Na Floresta Nacional de Carajás, no Pará, a mata densa e úmida guarda tesouros escondidos. É neste cenário que um projeto científico realizado com a participação de um cooperativa trabalha para preservar uma planta fundamental para a medicina moderna: o jaborandi, ou Pilocarpus microphyllus. A espécie amazônica é a única fonte natural conhecida da pilocarpina, composto usado no tratamento de doenças como glaucoma e a Síndrome de Sjögren.
Os pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) contam com um ativo especial para essa missão: a força do cooperativismo, representada pela Coex Carajás. A cooperativa reúne extrativistas da unidade de conservação desde 1990 e é reconhecida pelo manejo sustentável da floresta.
O jaborandi é uma planta classificada como vulnerável na Lista Vermelha da Flora Brasileira, ou seja, com alto risco de extinção na natureza em médio prazo. A preservação é urgente, em especial porque não há alternativa sintética à pilocarpina extraída da planta. Para resolver essa equação, os pesquisadores do ITV, com apoio da comunidade local e do envolvimento da Coex Carajás, criaram uma coleção inter situ, ou um “banco vivo de conservação” do jaborandi. Isso porque a planta não pode ser preservada por métodos tradicionais, como na forma de sementes.
“Existem bancos de sementes espalhados por vários locais no mundo. Se, por exemplo, algum dia ocorrer uma catástrofe mundial, você consegue recuperar as espécies usando esses acervos. Há várias espécies que a gente chama de sementes ortodoxas, que conseguem ser armazenadas por longos períodos. Mas outras perdem a viabilidade muito rápido, como o jaborandi”, explica o pesquisador Cecilio Caldeira Frois.
O estudo, comandado por ele e pela equipe do ITV, foi publicado na renomada revista científica PLOS One. Há várias formas de manter uma coleção de plantas e, no caso do jaborandi, a aposta foi pela forma inter situ, ou seja, no próprio local em que a espécie se desenvolve, a partir da recuperação das áreas degradadas.
“A grande vantagem da coleção inter situ é que, além de estudos, ela serve para uso. As plantas crescem como se estivessem em um ambiente natural”, explica o cientista. Antes do plantio, é feito um estudo genético das mudas em viveiro, um traçado das áreas e o desenvolvimento das técnicas para que elas brotem. Depois, vem a fase de manejo, em que os pesquisadores acompanham as espécies para avaliar a sobrevivência e o crescimento.
“Isso tudo é feito durante vários anos até que a coleção se estabeleça. Aquelas plantas que nós levamos começam a ter ‘novos filhos’ ali e conseguem ter autonomia da população”, resume. O trabalho da pesquisa começou em 2020, com a coleta das sementes que indicaram quatro populações geneticamente distintas do jaborandi – três delas apresentaram resultados expressivos, com mais de 500 plantas estabelecidas.
Protagonismo coop
Com experiência de muitos anos no manejo sustentável do jaborandi na região, a Coex Carajás tem papel fundamental na pesquisa. Os cooperados participaram de diversas etapas do estudo, desde o planejamento até o trabalho em campo, que é remunerado pelo instituto. “Boa parte das ações que a gente executa, a cooperativa participa. Por exemplo, para mapear as áreas de ocorrência do jaborandi na Floresta Nacional de Carajás. Quem vai a campo e coleta os dados são os cooperados. A gente faz o treinamento e os contrata”, explica Frois.
O resultado da cooperação beneficia os extrativistas, a ciência e toda a sociedade, uma vez que a preservação do jaborandi garante o tratamento de quem precisa do ativo. “Esse mapeamento vai retornar para os cooperados da Coex Carajás, porque essas novas áreas serão os locais onde eles poderão explorar folhas e sementes de jaborandi no futuro”, pondera o pesquisador. Além disso, a equipe do ITV pretende elaborar um guia sobre como implantar coleções de espécies excepcionais, como o jaborandi, auxiliando outras frentes de trabalho científico.
Cooperativismo e desenvolvimento na Amazônia
O superintendente do Sistema OCB/PA, Júnior Serra, destaca que as cooperativas paraenses, pela própria inserção no bioma amazônico, praticam a bioeconomia desde sua essência. “Elas estão auxiliando nesse modal da integração entre homem e natureza. Muitas cooperativas como a Coex Carajás precisam estar com o ecossistema equilibrado para produzir”, ressalta.
O pesquisador Cecílio Frois destaca que a presença de uma comunidade local dedicada ao manejo sustentável foi o ambiente perfeito para que o estudo se desenvolvesse da melhor forma possível. “A gente encontra na espécie uma demanda comercial, uma demanda de conservação e uma comunidade local que quer e precisa fazer a conservação e o manejo da espécie. Essa sinergia com a cooperativa. Para mim, que trabalho com pesquisa, ver isso sendo aplicado é extraordinário”, afirma.
Serra destaca que, com a participação das cooperativas em projetos de sustentabilidade ambiental, o ganho deixa de ser individual para se tornar coletivo. “O cooperativismo é uma importante ferramenta de desenvolvimento social e econômico, capaz de impulsionar a preservação ambiental, a permanência das pessoas no campo e promover o desenvolvimento tão necessário para essas comunidades”.
Fonte – OCB
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Divulgação/OCB




