Entre os anos de 2000 e 2024, o Brasil registrou a entrada de 34.038 imigrantes angolanos, impulsionados majoritariamente pela busca por melhores condições de saúde, educação e estabilidade social. No entanto, uma tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) revela que a realidade encontrada por esses cidadãos no mercado de trabalho brasileiro mantém fortes semelhanças com estruturas de exploração iniciadas no período colonial. Desenvolvido pela geógrafa Priscilla Pachi e orientado pelo professor César Ricardo Simoni Santos, o estudo aponta que a maioria dos profissionais angolanos — mesmo possuindo formação superior em seu país de origem — é relegada a funções informais, mal remuneradas e precarizadas, como serviços de limpeza e construção civil. Além das dificuldades econômicas, a pesquisa destaca o impacto do racismo estrutural e da xenofobia, fenômenos que tornam a adaptação no Brasil um desafio cotidiano e evidenciam barreiras históricas persistentes na sociedade brasileira.
A trajetória de cidadãos angolanos que migram para o Brasil em busca de novas oportunidades esbarra em barreiras estruturais profundas, que ecoam marcas históricas de exploração. É o que demonstra a tese de doutorado “Imigrantes angolanos em São Paulo: uma análise sobre a inserção no mercado de trabalho e a reprodução da vida em São Paulo”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH-USP por Priscilla Pachi.
De acordo com registros do Sistema de Registro Nacional Migratório (SisMigra), 34.038 angolanos ingressaram no território brasileiro entre 2000 e 2024. O levantamento acadêmico examina como a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho local reproduz dinâmicas de superexploração semelhantes às observadas desde o período colonial.
Precarização e barreiras profissionais
A pesquisa aponta que boa parte dos imigrantes angolanos enfrenta severas restrições para exercer suas profissões de origem, acabando por ocupar postos informais e de baixa remuneração na construção civil ou em serviços de limpeza. Como os rendimentos costumam ser inferiores aos de outros trabalhadores no país, muitos se veem obrigados a acumular jornadas ou funções.
Esse cenário de vulnerabilidade econômica reverbera diretamente nas condições de habitação, no consumo e nos espaços frequentados por essa população. Embora as empresas contratantes muitas vezes se beneficiem do fato de os angolanos dominarem a língua portuguesa — economizando com custos de adaptação linguística —, os imigrantes relatam dificuldades crônicas de ascensão profissional e de reconhecimento de suas qualificações.
Por que o Brasil?
O fluxo migratório tem raízes profundas na história recente de Angola. O país enfrentou um longo processo de independência seguido por uma guerra civil, conflitos que totalizaram cerca de quatro décadas de instabilidade e destruição institucional. As marcas desse período refletem-se até os dias atuais nas dificuldades de acesso universal a serviços essenciais como saúde e educação pública de qualidade.
O estudo aponta que a rede pública de ensino em Angola cobre formalmente apenas a primeira infância, até os seis anos de idade, o que transfere para as famílias custos elevados com a escolarização. Nesse contexto, a oferta de cursos superiores e o acesso à educação básica gratuita no Brasil — onde crianças contam com alimentação e material escolar garantidos — funcionam como fortes atrativos para pais que buscam preservar o futuro de seus filhos. Na área da saúde, embora Angola conte com serviços públicos, muitos imigrantes recorrem ao sistema brasileiro em busca de atendimento especializado, medicamentos gratuitos e procedimentos de alta complexidade.
Racismo estrutural e “xenoracismo”
Um dos pontos mais sensíveis levantados pela pesquisa é a constatação, por parte dos imigrantes, da existência de um forte racismo estrutural no Brasil. Muitos relatam que só compreendem a dimensão do preconceito racial ao chegarem ao território nacional.
A combinação entre a precarização laboral e o racismo resulta em dinâmicas de exclusão que a pesquisadora classifica como superexploração. Além disso, os angolanos enfrentam episódios recorrentes de xenofobia, muitas vezes intensificados por questões étnico-raciais — fenômeno denominado no meio acadêmico como “xenoracismo”.
O trabalho de campo da tese incluiu entrevistas com 21 angolanos residentes em São Paulo e cinco empregadores, tendo o apoio da Casa de Angola como espaço de preservação cultural e acolhimento. Com os resultados, a pesquisa busca conferir visibilidade a essas violações e subsidiar debates voltados à promoção de políticas públicas e à melhoria efetiva da qualidade de vida dos imigrantes no país.
Fonte – Jornal da USP / FFLCH-USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – Gerada por IA/Magnific
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