A água ganhou lugar central nas celebrações do Tempo da Criação de 2026 e mobiliza comunidades cristãs, organizações e movimentos sociais em diferentes países da América Latina. Entre as principais iniciativas está o primeiro Encontro Regional Latino-Americano do Movimento Laudato Si’, que reunirá mais de 100 participantes de 18 países em Bogotá, na Colômbia, de 1º a 5 de outubro. O encontro pretende aproximar experiências desenvolvidas em diferentes partes da região e fortalecer ações voltadas ao cuidado da Casa Comum. A escolha da água como tema também reflete uma realidade marcada por conflitos socioambientais, desigualdade no acesso aos recursos e impactos de atividades econômicas sobre rios e outras fontes de abastecimento. Segundo dados apresentados pelo Movimento Laudato Si’, mais de 40% dos conflitos socioambientais registrados na região estão relacionados a disputas pela água.
Água deixa de ser apenas questão ambiental
O Tempo da Criação é celebrado pelas Igrejas cristãs entre 1º de setembro e 4 de outubro e reúne momentos de oração, reflexão e iniciativas práticas relacionadas ao cuidado com a criação. Em 2026, a água foi colocada no centro das ações como símbolo de vida, renovação e um bem essencial para todos os povos.
Na América Latina, o Movimento Laudato Si’ acompanha o período por meio de seus capítulos nacionais e de iniciativas que procuram transformar a preocupação com o meio ambiente em ações concretas.
O encontro de Bogotá surge nesse contexto. Mais de 100 pessoas, entre leigos, religiosas, religiosos e sacerdotes, devem participar da programação, representando 18 países. A proposta é aproximar experiências locais e nacionais e criar uma rede mais articulada de pessoas e comunidades comprometidas com o cuidado da Casa Comum.
Para Cristina Chuquimarca Mosquera, vice-diretora para a América Latina do Movimento Laudato Si’, a mobilização precisa ir além de campanhas pontuais. O desafio é transformar a preocupação com a criação em organização comunitária, mudança de hábitos e participação nas decisões que afetam o território.
A questão ganha ainda mais peso diante dos conflitos relacionados ao uso da água. Segundo dados citados por Chuquimarca, mais de 40% das tensões ou conflitos socioambientais registrados pelo movimento na região envolvem disputas por esse recurso. Projetos extrativistas e outras atividades econômicas também aparecem entre os fatores de pressão sobre os recursos naturais.
Do Equador à Argentina, ações procuram mudar hábitos
A mobilização latino-americana não ficará restrita ao encontro de Bogotá. O Movimento Laudato Si’ mantém atividades em quase todos os países da região, com ações que ganham intensidade durante a Semana Laudato Si’ e o Tempo da Criação.
No Equador, uma campanha incentiva o consumo responsável da água. No Paraguai e em outros países são realizadas missas pelo cuidado da criação. Chile e México promovem encontros de aprofundamento sobre a relação entre a encíclica Laudato Si’ e a questão ambiental, enquanto o Peru desenvolve atividades relacionadas ao Tempo da Criação e à preparação para a visita apostólica do Papa Leão XIV.
Há também experiências que ultrapassam o ambiente religioso e chegam à formulação de políticas públicas. Na Argentina, por exemplo, integrantes do movimento participaram da elaboração de uma política relacionada ao consumo e ao uso racional da água.
Em outros pontos da região, foram criadas redes destinadas à proteção de defensores do meio ambiente, especialmente daqueles que atuam na defesa das fontes de água. O movimento também participa de discussões internacionais relacionadas à biodiversidade e às mudanças climáticas.
A Colômbia, país escolhido para sediar o encontro regional, desenvolve ainda um programa nacional de ecoparóquias. A proposta procura incorporar o cuidado com a terra, a água e os recursos naturais à rotina das comunidades religiosas.
Cuidado com a criação também é uma questão de fé
Para o Movimento Laudato Si’, o desafio não pode ser tratado apenas como uma pauta ambiental. A maneira como as sociedades utilizam a água e outros recursos naturais também revela a relação estabelecida com outras pessoas, com a criação e com a própria fé.
Essa visão ganha importância diante de situações que atingem diretamente comunidades latino-americanas. Há populações que denunciam a contaminação de fontes de água, a redução de águas superficiais e alterações em cursos de rios provocadas por projetos de infraestrutura.
A preocupação também alcança novas questões, como o consumo de água e energia associado aos centros de dados utilizados pela inteligência artificial, acrescentando uma nova dimensão ao debate sobre tecnologia, recursos naturais e sustentabilidade.
Nesse cenário, a formação das comunidades aparece como uma das estratégias defendidas pelo movimento. O Programa de Animadores Laudato Si’ procura preparar pessoas para atuar localmente, estimular mudanças de comportamento e fortalecer a participação comunitária.
A proposta é evitar que a preocupação ambiental se transforme apenas em ativismo isolado. A ideia é criar vínculos permanentes entre fé, educação, organização social e cuidado com o território.
O Tempo da Criação também possui uma dimensão espiritual. Para Cristina Chuquimarca, ações simples, como observar a natureza, caminhar em um parque ou refletir sobre a origem dos alimentos, podem ajudar a recuperar uma relação mais consciente com aquilo que sustenta a vida.
A água, nesse sentido, não é apenas um recurso externo. Ela está presente no próprio corpo humano e conecta diretamente a existência das pessoas ao equilíbrio da natureza.
Ao reunir diferentes experiências, o encontro de Bogotá pretende fortalecer essa rede latino-americana e mostrar que a resposta aos desafios ambientais não depende apenas de grandes decisões. Ela também pode começar nas comunidades, nas paróquias, nas famílias e nas escolhas cotidianas.
A mensagem do Movimento Laudato Si’ é que o cuidado com a Casa Comum não deve ficar restrito a uma determinada religião. A defesa da água, da natureza e da vida pode se transformar em um ponto de encontro entre diferentes comunidades cristãs e entre todas as pessoas dispostas a participar dessa responsabilidade coletiva.
Cuidado Com A Casa Comum
Fontes – Vatican News
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – EBC




