Ciência e Tecnologia

Doenças bucais afetam 3,7 bilhões de pessoas e expõem abismo social e impactos na saúde mental

Estudo global aponta que quase metade da população mundial convive com cárie, problemas periodontais ou perda de dentes.
Especialistas da USP destacam que a falta de tratamento gera isolamento social, dor, perda de produtividade e queda na autoestima.
Políticas públicas como o Brasil Sorridente surgem como fundamentais para combater marcadores de pobreza e garantir acesso à saúde bucal.

Um estudo do Global Burden of Disease revelou que cerca de 3,7 bilhões de pessoas no mundo — quase metade da população global — convivem com algum tipo de doença bucal. A pesquisa analisou 370 enfermidades em 204 países entre 1990 e 2021, registrando um aumento de 35% nos casos de cáries, doenças periodontais e edentulismo (perda parcial ou total dos dentes), com projeções de superar 4,5 bilhões de afetados nos próximos 30 anos.

Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) alertam que esses problemas atuam como verdadeiros marcadores de pobreza, atingindo desproporcionalmente populações de menor renda e com restrição a saneamento, água fluoretada e educação. Além das dores físicas e da odontologia mutiladora por razões financeiras, as falhas na saúde bucal provocam severos impactos na saúde mental, como queda na autoestima, sintomas depressivos, estigma no mercado de trabalho e isolamento social.

No Brasil, programas como o Brasil Sorridente e a atuação das equipes de saúde bucal no SUS buscam atenuar essa desigualdade, mas o cenário mundial reforça a urgência de fortalecer estratégias preventivas e políticas de reabilitação.

O estudo Global Burden of Disease de 2023 apontou que cerca de 3,7 bilhões de pessoas no mundo — quase metade da população mundial — convivem com algum tipo de doença bucal. A pesquisa considerou 370 doenças em 204 países entre os anos de 1990 e 2021, identificando um aumento de aproximadamente 35% nos casos de doenças bucais durante o período, com projeções apontando que esse número pode ultrapassar 4,5 bilhões nos próximos 30 anos.

Dentre as doenças bucais com mais incidência entre a população mundial, destaca-se a cárie e a doença periodontal, juntamente do edentulismo, que consiste na falta parcial ou total de dentes em uma ou ambas as arcadas dentárias. Fernanda Carrer, professora da Faculdade de Odontologia da USP, explica que a ocorrência dessas doenças tem relação direta com a condição social das pessoas. “Essas doenças são determinadas socialmente, elas não acometem a população de uma forma homogenea. As pessoas mais pobres, que moram em lugares mais remotos, que têm menos acesso a bens, água tratada fluoretada e educação são mais vulneráveis e elas têm mais doenças. A gente costuma dizer que a cárie, a doença periodontal e o próprio edentulismo são marcadores de pobreza.”

“Essa é uma questão importante, mas ela também tem fatores comportamentais que precisam ser apontados. Para a cárie, por exemplo, o consumo de açúcar é uma questão muito importante, a higiene vai ser muito importante, tanto na cárie quanto na doença periodontal. Já a perda dental é fruto, às vezes, de uma odontologia que é muito mutiladora, de um paciente que não tem dinheiro para fazer o tratamento de canal, fazer a prótese, e que resolve extrair um dente, porque às vezes é mais barato extrair o dente do que fazer um tratamento mais longo. É muito complexa a situação. Quando a gente pensa em políticas públicas, a gente precisa ensinar a população. No Brasil, por exemplo, existe um programa muito importante chamado Programa Saúde na Escola, que ensina isso desde as creches para as crianças sobre a higiene bucal e o uso da pasta fluoretada, mas a gente precisa lembrar que populações mais vulneráveis vão precisar de mais atenção dessas políticas, porque eles são mais vulneráveis a essas doenças”, ressalta Fernanda.

Os impactos da saúde bucal na vida social

Paulo Frazão, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, explica que as doenças bucais influenciam não somente na saúde bucal dos pacientes, mas também em sua saúde mental. “Quando você tem ausência de dentes anteriores, por exemplo, isso provoca uma redução grande na autoestima, seu bem-estar acaba caindo muito. Enquanto você não consegue substituir aquele dente perdido nessa área da frente, você fica com uma dificuldade muito grande de interagir, tem gente que nem sai de casa, e isso, claro, gera sintomas depressivos, que só vão ser resolvidos na medida em que você consegue a reabilitação dessa região da boca. O caso também muito frequente que a gente vê é quando os pacientes recebem uma dentadura, há uma melhora em termos de autoestima, de ânimo para viver, em termos de qualidade de vida, em termos de bem-estar social muito grande. O edentulismo é, talvez, o problema mais grave, porque ele afeta muito a vida das pessoas, a qualidade de vida, o impacto é muito grande.”

De acordo com Fernanda, as doenças bucais podem afetar até mesmo a produtividade das pessoas nos ambientes em que elas estão inseridas. “A saúde bucal vai influenciar aspectos do comportamento dessa pessoa. Às vezes a saúde bucal é fator determinante, por exemplo, para um usuário conseguir um emprego ou não, para ele se relacionar ou não amorosamente, do ponto de vista social. A gente precisa lembrar que às vezes a pessoa se retrai, ela fica em casa, ela deixa de se relacionar, ela deixa de sair com os amigos, de comer em um restaurante, de falar próximo das pessoas por causa de aspectos da saúde bucal. Isso interfere muito nas questões do trabalho, existe muito afastamento do trabalho por conta de dor mesmo, a dor de dente é um fator importante de afastamento do trabalho, isso também gera impacto econômico.”

As revelações do estudo sobre a saúde bucal no mundo

Segundo Frazão, o aumento dos casos de doenças bucais entre os anos analisados pelo estudo tem razões diversas, que vão desde metodologia de pesquisa à industrialização tardia. “Nesse intervalo de tempo, houve muitos países que não tinham estudos no início desse intervalo de tempo e começaram a ter informações sobre as doenças bucais. Muitos desses países estavam passando por processos de industrialização e por uma transição, do ponto de vista nutricional e dos hábitos de dieta. Nessa estatística, começam a entrar países que estão passando por um aumento, de fato, das doenças bucais, resultante desse maior acesso a produtos industrializados, seja por uma industrialização no próprio país, seja pela importação de produtos industrializados.”

“Outro fator é a melhoria das estatísticas, no início desse intervalo de tempo, tinha uma certa qualidade e hoje as informações têm uma outra qualidade, elas são mais detalhadas, estão atendendo aos padrões de definição de casos. Essa métrica de doenças é uma coisa que se iniciou nos anos 90 e que está sendo aprimorada ano a ano, na medida que aprimoram as informações, territórios que tinham pouca informação, territórios que tinham uma informação com uma qualidade mais duvidosa, começam a melhorar essa informação. Isso, às vezes, redunda em uma sensação que está aumentando”, ressalta Frazão.

O professor explica que o estudo revela um cenário de negligência pública quanto à saúde bucal no planeta. “Esse estudo mostra, de alguma forma, a negligência em relação àquilo que é possível fazer para evitar essa situação, podemos chamar de atenção das estratégias de saúde pública voltada à prevenção da cárie dentária, à prevenção da doença periodontal. Existe conhecimento sobre essas estratégias e como elas devem ser implementadas, mas elas não estão implementadas, enquanto as que existem não estão operando satisfatoriamente. O problema é de saúde pública mundial, alguns países são mais afetados do que outros e, por conta disso, alguns países dão uma prioridade maior dentro das políticas de saúde pública.”

O papel de políticas públicas para combater as doenças bucais

Fernanda reforça o papel das políticas públicas e do SUS na vida dos brasileiros que estão mais vulneráveis às doenças bucais. “Hoje, o SUS tem 33 mil equipes de saúde bucal espalhadas pelos 27 Estados brasileiros, tem um subsistema de saúde indígena que também hoje tem trabalhado em todos os Estados brasileiros que têm aldeias. Existe um sistema de saúde que atende tanto essas doenças mais básicas, mas também atende até a odontologia hospitalar. Acho importante também mostrar que o Brasil Sorridente começa em 2004. De 2004 até agora, tem havido investimentos importantes para garantir o atendimento integral e a prevenção das enfermidades na população.”

 

 

Fonte – Jornal da USP (por Gabriel Albuquerque, com entrevistas dos professores Fernanda Carrer e Paulo Frazão)

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews

Foto – KamranAydinov/Magnific

 

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