Colegas lamentam a morte de Jerry Adriani

A morte do cantor Jerry Adriani, neste domingo, foi recebida com pesar por colegas e amigos da classe musical. Escritores, produtores e músicos destacaram o talento e o caráter do artista.

De acordo com o escritor, produtor e pesquisador musical Marcelo Fróes, autor do livro “Jovem Guarda: em ritmo de aventura”, Adriani se destacava por ser multifacetado:

“Ele passou pela Jovem Guarda, mas seguiu sua carreria como intérprete. Era um verdadeiro coringa, estava sempre disponível e tinha muito talento, uma pessoa muito querida. O Jerry era um exemplo de grande cantor e compositor que se estabeleceu sem depender da crítica dos cadernos musicais”, afirmou Fróes.

Contemporâneio de Adriani, o cantor e compositor Ronaldo Corrêa, do grupo Golden Boys, lembrou como foi o primeiro encontro com o jovem Jair: “Nossa amizade começou na época do ‘Italianissimo’ (primeiro disco de Adriani). Vimos o Jair Alves de Souza se transformar no Jerry Adriani. Ele era um garoto, mas já muito talentoso e preparado. Tocamos juntos muitas vezes durante todos esses anos”, contou Corrêa.

O músico dos Golden Boys também destacou as qualidades pessoais e artísticas do amigo: “Ele cantou rock n’ roll, música italiana, repertório romântico. Era um artista eclético, de muito bom gosto, super talentoso. E, acima de tudo, muito querido e simpático. Ele vai fazer muita falta, com toda sua alegria, educação e gentileza”, disse.

Um dos principais nomes do soul brasileiro, o cantor e compositor Hyldon teve uma música sua que virou sucesso na voz de Adriani após ser rejeitada por Tim Maia.

“Eu levei a canção pro Tim, mas ele disse que o título dela, ‘Gioconda’, não faria sucesso nunca. Mas eu não quis mudar o nome, já que era de uma menina de verdade, uma paixão de adolescência minha, para quem eu escrevi ‘Na rua, na chuva, na fazenda’. Aí o Raul Seixas, que era produtor do Jerry, curtiu a ideia. Então, o Jerry gravou, com uma levada meio blues, e ficou linda. Foi a faixa de trabalho do disco dele”, contou Hyldon.

Para ele, Adriani “era um dos caras mais queridos do meio artístico”:

“Era gente boa, falava com todo mundo, era muito carinhoso. Era também um grande cantor. Apesar de ser da Jovem Guarda, ele tinha uma voz de tenor italiano. Não tem nenhuma pessoa que vá falar mal do Jerry. Fiquei muito triste com a notícia. Mas ele morreu no dia de São Jorge. O Jerry era um guerreiro, um menino de alto astral muito bom. Jorge vai recebê-lo lá em cima”, disse.

O MAIS JOVEM DA JOVEM GUARDA

Membro da Jovem Guarda, Adriani era o caçula de um grupo que tinha nomes como Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

“Jerry era o mais novo dos ícones da Jovem Guarda e foi o primeiro nome do núcleo desse movimento a morrer”, comentou o historiador e biógrafo Paulo César Araújo, autor da biografia ‘Roberto Carlos em detalhes’. “Se Roberto era o Rei, ele estava ali, no segundo degrau, junto com os principais, como Erasmo Carlos, Wanderley Cardoso e Wanderléa”.

Para além do enorme sucesso alcançado por Adriani, principalmente entre os anos 1960 e 1970, o historiador destaca a importância do cantor para o surgimento de outro ícone da música brasileira, Raul Seixas.

“A chegada de Raul ao Rio e a sua aparição como compositor e artistas se deve ao Jerry”, afirmou Araújo. “Raul havia substituído um músico de Jerry num show em 1967, na Bahia, e assim que veio ao Rio procurou Jerry. Acabaram se tornando grandes amigos, e Raul, além de produzir discos, compôs alguns dos maiores sucessos de Jerry, no começo dos anos 1970, como ‘Doce doce amor’ e ‘Tudo que é bom dura pouco’.

‘UMA PESSOA ADORÁVEL’

Amigo de Adriani há mais de quatro décadas, o compositor e produtor Carlos Colla foi um parceiro de longa data do cantor.

“O Jerry era uma pessoa adorável, muito carinhosa com todo mundo. Gostava muito dos fãs. Eu o acompanho desde a década de 1960. É mais uma perda. Vamos ficando velho e perdendo amigos. Estive com ele há menos de duas semanas, em seu último show. Todos os amigos e fãs estão muito tristes. É uma pena. Era uma pessoa muito doce, além de um artista maravilhoso. A gente se encontrava muito, conversava bastante. Fizemos canções juntos. Num de seus últimos trabalhos, ele gravou uma versão que eu fiz para ‘Jesus, alegria dos homens’, do Bach. Foi uma obra de arte, que interpretação! A vida humana é muito frágil. Como explicar isso? Estou bastante abalado”, afirmou Colla.

Fonte: O Globo

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