A história de como rãs e sapos conquistaram as Américas ganha um novo e fascinante capítulo em Manaus. Nesta quinta-feira (10), às 16h, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) recebe a pesquisadora colombiana María Camila Vallejo-Pareja para a palestra “Ranas y Sapos fósiles de Centro América: importancia y avances en la paleontologia de anuros Neotropicales”. Doutora em paleobiologia de vertebrados e pós-doutorando no prestigiado Florida Museum of Natural History, a cientista vai apresentar descobertas baseadas em anuros fósseis que ajudam a decifrar como mais de 13 famílias de anfíbios se espalharam pelo continente ao longo de milhões de anos. O evento é aberto ao público e acontece no Auditório da Editora do Inpa, reunindo estudantes, pesquisadores e entusiastas da ciência para debater os caminhos da evolução neotropical.
Quando olhamos para a riqueza de anfíbios que habitam as florestas tropicais das Américas hoje, é fácil esquecer que essa biodiversidade é o resultado de uma longa e complexa saga evolutiva. A América Central, em particular, funciona como uma ponte natural entre duas grandes massas de terra, abrigando atualmente mais de 13 famílias de anuros — o grupo taxonômico que reúne rãs, sapos e pererecas. No entanto, entender exatamente como, quando e por onde os ancestrais desses animais se moveram entre o Sul e o Norte do continente continua sendo um dos mistérios mais intrigantes da biogeografia moderna.
A resposta para esse quebra-cabeça histórico pode estar escondida sob a terra. Embora estudos genéticos baseados em DNA de espécies vivas indiquem que esses animais possuem origens divididas entre a América do Norte e a América do Sul, a genética sozinha não consegue precisão absoluta sobre o tempo exato e os caminhos percorridos ao longo do tempo profundo. É aí que a paleontologia entra como peça fundamental.
Durante a palestra no Inpa, María Camila Vallejo-Pareja vai mostrar como o estudo detalhado de anuros fósseis encontrados no Panamá — datados de aproximadamente 19 milhões de anos (período Mioceno) — e em Honduras — com cerca de 6 milhões de anos — oferece pistas diretas sobre esse processo de dispersão. Esses vestígios rochosos fornecem marcos temporais concretos, permitindo que os cientistas validem hipóteses sobre o clima, o relevo e as conexões terrestres da época em que esses anfíbios se diversificaram.
Identificar ossos de sapos e rãs do passado, contudo, é um desafio enorme. Diferente dos grandes dinossauros ou mamíferos, o esqueleto dos anuros é pequeno, frágil e muitas vezes se preserva de forma incompleta. Além disso, a anatomia das espécies modernas é bastante conservada, o que torna difícil diferenciar um osso fóssil de uma espécie extinta daquele de uma espécie atual. Para superar esses obstáculos taxonômicos e morfológicos, a pesquisadora utiliza uma abordagem multidisciplinar de ponta.
Atuando na Divisão de Imagens Digitais do Museu da Flórida, Vallejo-Pareja combina métodos tradicionais de morfologia comparativa e consultas a acervos de história natural com tecnologia de ponta, como digitalização e reconstrução 3D. Essa técnica permite “fatiar” virtualmente fósseis delicados por meio de microtomografia computadorizada sem danificar o material, revelando estruturas internas microscópicas com altíssima precisão. O resultado é uma compreensão muito mais apurada sobre a paleobiologia e a paleoecologia das espécies extintas.
Mais do que apresentar dados técnicos, a palestra visa conscientizar a comunidade científica sobre a necessidade urgente de valorizar o registro fóssil de anfíbios, historicamente menosprezado em relação a outros grupos de vertebrados. Compreender como rãs e sapos reagiram a mudanças climáticas e transformações geográficas no passado não é apenas uma curiosidade sobre o ontem, mas uma ferramenta vital para prever como a biodiversidade atual pode responder às crises ambientais do presente.
O evento no Auditório da Editora do Inpa promete ser uma oportunidade única para estudantes e pesquisadores da Amazônia trocarem experiências com uma das principais especialistas do setor na América Latina, fortalecendo a integração entre a paleontologia neotropical e os estudos de conservação da biodiversidade atual.
Fonte – Ascom
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Daira Martins




