Ensinar Literatura vai muito além de explicar autores, estilos ou características de um texto. Segundo especialistas, o verdadeiro desafio está em desenvolver diferentes formas de leitura e incentivar uma relação mais próxima entre o estudante e a obra literária. Quando o conteúdo dialoga com as experiências de vida dos alunos, a aprendizagem se torna mais atrativa e relevante. Essa abordagem contribui não apenas para a compreensão dos textos, mas também para a formação de leitores mais críticos, curiosos e conectados com o universo da Literatura.
O ensino de literatura não foi sempre igual. Os enfoques da aprendizagem desse campo de estudos das letras muda conforme o tempo, ao passo que a forma de entender a literatura muda também. Segundo a professora Neide Luzia de Rezende, da Faculdade de Educação da USP, estudar literatura esteve muito associado a estudar o texto literário, ou seja, “ensinar aspectos técnicos, a história da literatura”. Essa forma de entender essa área resultou em um ensino mais voltado para a parte técnica e menos para a relação entre o texto, o contexto e o leitor.
Essa parte mais acadêmica é o que a professora chama de um “tipo de ensino que utilizava de meios para ensinar a literatura”. Utilizar os aspectos é positivo, mas a parte mais importante é, para a pesquisadora, utilizá-los para dar sentido ao texto. “Na hora que eu identifico o narrador, o que ele faz ali? Qual é a relação dele com os outros aspectos do texto? E como que é isso? Ler isso também de fora da literatura. Ou seja, relacionar o texto com o que está fora, com o nosso tempo, com o contexto. Então essa prática de leitura é que a que gente entende hoje como importante, necessária e, como eu diria, uma prática contemporânea – e isso ficou muito fora do ensino.”
“O mais importante da literatura, de ensinar a literatura, não é ensinar o texto, mas como [ensinar] os modos de ler” (Neide Luzia de Rezende)
Mesclar a vida do aluno com o texto literário faz com que aprender literatura e o hábito de ler sejam mais cativantes. Para Neide, os currículos escolares têm insistido em que, para conhecer a literatura, é necessário não só entender os aspectos, mas também ler. “Leitura supõe leitor. Então, pensar no leitor que lê a literatura não apenas no ensino da literatura. A gente tem feito essa diferenciação de que o ensino de literatura tradicional está voltado para o texto, para ensinar o texto, enquanto que a ideia de leitura literária pressupõe a participação do leitor na construção do sentido da obra.”
Plataformização e leitura mecanizada
A introdução de tecnologias em sala de aula tem impactos positivos, como o maior acesso a obras literárias disponibilizadas digitalmente. Só que com essas tecnologias surge o problema da leitura mecanizada ao invés de uma experiência de leitura, como explica a professora Andrea Saad Hossne, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. “Você tem que estar diante de uma tela, você tem um tempo médio de leitura, a luzinha não fica verde para você passar para a página seguinte, enquanto você não passou um certo tempo ali na frente da tela. Então, se você for alguém que lê mais rápido, é um problema. Vai parecer que você não leu nada”, diz Andrea.
Nessas plataformas, enquanto o aluno lê, aparecem perguntas de checagem para a comprovação da leitura. Nelas, há perguntas como aspectos da obra, como “quem é o personagem principal que está falando”? Outro fator que agrava a mecanização é a necessidade de cumprir metas. Metas semanais de quantas páginas lidas são um exemplo que não favorece uma leitura proveitosa dos textos literários.
“Pergunta para qualquer pessoa que já gosta de ler, que se tornou um leitor, como ela se sentiria lendo dessa maneira?” (Andrea Saad Hossne)
A literatura canonizada
A palavra literatura tem difícil definição. Andrea fala que: “Até mais ou menos o século 18, a palavra literatura, embora já existisse, não era utilizada em geral, a palavra utilizada era poesia. Para falar de tudo o que hoje a gente põe na literatura. […] A palavra literatura existia, mas ela tinha a ver com a ideia da eloquência de saber usar bem a linguagem, a linguagem verbal”. Com o passar do tempo, a literatura passa a ganhar espaço como campo de estudo na medida em que ganha autonomia.
Outro problema é em relação ao que é ou não literário. Esse questionamento discute se existem obras exemplares, chamadas de canônicas ou não. Obras que são capazes de conversar com diferentes grupos e de diferentes épocas, como se fossem universais. A existência ou não desses textos canônicos provoca dúvidas sobre se é possível ensinar através deles: “É todo um movimento social, histórico, econômico, de reivindicações de direitos civis, de direitos raciais, do feminismo, de uma série de minorias que vão requerendo espaço para sua voz. […] Quem escreve? Quem encontra o espaço para a sua manifestação criativa de linguagem artística. Quem lê, quem tem acesso, todas essas coisas começam a permear o campo da literatura”, afirma Andrea.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/ Redação e Edição da Coopnews
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