A relação entre alimentação e mudanças climáticas está no centro de um dos maiores desafios da atualidade. Segundo Jaqueline Ferreira, é urgente buscar um equilíbrio entre o sistema agroalimentar e a bioeconomia para reduzir impactos ambientais e fortalecer a sustentabilidade. A especialista destaca que a produção de alimentos precisa avançar de forma responsável, conciliando desenvolvimento econômico, conservação dos recursos naturais e segurança alimentar. O debate ganha relevância diante do agravamento da crise climática e da necessidade de construir soluções que beneficiem tanto as pessoas quanto o planeta.
A bioeconomia tem ganhado destaque nas discussões sobre desenvolvimento sustentável. No sistema agroalimentar, esse debate tem se tornado cada vez mais relevante, tendo em vista que a produção de alimentos está diretamente relacionada com a biodiversidade, desde as ações de mudança do uso do solo, passando pelo que se escolhe cultivar e criar, e chegando até o consumo de alimentos, no qual se verifica um sério problema de redução de biodiversidade. Jaqueline Ferreira, pesquisadora do INCT Superar a tríplice monotonia do sistema agroalimentar e filiada à Cátedra Josué de Castro, explica o que é a bioeconomia e seus objetivos.
“O conceito de bioeconomia tem significados diversos e, dependendo do contexto que é usado, pode ser utilizado para se referir tanto a processos industriais e de laboratório que usam recursos biológicos ao invés de material sintéticos quanto a modelos de produção fora dos laboratórios e indústrias que garantem o uso sustentável da biodiversidade, como as agroflorestas. O decreto que institui a Estratégia Nacional de Bioeconomia, por exemplo, amplia o conceito ao trazer valores como justiça, ética e inclusão para a sua definição como um modelo de desenvolvimento que gera produtos, serviços e processos baseados no uso sustentável da biodiversidade, considerando a sua conservação e regeneração. Assim, define que tanto os conhecimentos tradicionais quanto científicos norteiam a bioeconomia.”
As relações do sistema agroalimentar com a bioeconomia
A pesquisadora ressalta que a forma como o sistema agroalimentar se consolidou na sociedade é uma ameaça à bioeconomia e à biodiversidade. “É também bioeconomia a agricultura que faz uso sustentável da biodiversidade, garantindo sua conservação e regeneração. O problema é que, historicamente, a agricultura foi se afastando disso, sendo hoje considerada um dos principais motores da perda da biodiversidade global. O que vimos em décadas com Revolução Verde foi a expansão de uma agricultura monocultora, que utiliza de forma intensiva e crescente terras, agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Um modelo diretamente relacionado ao desmatamento, à contaminação e degradação dos solos e recursos hídricos. A forma como o sistema agroalimentar se consolidou ao longo dos anos constitui uma ameaça à consolidação e desenvolvimento da bioeconomia. Experiências exitosas de produção de alimentos por meio do uso sustentável da biodiversidade competem, de forma desigual, com o modelo convencional e hegemônico de produção, seja nos territórios, no acesso aos mercados, recursos financeiros e políticas públicas.”
A importância de uma boa relação entre as partes
Jaqueline explica que o desafio é grande, mas é necessário haver um equilíbrio entre o sistema agroalimentar e a bioeconomia. “É o caminho que devemos percorrer, considerando a urgência da crise climática e as ameaças de colapso do sistema agroalimentar que alimenta o mundo. Precisamos urgentemente aumentar a biodiversidade na nossa produção de alimentos. Isso envolve parar o desmatamento, restaurar e integrar paisagens, fomentar mudanças de práticas produtivas por parte dos agricultores, fomentar outra indústria de insumos agropecuários, outro serviço de assistência técnica e serviço agronômico, outros mercados consumidores, garantir a inclusão dos pequenos agricultores nessa transição de modelo produtivo e fortalecer agricultores que já produzem de forma sustentável. O desafio é grande, mas a aproximação entre as agendas da bioeconomia e do sistema agroalimentar só fortalece essa transição e, pode, por exemplo, trazer mais recursos e ajudar a redirecionar os recursos existentes, que são majoritariamente direcionados para o modelo convencional de produção de alimentos”, finaliza.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/ Edição da Coopnews
Foto – geralt/Pixabay e nattanan23/Pixabay




