Ciência e Tecnologia

A cidade que engorda – como o urbanismo molda nosso estilo de vida

Coordenador do grupo de pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição da Universidade de São Paulo, o especialista analisa como o ambiente urbano pode estimular ou limitar escolhas saudáveis no nosso estilo de vida.
No artigo, o pesquisador Hamilton Roschel explica como decisões de #Urbanismo afetam mobilidade, alimentação e prática de atividade física nas cidades.
O modo como a cidade é planejada influencia hábitos diários e pode impactar diretamente o estilo de vida da população.

Você já pensou que aquela calça que não fecha pode não ser culpa apenas do doce do fim de semana? Em muitos casos, a própria cidade que engorda tem influência nisso. A forma como o #Urbanismo molda nosso estilo de vida pode facilitar — ou dificultar — escolhas mais saudáveis no dia a dia.

Imagine a cena: você decide começar a caminhar. Ao sair de casa, encontra calçadas quebradas, pouca iluminação e um calor forte sem uma única árvore por perto. O supermercado fica longe, mas a loja de conveniência cheia de ultraprocessados está logo na esquina. Nesse cenário, a cidade engorda porque torna o caminho mais fácil justamente o menos saudável.

Esse tipo de situação não é apenas percepção. Um estudo publicado na revista científica International Journal of Environmental Science and Technology reforça que o planejamento urbano influencia diretamente hábitos e saúde. Segundo a pesquisa, o #Urbanismo molda nosso estilo de vida e pode contribuir para o aumento de casos de obesidade em diferentes partes do mundo.

Pesquisadores chamam esse fenômeno de “ambientes obesogênicos”. Não significa que a cidade engorda as pessoas de forma direta, mas que ela cria condições que dificultam escolhas saudáveis. A revisão científica, que analisou estudos publicados entre 1990 e 2024, mostra que o desenho das cidades interfere em três pontos principais: atividade física, alimentação e saúde mental.

Quando bairros são espalhados, sem comércio próximo ou áreas verdes, a rotina depende mais do carro e menos da caminhada. Sem parques, ciclovias ou espaços de convivência, o lazer ativo se torna raro. No fim das contas, o #Urbanismo molda nosso estilo de vida e mostra que a forma como planejamos nossas cidades pode influenciar diretamente nossa saúde.

O espaço urbano não é, portanto, uma mera paisagem passiva, mas um agente determinante da saúde pública, que molda comportamentos e, portanto, riscos à saúde coletiva.

Apesar de o estudo destacar que a maioria das pesquisas ainda venha de países desenvolvidos, o alerta para países como o Brasil é urgente. Por aqui, a urbanização acelerada e quase sempre desordenada criou verdadeiros “desertos alimentares” – áreas geográficas, urbanas ou rurais, geralmente comunidades de baixa renda e periferias, com acesso muito limitado a alimentos frescos, in natura ou minimamente processados (frutas, legumes e verduras), fazendo com que predominem alimentos industrializados e ultraprocessados devido à falta de supermercados ou feiras próximas, agravando a má nutrição e doenças crônicas.

No Brasil, a faixa de renda e a localização geográfica ditam quem tem o privilégio de caminhar. Enquanto em bairros planejados a estrutura é um convite ao exercício, nas periferias a falta de infraestrutura básica age como um freio de mão na saúde pública. O estudo propõe um framework que integra o desenho urbano ao sistema de prevenção de doenças crônicas. Ou seja: o arquiteto e o urbanista deveriam trabalhar de mãos dadas com profissionais da saúde.

A boa notícia é que o desenho urbano que pode nos adoecer também pode ser o remédio. O estudo sugere que intervenções espaciais estratégicas podem ser mais eficazes do que qualquer campanha de “coma menos e exercite-se mais” aplicada de forma isolada.

Para reverter esse quadro, os autores sugerem que o urbanismo deve ser tratado como uma intervenção de saúde pública em que as estratégias de planejamento urbano para promover um estilo de vida saudável vão muito além de “pintar ciclofaixas” que muitas vezes não levam a lugar algum.

O estudo defende o fim do crescimento espalhado a partir da otimização do espaço urbano. Cidades compactas reduzem as distâncias de viagem, tornando o deslocamento a pé ou de bicicleta não apenas possível, mas a opção mais lógica e rápida. Adicionalmente, a segregação de zonas (morar longe de onde compra e trabalha) funciona como um verdadeiro “veneno metabólico”. Integrar residências, comércios e serviços no mesmo bairro cria o que os pesquisadores chamam de “acessibilidade de pedestres”, transformando a ida à padaria em um exercício utilitário.

Atenção à configuração ambiental e ao microclima se fazem essenciais. Não basta ter calçada; é preciso ter conforto. O estudo destaca que a arborização urbana e o design de espaços abertos reduzem o estresse e melhoram a saúde mental.

Alcançar uma “cidade saudável” exige uma mudança de paradigma na gestão pública. O estudo aponta que as políticas urbanas devem migrar de intervenções isoladas para uma “governança coordenada de múltiplas doenças”.

Isso significa que, ao planejar um novo bairro ou revitalizar um centro urbano, o gestor não deve pensar apenas no fluxo de carros, mas na “equidade em saúde ambiental”.

As políticas devem garantir que o acesso a alimentos frescos e a espaços seguros para o lazer não sejam privilégios de bairros nobres, mas um direito básico de infraestrutura urbana. O urbanismo, portanto, tem o potencial de tornar-se uma ferramenta de justiça social e prevenção primária, capaz de reduzir a carga sobre o sistema de saúde antes mesmo que o paciente chegue ao consultório.

A obesidade é sem dúvida uma condição multifatorial e bastante complexa. Não devemos esquecer seus outros tantos aspectos mediadores, mas resta claro que a luta contra a balança não é apenas uma batalha individual de força de vontade; é uma questão de política pública.

Assim, a ciência está evoluindo para entender que a obesidade não é um desfecho isolado de saúde, mas também um sintoma de um ambiente doente. Se quisermos cidades mais magras, precisamos de cidades mais humanas, caminháveis e verdes. Afinal, é muito mais fácil ser saudável quando a cidade, em vez de nos empurrar para o sofá, nos convida para a rua.

 

Fonte – USP

Edição – Coopnews

Foto – Divulgação

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