Cuidar de quem envelhece vai muito além de prescrever remédios ou analisar exames em quatro paredes. Para garantir um acompanhamento realmente eficaz, profissionais de saúde estão provocando uma mudança essencial de perspectiva: conectar o atendimento técnico ao ambiente onde a pessoa idosa vive. A velhice é uma experiência complexa e diversa, moldada não apenas pela biologia, mas pelas condições sociais, emocionais e comunitárias de cada indivíduo. Quando a equipe médica enxerga a pessoa idosa em toda a sua dimensão — correlacionando seus sintomas à sua história, suas relações e seu território —, o tratamento ganha um novo significado. Essa abordagem humana e integrada surge como o caminho mais promissor para promover a autonomia, prevenir o isolamento e devolver o protagonismo e a dignidade a quem muito já contribuiu com a sociedade.
O tema do envelhecimento tem sido a tônica em muitas discussões de grupos de trabalho na Atenção Básica. Isso é ótimo. Atribuo esse destaque ao aumento da população idosa, que vem tensionando progressivamente o setor da saúde pública. Atrelado a isso, também obtivemos avanços em tecnologia, conhecimento, manejos e intervenções.
Cada vez mais reconhecemos que as questões relacionadas à saúde, mobilidade, acessibilidade, condições sociais, sexualidade, aspectos financeiros, relações interpessoais e intrapessoais, espiritualidade, solidão, crenças pessoais, aspectos culturais, alterações fisiológicas, preconceitos e idadismo, entre outros fatores, atravessam e impactam a vida da pessoa idosa.
Quando lidamos com alguns desses temas, percebemos que é difícil desmembrar o que pertence às esferas social, psicológica, fisiológica, ambiental e pessoal, pois existe um entrelaçamento entre elas que qualquer tentativa de fragmentação compromete a construção de um cuidado coerente e efetivo.
Com a finalidade de ilustrar essa reflexão, trago um breve relato de uma situação corriqueira na Atenção Básica.
Uma pessoa idosa com artrose de quadril sente dores ao se movimentar, apresenta dificuldade para sentar e levantar, subir e descer degraus, o que impacta diretamente sua mobilidade. Soma-se a isso o fato de que sua moradia e o bairro onde vive possuem escadas. Toda vez que precisa fazer compras, é necessário um planejamento prévio, além da dependência de outra pessoa para ajudá-la, principalmente para transportar as compras até sua casa.
Além disso, essa pessoa tem dificuldade para manter atendimentos semanais nos serviços de saúde, pois as barreiras arquitetônicas tornam o acesso, muitas vezes, de difícil transposição.
A dor, a redução da mobilidade e a dependência geram apatia e desânimo, afetando a qualidade do sono, a alimentação, a interação social e o próprio processo de reabilitação. Essa é uma situação frequente e produz outros impactos sobre os quais não vou me estender. Meu objetivo é apenas ilustrar, de forma breve, como diferentes fatores interferem na vida de uma pessoa.
Portanto, compreender o envelhecimento dentro dessa configuração multidimensional e inter-relacional exige um olhar capacitado para correlacionar uma condição de saúde aos diversos fatores que impactam a vida da pessoa idosa.
A compreensão de que existe uma costura entre as múltiplas dimensões que constituem o ser humano precisa ser constantemente acionada. Dessa forma, conseguimos entender que uma única situação repercute em toda uma rede de relações. Essa compreensão é fundamental, pois amplia a abordagem da pessoa idosa para além da perspectiva linear de causa e efeito ou da queixa e conduta.
A gerontologia nos estimula a olhar para a integralidade do sujeito. Dessa forma, faz-se necessário pensar em ações cada vez mais articuladas e sistêmicas na promoção do cuidado em saúde.
Precisamos progredir na abordagem à pessoa idosa, ir além da identificação dos fatores limitantes e avançar nas ações propriamente ditas. É preciso superar a dicotomia entre saúde e doença e reconhecer, efetivamente, tudo o que existe entre elas.
Obviamente, a prática agrega conhecimento, amplia o repertório de intervenção e refina a atuação profissional. No entanto, precisamos aproximar, de forma efetiva, os estudos acadêmicos da prática profissional. Digo isso porque ainda observo, em algumas falas e intervenções dirigidas à pessoa idosa, a sobreposição do senso comum ao conhecimento técnico.
Ocasionalmente, cometemos equívocos na nossa atuação; isso faz parte do exercício profissional. Porém, é necessária uma reflexão crítica sobre o que estamos fazendo, sobre quem somos profissionalmente e sobre o legado de conhecimento e de intervenção que estamos construindo na gerontologia aplicada à Atenção Básica.
Dessa forma, o investimento intelectual é um dos caminhos para ampliar o olhar para a gerontologia, agregado a uma abordagem sistêmica. É preciso ter conhecimento e compreender como os fatores relacionados à vida da pessoa idosa interagem e interferem entre si.
No que se refere ao campo das intervenções e dos serviços em saúde pública, também é necessário pensar em um formato híbrido entre os programas de saúde e os programas assistenciais, articulado a políticas públicas mais abrangentes. Os serviços existentes ainda direcionam o olhar para aspectos fragmentados do sujeito ao estabelecer critérios de elegibilidade que, em certa medida, acabam sendo excludentes.
Explico melhor.
Os serviços de atendimento domiciliar, por exemplo, têm como critério atender pessoas restritas ao leito e que disponham, obrigatoriamente, de um cuidador responsável pelo acompanhamento e pela continuidade das recomendações realizadas pela equipe de saúde no domicílio. Entretanto, o cenário que frequentemente encontramos é o de casais de pessoas idosas que cuidam mutuamente um do outro.
Nem sempre a pessoa idosa que também exerce o papel de cuidadora consegue responder a todas as demandas do cuidado. Como consequência, algumas recomendações podem não ser efetivadas em razão de fatores ambientais, cognitivos, funcionais, entre outros, prolongando o tempo de acompanhamento da equipe ou comprometendo a efetividade do cuidado.
Outro cenário recorrente é o da pessoa idosa que não está restrita ao leito, consegue se locomover dentro de casa, mas, devido às barreiras arquitetônicas e à redução da mobilidade, não consegue acessar os serviços de saúde com a frequência necessária. Isso acarreta prejuízos à sua saúde funcional e, provavelmente, a médio e longo prazo, poderá resultar em um quadro que demandará atendimento domiciliar.
Como trabalhar a prevenção, a intervenção e a promoção da saúde nessas situações? Qual equipe poderia assumir esse cuidado? A sobreposição de serviços seria uma alternativa? Ou uma equipe com maior potencial de articulação intersetorial seria mais efetiva?
Outro aspecto que merece atenção é a permanência da pessoa idosa em sua residência e na comunidade. Isso favorece a segurança, fortalece o sentimento de pertencimento e evidencia a importância do investimento no território.
Fortalecer as equipes de Atenção Básica voltadas ao atendimento domiciliar e apoiar a reinserção da pessoa idosa na comunidade constituem uma abordagem mais digna e humanizada.
O treino de marcha realizado na comunidade faz mais sentido e tende a ser mais estimulante quando acontece na calçada da própria casa da pessoa idosa do que no corredor de um serviço de saúde.
Além disso, essa abordagem favorece a identificação dos obstáculos e possibilita trabalhar, junto à comunidade, na melhoria das barreiras arquitetônicas, como escadarias mal executadas, calçadas estreitas ou mal conservadas, buracos, entre outros.
Evidentemente, todo trabalho de reabilitação requer responsabilidade e cuidado durante sua execução. Não proponho uma atuação que exponha a pessoa idosa a riscos. Minha intenção é ampliar as possibilidades de intervenção, expandindo a atuação para além do consultório ou do serviço de saúde e apresentando alternativas que façam mais sentido para a pessoa idosa.
Sabemos que, em muitos casos, a dificuldade para deambular está mais relacionado à insegurança e ao receio de sofrer uma nova queda do que à limitação funcional propriamente dita.
Atuação in loco: estratégia positiva, propositiva e efetiva
Nessa perspectiva sugiro uma equipe de Atenção Básica com perfil para atuar na comunidade, na casa, na vizinhança e no comércio. Isso implica uma agenda integrada entre os profissionais, tempo estendido para contemplar o deslocamento e a intervenção, além de recursos que viabilizem o trabalho da equipe. Uma equipe capaz de articular ações com a comunidade, promovendo melhorias, tanto na esfera individual quanto na coletiva.
O atendimento à pessoa idosa é diferente do atendimento ao adulto, pois o processo de envelhecimento traz características, necessidades e desafios específicos que exigem uma abordagem própria. A geriatria e a gerontologia existem justamente para estudar essas particularidades e orientar práticas de cuidado mais adequadas. Dessa forma, as intervenções destinadas à população idosa não podem ser planejadas da mesma forma que aquelas voltadas aos adultos em geral. Nesse contexto, a atuação in loco mostra-se uma estratégia positiva, propositiva e efetiva, por possibilitar um cuidado mais individualizado, contextualizado e alinhado às necessidades reais da pessoa idosa.
Precisamos avançar nos atendimentos domiciliares e na atuação comunitária, ampliar os critérios de elegibilidade, fortalecer as equipes de saúde, incluir outros profissionais nos programas e reformular os programas de saúde e assistência já existentes. Podemos começar aprimorando o que já temos e, posteriormente, propor novos programas e abordagens.
Portanto, além de nos apropriarmos do conhecimento do ponto de vista da gerontologia, atrelando-o à prática, precisamos ampliar nosso olhar, ainda predominantemente biomédico, para uma clínica ampliada, capaz de articular o cuidado em rede e compreender o ser humano em sua totalidade e individualidade, considerando a relação dialética entre o sujeito e o contexto, tanto no âmbito particular quanto no coletivo.
Fonte – Portal do Envelhecimento
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Divulgação/Portal do Envelhecimento




