cooperados, com predominância da categoria “demais agricultores familiares”, além de assentados da reforma agrária e extrativistas. Um dado que chama atenção é o percentual de cooperados sem DAP física registrada, o que dificulta classificações mais precisas e a identificação de povos e comunidades tradicionais nas bases oficiais.
Desafios para políticas públicas
Um dos principais achados do artigo é a elevada proporção de DAPs jurídicas em situação irregular. Segundo os autores, cerca de 60% das cooperativas identificadas enfrentavam restrições documentais, o que limita o acesso a políticas públicas como o Pronaf, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Nesse sentido, o estudo apontou que a fragilidade das bases públicas e a transição da DAP para o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), ainda sem consolidação plena no período analisado, reduzem a visibilidade do cooperativismo da agricultura familiar na Amazônia e dificultam ações governamentais mais efetivas.
Evidências e caminhos futuros
Apesar dos entraves, os resultados indicam que as cooperativas atuam como importantes vetores de inserção produtiva, acesso a serviços e fortalecimento da renda das famílias rurais na região. Para os autores, políticas públicas voltadas à regularização institucional das cooperativas, à ampliação da assistência técnica territorializada e ao fortalecimento do acesso a mercados institucionais podem potencializar esses impactos.
O artigo integra os anais do 8º EBPC e contribui para qualificar o debate sobre o cooperativismo na Amazônia, oferecendo subsídios técnicos para pesquisadores, gestores públicos e organizações do setor. O material completo está disponível para consulta em.
Fonte – OCB
Edição – Coopnews
Foto – OCB




