Ciência e Tecnologia

A formação em Gerontologia e os desafios para acompanhar o envelhecimento do Brasil

Nesse cenário, a Gerontologia se fortalece como área estratégica para planejar políticas, qualificar serviços e integrar equipes de cuidado.
Apesar da importância crescente, a profissão ainda enfrenta obstáculos para se consolidar no mercado e na formação acadêmica.
O país envelhece rápido, e isso exige profissionais preparados para lidar com novas demandas da população idosa.

O Brasil está envelhecendo rapidamente e isso muda como a sociedade precisa olhar para a velhice. Cada vez mais, cresce a demanda por profissionais capazes de entender o envelhecimento em todas as suas dimensões, do cuidado direto à gestão de serviços e à formulação de políticas públicas. A Gerontologia surge nesse contexto como uma área essencial para responder a esses novos desafios.

Apesar de ganhar espaço hoje, a Gerontologia é um campo relativamente recente. O termo foi criado em 1903 por Ellie Metchnikoff, discípulo de Pasteur, mas só se consolidou após a Segunda Guerra Mundial, quando o aumento da população idosa despertou maior interesse científico. A partir desse momento, diferentes áreas do conhecimento passaram a se dedicar ao estudo do envelhecimento.

No Brasil, esse movimento começou nos anos 1960, com a criação da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e iniciativas pioneiras do SESC voltadas às pessoas idosas. Com o tempo, surgiram as Universidades Abertas para a Terceira Idade e os primeiros cursos de pós-graduação. O avanço mais significativo veio nos anos 2000, com a criação dos cursos de graduação em Gerontologia, como os da USP e da Universidade Federal de São Carlos, abrindo espaço para a formação de novos profissionais.

Esse crescimento também encontra apoio na legislação. O Estatuto da Pessoa Idosa, atualizado em 2022, reforça a importância da capacitação contínua em geriatria e Gerontologia. Já a Política Nacional de Cuidados destaca a formação permanente e a valorização de quem atua no cuidado. A mensagem é clara: diante de uma população que envelhece, não basta ampliar serviços. É preciso investir em pessoas preparadas para cuidar, planejar e transformar essa realidade.

Quem é o gerontólogo?

O profissional bacharel em Gerontologia, denominado de gerontólogo, nasce da necessidade de termos um profissional generalista, capaz de integrar as dimensões biopsicossociais do envelhecimento para qualificar o atendimento às pessoas idosas e à sociedade que envelhece. Na prática, os gerontólogos atuam na promoção de uma velhice mais saudável, digna e integrada à sociedade.

Tipificado pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 1312-20), cujo código foi construído a partir da atuação de 10 profissionais bacharéis em gerontologia avaliados pelo Ministério do Trabalho entre 2013 e 2014, o gerontólogo atua de forma interdisciplinar, articulando conhecimentos das áreas da saúde, ciências sociais, humanidades e gestão.

Segundo a CBO 1312-20, o bacharel em Gerontologia possui como atribuições principais:

a) Planejar, coordenar e avaliar programas e serviços voltados à pessoa idosa em diferentes contextos, como instituições de longa permanência, serviços de atenção domiciliar, centros de convivência, hospitais, secretarias públicas e organizações da sociedade civil;

b) Realizar avaliação global multidimensional da pessoa idosa e a gestão de caso, considerando aspectos biomédicos, funcionais, emocionais, sociais e ambientais, propondo intervenções integradas e contextualizadas à rede socioassistencial e de saúde dos territórios;

c) Promover ações de educação em saúde e de prevenção, com foco no envelhecimento ativo, saudável e sustentável;

d) Orientar pessoas idosas, famílias e cuidadores, apoiando processos de tomada de decisão, manejo do cuidado e acesso a direitos;

e) Gerenciar equipes, articulando profissionais e recursos em prol de projetos terapêuticos singulares e humanizados às pessoas idosas e em processo de envelhecimento;

f) Desenvolver e implementar projetos de pesquisa, contribuindo para o avanço científico e para a qualificação das políticas públicas de envelhecimento;

g) Promover defesa de direitos, combatendo o idadismo por meio de ações educacionais à sociedade e fortalecendo os dispositivos de participação e controle social.

Essas competências tornam o gerontólogo um profissional singular: é capaz de compreender o envelhecimento em sua complexidade e de propor soluções interdisciplinares, voltadas à promoção da autonomia e do bem-estar dos atores envolvidos.

Desafios para consolidação da profissão

Apesar dos diferenciais apresentados, há muitos desafios para consolidação da profissão. O primeiro deles é a regulamentação. O Projeto de Lei que tipifica e regulamenta a atuação profissional no Brasil tramita desde 2013 em Brasília, passando de 2013 e 2017 no Senado (antigo PL 334/2013); e a partir de 2017 na Câmara dos Deputados, atual PL 9003/2017. Em outros países da América Latina a profissão já foi regulamentada na Argentina pela Lei 5671 de 2016; na Colômbia pela Lei 1655 de 2013; no Panamá pela Lei 52 de 2009. O México, o maior país em termos de centros de formação de bacharelados em Gerontologia, possui um projeto para integrar a profissão à lei de profissionais da saúde, o que lhes asseguraria as prerrogativas legais para exercício da profissão.

Destaca-se, desse modo, que o Brasil está atrasado na regulamentação da profissão de gerontólogo. Nesses mais de 12 anos foram promovidas mais de 10 audiências públicas e encontros de grupos de trabalho, incluindo diálogos com a SBGG, conselhos de classe de outras profissões, organizações da sociedade civil, representantes do poder público e demais órgãos que atuam na área do envelhecimento. Atualmente o PL está na Comissão do Trabalho, cujo entrave está no diálogo com representantes da categoria dos tecnólogos em Gerontologia.

Nesse caso alguns tecnólogos querem ter as mesmas atribuições do bacharel, o que é sem fundamento e sem respaldo jurídico-institucional, pois os cursos possuem carga horária inferior à metade dos cursos de bacharelado. Além disso, grande parcela dos cursos não possui estágios presenciais supervisionados, estes fundamentais para garantir a segurança do paciente, mediante treinamento prático das habilidades e competências, na relação direta com a pessoa a ser atendida. O desafio posto, aqui, é o lobby dos grandes grupos privados de educação, cujos lucros são consideráveis com a oferta do Ensino à Distância. Na contramão dessa lógica, profissões da saúde como medicina, odontologia e psicologia já proibiram cursos on-line, argumentando que suas atividades fins não permitem profissionais sem práticas, o que é justo em função de envolver a atuação direta com vidas humanas.

Outros desafios incluem o desconhecimento sobre o papel do gerontólogo, o que limita sua inserção plena no mercado de trabalho; a necessidade de reconhecimento formal em editais, políticas públicas e serviços de saúde, garantindo espaço adequado nas equipes interprofissionais; e o Subfinanciamento e fragilidade das políticas de cuidado e proteção à pessoa idosa, que impactam diretamente a atuação profissional. Governos e gestores públicos sub investem em projetos às pessoas idosas, negligenciando às necessidades emergentes da população que envelhece. Há, portanto, um conjunto de barreiras institucionais e culturais que devem ser quebradas para o exercício pleno da profissão de gerontólogo no país.

Contudo, o cenário é mais promissor do que no passado, o que torna a profissão essencial para enfrentar os desafios do porvir. No Brasil a transição demográfica exige respostas antecipatórias às próximas décadas. Em 2050, 1 em cada quatro habitantes terão 60 anos ou mais. A população com 80 anos ou mais é a que mais cresce, e também a que mais necessita de cuidados de longo prazo. O momento ideal para criar serviços e estratégias de cuidados é agora.

O gerontólogo, desse modo, é vital para apoiar o poder público na execução de políticas e na qualificação do atendimento às pessoas idosas. No terceiro setor e no setor de serviços privados o gerontólogo tem sido um grande diferencial nas equipes, com atuação em grandes franquias de atendimento às pessoas idosas, operadoras de saúde, serviços de atenção domiciliar e empresas relacionadas ao ecossistema dos cuidados de longa duração. No campo da pesquisa profissionais gerontólogos se debruçam em desenvolver estudos com impacto na inovação dos cuidados e no desenvolvimento de políticas públicas.

Chamado à Mobilização: por mais cursos de Bacharelado em Gerontologia no Brasil

O envelhecimento populacional é um fenômeno crescente, e a Gerontologia é peça-chave para transformar diretrizes legais e avanços acadêmicos em práticas que garantam dignidade e qualidade de vida. Consolidar essa profissão significa preparar o Brasil para um futuro que já chegou. Diante desse cenário, é urgente ampliar a formação de novos profissionais. A sociedade brasileira necessita e merece serviços qualificados, humanizados e cientificamente fundamentados para acompanhar o envelhecimento populacional. Por isso, convidamos toda a sociedade civil, profissionais da área, gestores, pesquisadores, familiares e pessoas idosas a assinar o abaixo-assinado pela abertura de novos cursos de bacharelado em Gerontologia no Brasil.

A expansão dessa formação é um passo essencial para garantir um futuro de cuidado, dignidade e respeito à população idosa. Junte-se a nós. Apoie a Gerontologia. Apoie o envelhecimento digno para todos.

 

 

Fonte – Portal do Envelhecimento

Edição – Coopnews

Foto – RDNE Stock project/pexels

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