Turismo

Turismo regenerativo ganha força como solução para recuperar ambientes degradados

Práticas já existiam, mas agora ganham reconhecimento e estrutura no meio acadêmico.
Especialistas destacam o potencial do Brasil na expansão do turismo regenerativo.
Conceito une preservação ambiental, desenvolvimento local e consciência social.

O avanço do turismo regenerativo tem chamado a atenção de especialistas e se consolidado como uma alternativa concreta para recuperar ambientes degradados pela atividade humana. Mais do que preservar, a proposta vai além: busca restaurar ecossistemas, fortalecer comunidades e promover um novo olhar sobre o impacto do turismo. Em um cenário de urgência ambiental, essa abordagem surge como caminho estratégico e necessário.

Turismo regenerativo é uma abordagem do setor que se preocupa com a regeneração de ambientes naturais, sociais e ecológicos. Essa linha de pensamento não é um tipo de turismo, como defende o professor Thiago Allis, do curso de Turismo e Lazer da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e líder do grupo de pesquisa em Mobilidade e Turismo. Segundo ele , o turismo regenerativo é uma forma de entender e desenvolver a atividade.

O turismo regenerativo

A concepção do turismo regenerativo no meio acadêmico é considerada recente, mas, na prática, essa abordagem já acontecia. A doutora Loretta Bellato, pesquisadora adjunta da Federation University (Austrália), que visitou a EACH no dia 15 de abril durante a Aula Magna do Programa de Pós-Graduação em Turismo (PPGTUR-USP), explica que práticas turísticas relacionadas aos povos indígenas, no Brasil, se organizaram em torno da regeneração e reciprocidade, além de ter o cuidado com a terra e o bem-estar da comunidade.

“O turismo regenerativo não é necessariamente uma nova abordagem, mas o que ele faz: é tirar ideias de algumas dessas linhagens muito antigas que têm olhado como cuidar da terra e das comunidades por muitas gerações. [O turismo regenerativo] é uma forma de unir alguns desses pensamentos para que possamos pensar sobre o turismo de uma forma diferente”, explica Loretta, que desenvolveu sua tese de doutorado Contribuições do turismo para o desenvolvimento regenerativo de sistemas urbanos-sociais-ecológicos na Swinburne University of Technology (Austrália).

“Brasil pode vir a ser um grande líder”

A professora Jaqueline Gil, do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (UnB) e também convidada para a Aula Magna do PPGTUR-USP, destaca o possível papel que o Brasil pode exercer na atividade. “Para o Brasil aprofundar esse debate, azeitar esse conhecimento e olhar para o turismo regenerativo como uma grande nova oportunidade, é também uma vantagem competitiva, inclusive, de mercado e de marketing. “É um tema em que o Brasil pode vir a ser um grande líder nesse processo, porque mais de 80% da nossa população já é urbana.”

A regeneração de espaços urbanos ganha importância com 87% da população morando em ambientes urbanos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A regeneração do urbano fica “cada vez mais central, também, nesse movimento de urbanização das nossas cidades. E, do ponto de vista da natureza, a gente tem muitos espaços que podem se tornar grandes oportunidades nesse processo de regeneração”.

Diferenças entre sustentabilidade e regeneração

O turismo sustentável e o regenerativo possuem propósitos diferentes para a especialista australiana. No caso do ramo sustentável, “o propósito do turismo é apoiar o desenvolvimento econômico e gerar lucros. Há alguns benefícios em relação ao ambiente ecológico e social, mas é principalmente dirigido por agendas econômicas. O propósito do turismo regenerativo é apoiar a saúde e o bem-estar das comunidades e do lugar”, diz Loretta Bellato.

O pesquisador Thiago Allis complementa: “Falar em sustentabilidade já não é mais suficiente ou já se desgastou a ideia” para o mercado, que fica “inventando novos nomes”. Para o pesquisador, o turismo regenerativo é um jeito de encarar os desafios do desenvolvimento turístico e rejeitar a ideia de tratá-lo como mais um segmento da atividade.

Já Jaqueline Gil, também doutoranda no Centro de Desenvolvimento Sustentável e pesquisadora no Laboratório de Estudos em Turismo e Sustentabilidade, ambos da UnB, adiciona que o conceito de sustentabilidade surge no turismo a partir da publicação do Relatório Brundtland (ou relatório Nosso Futuro Comum), em 1987. O relatório define o desenvolvimento sustentável como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”, segundo o próprio texto.

Jaqueline esclarece que o relatório deixou excelentes iniciativas e também “um legado positivo na literatura científica”. Por outro lado, o relatório não mudou a forma que o turismo é planejado, diz a pesquisadora brasileira. Depois de aproximadamente 39 anos, “quando vamos fazer uma análise de indicadores, de forma geral, sobre onde estamos no turismo, entendemos que poderíamos estar pior se não tivesse o avanço da sustentabilidade, mas não estamos bem como deveríamos estar”.

O turismo sustentável não é o suficiente para combater as mudanças climáticas no setor, segundo essa visão. “Quando colocamos a lente das mudanças climáticas nesta análise, fica muito claro de que todo o planejamento do nosso turismo, até agora, nos trouxe para um ponto de grandes emissões de efeito estufa. Não existe, na literatura científica, hoje, e também não na prática, evidências que nos indiquem que o turismo reduz ou tenha reduzido as suas emissões de gases de efeito estufa.”

A regeneração no turismo antes da Academia

A regeneração de ambientes não é só ambiental, mas também urbana. Jaqueline reforça que as práticas de regeneração de ambientes no turismo já existiam antes da nomenclatura acadêmica. Um exemplo de turismo regenerativo são os empreendimentos como o Cristalino Lodge, na Amazônia. “O dinheiro oriundo das reservas de hospedagem e da alimentação dos visitantes financia a conservação de uma área da Amazônia. Se a gente tivesse, de uma forma mais ampla, políticas públicas e investimentos direcionados para a gente fazer do turismo um meio de financiarmos a recuperação desses espaços, seja no urbano, seja no rural, a gente, provavelmente, estaria poluindo menos, emitindo menos gás de efeito estufa e capturando mais esses gases.”

Para além do turismo, a regeneração já era usada em outros setores. Loretta Bellato ressalta que, “em termos de pensamento regenerativo, a agricultura é um setor que tem exercido um grande papel em aplicar esse pensamento”. Jaqueline acrescenta que, “no caso da agricultura, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), aqui no Brasil, é um exemplo de pesquisa e atividade prática com essa temática há muitos anos, que é o fato de que muitas terras foram degradadas pelo caso de não terem sido usadas corretamente”. Com a retirada da cobertura florestal, o solo perde seus nutrientes. Para revitalizar o solo e torná-lo produtivo de novo, é necessário “recuperar o ciclo dela entre solo, água e nutrientes”, por exemplo, através de espécies que facilitam os processos de renutrição.

Jaqueline Gil prossegue ao falar da participação da arquitetura no ramo regenerativo, como é o caso do Hotel Rosewood, que transformou antigos edifícios históricos em um complexo de luxo sustentável urbano. Segundo a professora, o turismo “bebeu da fonte de setores que chegaram antes nessa prática, e quando eu trouxe esse caso do Hotel Rosewood, em São Paulo, eu estou diretamente falando da arquitetura regenerativa. Ao invés de derrubar aquele espaço que tem muita história e tem muita qualidade construtiva, a gente revitaliza ele e eu mantenho essa revitalização viva e dinâmica a partir do dinheiro do turismo. Se fosse só a arquitetura, provavelmente são aqueles prédios que passam por renovação, depois se tornam residências, ou se tornam escritórios comerciais. No nosso caso, é quando exatamente o dinheiro fica entrando a partir da atividade turística”.

Mão na massa ou não?

O turismo regenerativo age de duas formas para a recuperação: através do engajamento direto do turista que participa da atividade de regeneração ativamente ou através dos recursos financeiros arrecadados na atividade. “A gente tem uma parte dos turistas que quer colocar a mão na massa e, quando eles participam, a gente acelera o replantio e a regeneração desses espaços, sejam eles verdes (terrestres) ou azuis no mar.” O outro grupo que pretende descansar e não se envolver ativamente pode “promover este financiamento da recuperação desses espaços, a partir do que ela deixa envolvida naquela economia”, como detalha a pesquisadora da UnB.

Um exemplo do replantio feito através da participação dos turistas é a plantação de corais em Pernambuco. “Os turistas vão lá, de fato, e plantam os corais, orientados pela equipe e dentro de um desenho que é seguro para os turistas. Sem equipamentos com potencialidade de danos, se cortar, nada disso. A gente faz um desenho para que a experiência seja segura e interativa, positivamente para esse turista.”

 

 

Fonte – USP

Edição – Coopnews

Foto – jcomp/Wikimedia Commons

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