Ciência e Tecnologia

Ginástica para Todos ressignifica corpo e renova esperança em mulheres com câncer

Estudo da USP analisa como a prática corporal coletiva e não competitiva auxilia na saúde física, mental e no bem-estar de pacientes oncológicas.
Projeto GYM for DREAM reúne mulheres entre 34 e 73 anos em uma rede de acolhimento, expressão artística e fortalecimento da autoestima.
Resultados evidenciam a importância de práticas inclusivas no SUS e no tratamento oncológico, transformando o corpo doente em espaço de vida e potência.

Uma pesquisa desenvolvida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo (USP) revela o impacto transformador da Ginástica para Todos (GPT) na vida de mulheres diagnosticadas com câncer. Conduzida por Shaianny Fontenelle Sá Flores, sob orientação da professora Michele Viviene Carbinatto, a dissertação de mestrado analisou as vivências de 12 integrantes do grupo GYM for DREAM (G4D), criado em parceria com o Instituto ZENcâncer. Sem foco em competição ou alto rendimento, a modalidade combina elementos gímnicos, dança e teatro, permitindo que participantes de 34 a 73 anos ressignifiquem a relação com o próprio corpo após o diagnóstico. Os achados indicam que o movimento coletivo vai além dos benefícios biológicos: promove a reconstrução da autoestima, proporciona momentos de lazer, resgata o sentimento de pertencimento e fortalece a saúde mental durante o tratamento. Apoio essencial no cuidado integral, a prática demonstra que a saúde envolve acolhimento e dignidade, oferecendo novas perspectivas de futuro e superação para pacientes em acompanhamento oncológico.

O câncer é caracterizado pelo crescimento desordenado de células que invadem tecidos e órgãos, sendo uma das principais causas de adoecimento e morte no mundo. Diante dessa realidade, práticas corporais e atividades físicas tornam-se uma estratégia fundamental para prevenção e complementação do tratamento oncológico. Essas práticas transcendem o fortalecimento físico e são essenciais para a saúde mental ao proporcionarem bem-estar, experiências significativas e uma valiosa convivência social que ajuda o indivíduo a lidar de forma mais positiva com os desafios da doença.

Nesse sentido, a pesquisadora Shaianny Fontenelle Sá Flores, sob orientação da professora Michele Viviene Carbinatto, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, investigou a experiência de pacientes oncológicos no programa GYM for DREAM (G4D) – um grupo inclusivo de Ginástica para Todos (GPT) criado em parceria com o Instituto ZENcâncer. O objetivo da dissertação de mestrado intitulada A percepção da experiência vivida por pessoas com câncer na Ginástica para Todos foi descrever e analisar como essas vivências coletivas em movimento colaboram para a construção de novos sentidos de saúde e para ressignificar a vida afetada pelo câncer.

Os resultados da pesquisa apontam que a Ginástica para Todos promove uma poderosa reconexão do paciente com o próprio corpo, que passa a ser experienciado como presença, potência e possibilidade. Além de benefícios biológicos ou resultados físicos, a ginástica trouxe lazer, melhor autoestima e sentimentos de superação e esperança às participantes, bem como uma rede essencial de pertencimento, acolhimento e cuidado mútuo. Assim, a pesquisa ressalta que a educação física também deve incentivar propostas mais sensíveis, inclusivas e alinhadas à experiência vivida dos sujeitos, reafirmando que a saúde é muito mais ampla do que a mera ausência de doenças.

Saúde e movimento para todos

A Ginástica para Todos (GPT) é uma prática corporal caracterizada pela ausência de competitividade, focando essencialmente no prazer do movimento e no bem-estar coletivo. Sua grande importância reside na acessibilidade e na inclusão, permitindo que pessoas de todas as idades, gêneros e condições físicas participem de forma igualitária. Longe das exigências de performance e alto rendimento, a GPT celebra a diversidade e a autoexpressão por meio de composições coreográficas que integram ações gímnicas, teatro, dança e culturas diversas.

“Para mim, a Ginástica para Todos é companheirismo, é superação, é vencer os limites, é ser independente, é perceber que eu sou capaz de ir além”, relata uma das participantes do projeto.

Essa modalidade se alinha diretamente ao conceito de Práticas Corporais e Atividades Físicas (PCAF), abordagens que articulam de forma profunda a qualidade de vida, a saúde e o próprio sentido de viver. Como parte do escopo de políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS) e sendo amplamente recomendadas pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), essas práticas assumem um papel vital na prevenção de doenças, no estilo de vida saudável, no autocuidado e na dignidade humana.

Diversas pesquisas demonstram que essas práticas auxiliam na prevenção, no tratamento e no controle do câncer em múltiplos níveis, trazendo benefícios que englobam as esferas física, mental, psicológica e espiritual. Assim, a ginástica se consolida como uma atividade corporal fundamental para trazer não apenas bons resultados clínicos, mas também permitir que o paciente se reconecte com o mundo e com o próprio corpo.

Um projeto transformador

O Instituto ZENcâncer é uma associação sem fins lucrativos que oferece práticas integrativas de bem-estar gratuitas para pessoas com câncer. O programa GYM for DREAM (G4D) surgiu a partir da iniciativa de uma voluntária do instituto, que buscava possibilitar a vivência da Ginástica para Todos e valorizar as histórias de vida dos participantes em composições coreográficas, rompendo com estereótipos associados à condição oncológica.

“Nós somos o primeiro grupo de pacientes oncológicos na Ginástica para Todos do Brasil! Estamos aí nos apresentando, levando essa mensagem para o mundo, né? Não só para as pessoas doentes, mas para o mundo”, destaca outra integrante do grupo.

Por meio de uma abordagem fenomenológica, a pesquisa investigou a experiência de 12 mulheres diagnosticadas com câncer e faixa etária entre 34 e 73 anos, sendo todas integrantes do grupo GYM for DREAM (G4D) do instituto. O método principal consistiu em entrevistas realizadas em duas sessões: antes e após a participação do grupo no Festival GYM Brasil de Ginástica para Todos em Aracaju, Sergipe.

Durante a coleta de dados, a pesquisadora apresentou perguntas norteadoras para compreender como essas mulheres se sentiam em relação ao próprio corpo e qual a importância da ginástica em suas vidas. Após essa etapa, os depoimentos foram reunidos e analisados para mapear as experiências, sensações e percepções compartilhadas pelas participantes ao praticar a Ginástica para Todos.

Novos modos de habitar o corpo

Os resultados do estudo comprovaram que a Ginástica para Todos é uma prática corporal capaz de promover bem-estar em múltiplos sentidos. Um dos achados mais significativos foi o poder da modalidade em ajudar as participantes a ressignificarem o corpo adoecido: para além da dor, das intervenções médicas ou das restrições impostas pelo câncer, o corpo em movimento passou a ser percebido como um espaço de vitalidade e possibilidade, impactando positivamente a recuperação física e a saúde mental das mulheres.

“É uma realização, é uma alegria, porque você pode fazer do jeito que dá e ainda assim se sentir uma ginasta, uma bailarina, né? Você vestir aquele figurino e perceber que pode dar muito de si pra fazer uma coisa bonita, é incrível! Ainda mais sendo paciente oncológica, né? É mais incrível ainda, mesmo cheia de comorbidades, é uma realização”, compartilha uma participante.

Os depoimentos evidenciaram que a prática regular da ginástica melhorou substancialmente a autoestima de cada uma delas, reconstruindo a confiança que muitas vezes é abalada durante o tratamento. As participantes se sentiram capazes de desafiar seus limites, desmistificando estigmas relacionados à doença e à própria idade. Todas relataram se sentir aptas e encorajadas, encontrando no movimento e nas composições coreográficas uma forma expressiva, sensível e libertadora de contar suas histórias.

Além dos benefícios clínicos e individuais, a pesquisa destacou a força terapêutica do coletivo, trazendo o sentimento de acolhimento e o orgulho de pertencerem a algo importante. Essa união culminou na participação do grupo no evento de ginástica em Aracaju (SE), uma experiência que fortaleceu os vínculos e permitiu que elas voltassem a sonhar e fazer planos para o futuro com entusiasmo.

Os achados reforçam a importância de incentivar propostas que consideram o ser humano de forma integral, trabalhando o físico e o mental simultaneamente por meio da coletividade e da inclusão. A Ginástica para Todos demonstrou ser uma ferramenta poderosa para a ressignificação do corpo para mulheres com câncer, trazendo superação e esperança. A pesquisa amplia a compreensão de como práticas corporais acolhedoras e humanizadas são indispensáveis na melhoria da qualidade de vida de pacientes oncológicos.

 

 

Fonte – Jornal da USP (Livia Borges / EEFE-USP)

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews

Foto – Divulgação/Retirada da dissertação

 

 

Ginástica para Todos tratamento oncológico

 

 

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