O avanço do mercado de carbono tem aberto novas oportunidades — e também desafios — para diferentes setores da economia. Em meio a esse cenário, um webinário reuniu especialistas para discutir o papel estratégico do cooperativismo na construção de soluções sustentáveis. A iniciativa colocou em evidência como cooperativas e cooperados podem atuar de forma mais ativa na agenda de descarbonização. Durante a live, foram abordados temas como regulação, viabilidade econômica e caminhos práticos para inserção no mercado. A discussão reforça que o cooperativismo pode ser peça-chave na transição para uma economia de baixo carbono. Mais do que tendência, trata-se de uma mudança estrutural que já impacta o presente.
O mercado regulado de carbono no Brasil deixou o campo das projeções e passou a ocupar espaço concreto na estratégia do cooperativismo. Webinário promovido pelo Sistema OCB nesta quarta-feira (30), reuniu representantes do governo federal, especialistas e lideranças do setor para discutir os desdobramentos da nova legislação e seus impactos para o movimento.
A abertura foi marcada por uma leitura clara do momento: a agenda climática agora é também econômica. A presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, enfatizou que o cooperativismo já se movimenta para ocupar esse espaço. “Estamos diante de uma oportunidade que envolve visão de governo, base técnica e, principalmente, prática. As cooperativas já estão atuando e mostrando como esse tema pode ser incorporado de forma estratégica”, afirmou.
Ela destacou o protagonismo institucional da entidade na construção do ambiente regulatório. “Acompanhamos toda a tramitação, com atuação política e técnica. Hoje estamos bem-posicionados, inclusive colaborando com entidades membros do comitê técnico consultivo, para contribuir com soluções para 2028, quando o mercado estará mais exigente”, acrescentou.
Tania também trouxe números concretos ao lembrar que, atualmente, 31 cooperativas já recebem apoio direto do Sistema OCB em iniciativas de descarbonização, e antecipou novos passos. “Vamos apoiar estudos para projetos de crédito de carbono. A ideia é mobilizar e incentivar as cooperativas a tratar esse tema com a seriedade e a estratégia que ele exige”, completou.
Ativo da transição climática
Representando o Congresso Nacional, o deputado Arnaldo Jardim (SP), presidente da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), fez uma defesa enfática do papel do coop na agenda climática e energética do país. “O cooperativismo já entrega, na prática, desenvolvimento sustentável. Distribui renda, gera oportunidade e incorpora boas práticas ambientais ao seu modelo de negócio”, afirmou.
Ele considerou que o setor tem histórico consolidado nessa agenda, desde marcos internacionais como a Rio-92 até as discussões mais recentes. E chamou atenção para um diferencial brasileiro: “quando adotamos plantio direto, bioinsumos e programas de agricultura de baixo carbono, estamos fazendo mais do que reduzir emissões, estamos sequestrando carbono. Isso precisa ser reconhecido e monetizado”, declarou.
O parlamentar também destacou a atuação da Frencoop na construção do marco regulatório, especialmente na decisão de não incluir o agro primário, neste primeiro momento, no mercado compulsório. “Não foi exclusão, foi estratégia. Precisamos primeiro de métricas adequadas à nossa realidade tropical. E estamos avançando nisso, inclusive com o apoio da Embrapa”, explicou.
Regulação: complexidade e janela de oportunidade
No primeiro painel técnico, o advogado e consultor do Sistema OCB, Leonardo Papp, afirmou que o Brasil entrou definitivamente na fase de implementação do mercado regulado. “A descarbonização da economia é uma realidade sem volta. A questão agora não é mais ‘se’, mas ‘como’ vamos fazer isso funcionar”.
Ele explicou que a Lei nº 15.042/2024 instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e criou um modelo baseado em metas de redução e negociação de créditos. Segundo o consultor, a fase atual (de regulamentação) é a mais sensível. “É agora que serão definidos critérios, metodologias e parâmetros técnicos. Isso vai determinar como o sistema vai operar na prática”.
Três pontos de atenção foram destacados para o cooperativismo por Papp: os produtores rurais como potenciais fornecedores de créditos; as cooperativas como possíveis agentes regulados, especialmente industriais e financeiras; e o modelo de negócio como ferramenta para ganho de escala e eficiência no sistema. “O cooperativismo pode ajudar a resolver gargalos clássicos do mercado de carbono, como custo de transação e assimetria de informação”, acrescentou.
A Coordenadora Geral de Governança da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Luísa Panico, apresentou um panorama detalhado da estrutura em construção. Ela declarou que o Brasil já mudou de patamar no cenário internacional. “Saímos da fase de discussão para a fase de implementação. O sistema brasileiro agora está em desenvolvimento e isso nos coloca dentro de uma lógica global de funcionamento das economias”.
Segundo ela, o modelo brasileiro busca equilíbrio entre regulação e competitividade. “O mercado de carbono não é para gerar custo adicional. É uma ferramenta de política industrial, que direciona investimentos para inovação e descarbonização”. E detalhou o cronograma previsto pela pasta. “Ainda este ano teremos a regulamentação completa e, em 2027, teremos o início do relato de emissões. Depois iniciaremos as fases de monitoramento, testes e implementação plena”.
Outro ponto central apontado pela coordenadora foi a governança do sistema, que envolve diferentes ministérios, com destaque para Fazenda e Meio Ambiente, além de um comitê técnico com participação de setores produtivos e sociedade civil. “A construção é coletiva. Precisamos de diálogo constante para garantir que o sistema seja robusto e aplicável”, concluiu.
Do conceito à prática
A Coordenadora de Finanças Sustentáveis da Way Carbon Letícia Gavioli apresentou um mergulho técnico nas possibilidades de atuação das cooperativas, tanto no mercado regulado quanto no voluntário. Ela explicou que, além de possíveis obrigações para cooperativas com maior nível de emissões, há um campo amplo de oportunidades. “No mercado voluntário, elas podem atuar como proponentes de projetos, financiadoras, implementadoras e até intermediárias”, detalhou.
Entre os exemplos práticos, a especialista citou projetos de biogás a partir de dejetos de animais; iniciativas de agricultura sustentável; sistemas agroflorestais; e atuação de cooperativas de crédito no financiamento de projetos.
Um dos pontos mais relevantes, de acordo com a especialista, é o papel das cooperativas na viabilização de escala. “O custo de um projeto de carbono é alto. A lógica coletiva do modelo de negócios permite agrupar produtores e tornar esses projetos viáveis economicamente”. Ela também apontou novas frentes, como escrituração de ativos ambientais; intermediação financeira; e seguros para projetos de carbono. “O cooperativismo precisa entender seu papel interno nessa agenda para poder influenciar e aproveitar as oportunidades externas”, finalizou.
O segundo painel trouxe exemplos concretos de cooperativas que já estão avançando na agenda de carbono. Na Cooxupé, a gerente de ESG, Natália Carr, destacou a evolução de práticas agronômicas tradicionais para modelos orientados à geração de valor. Iniciativas como o café regenerativo, aliadas à implementação de corredores ecológicos, passaram a viabilizar a geração de créditos de carbono e novas fontes de receita para os cooperados. A cooperativa também avançou no desenvolvimento de ferramentas próprias para mensuração de emissões nas propriedades.
No Sicredi, a especialista Rebecca Grandmaison evidenciou uma trajetória consistente no mercado voluntário, iniciada com a compensação integral das emissões do sistema já em seus primeiros movimentos. Desde então, o Sicredi passou a adquirir créditos de carbono em diferentes regiões do país, priorizando projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com impactos positivos nas dimensões ambiental, social e econômica. Com a evolução da agenda climática em sua estratégia, o foco passou a ser ainda mais ambicioso: estruturar um modelo em que os próprios associados possam gerar e monetizar créditos de carbono, conectando oferta e demanda dentro do sistema.
Já a Copagril apresentou um caso relevante de implementação em escala. Segundo o presidente Elói Darci de Lazzari, a iniciativa já mobiliza milhares de produtores. A diretora Ana Carolina Clivatti Ferronato detalhou a evolução do programa, que saiu de cerca de 2 mil para mais de 60 mil hectares, com a distribuição de mais de R$ 9 milhões aos participantes. O uso de tecnologia tem sido central para garantir a medição, rastreabilidade e validação dos créditos, elementos essenciais para a credibilidade e a escalabilidade do projeto.
De forma transversal, as experiências demonstram que o mercado de carbono no cooperativismo já está em fase de construção prática, combinando inovação, organização coletiva e geração de valor no território. Nesse contexto, o avanço do mercado regulado de carbono no Brasil tende a potencializar e acelerar iniciativas que já estão em curso, aproximando o país de experiências internacionais e ampliando as oportunidades para as cooperativas.
As apresentações realizadas durante o webinário estão disponíveis no link.
Fonte – OCB
Texto com apoio da Inteligência Artificial e edição da Coopnews
Foto – Divulgação/OCB




