Eduardo Dussek celebra 40 anos de gravações

Nos últimos meses, o cantor, compositor e pianista Eduardo Dussek tem se dedicado à pintura. Mais especificamente, a reproduções de um autorretrato de seu pai, falecido em 2016, aos 92 anos. No ateliê de seu apartamento, próximo ao Corte do Cantagalo, ele mostra quatro novas versões do quadro em que o velho Milan pintou-se em azul e branco. Já na sala, Dussek conta que o passatempo é uma “homenagem silenciosa” e também um exercício contra o Mal de Parkinson, descoberto há uma década.

É uma noite chuvosa e, sentindo que o clima pesou, o showman quebra o gelo:

— No diagnóstico do Parkinson, perguntei ao médico: “Quais são os sintomas?” Ele disse: “Tremor nas mãos e rigidez.” Respondi: “Ao menos facilita a masturbação!”

Caímos na risada. No instante seguinte, ele já esqueceu a doença, ironiza suas pinturas (“inspiradas em Van Gogh, Monet e Nise da Silveira”) e planeja a foto da capa desta edição, em que mergulhou de paletó e gravata-borboleta na piscina do condomínio. Nada mais Dussek, camaleão carioca que surgiu no teatro nos anos 1970, flertou com o underground, foi MPB, roqueiro, popstar, romântico e hoje se dedica a pesquisar e renovar ritmos de outros carnavais. Em 2017, ele completa 40 anos de sua primeira (e esquecida) gravação, sobre a qual falaremos mais adiante.

Testemunha de todas essas fases, o ator, autor e diretor Miguel Falabella comenta:

— Conheço ele a minha vida inteira, pertencemos à mesma geração e falamos à mesma língua, cada um da sua maneira. Sempre teve talento para ir do lirismo ao deboche, combinar humor e poesia. É um homem de profunda inteligência, um ser humano especial.

O jornalista Arthur Dapieve, autor de “BRock: o rock brasileiro dos anos 1980” e colunista do Segundo Caderno, do GLOBO, comenta a trajetória do músico:

— Ele saiu de um nicho e teve um momento espetacular participando de festivais e da explosão do rock nacional, com muitos olhos e ouvidos voltados para ele. Depois retornou para um nicho, mas sempre atrás do que lhe interessava — diz o crítico. — É um bom cantor, bom pianista, tem letras afiadas. Pela inventividade e variedade de gênero entre as faixas, considero “Olhar brasileiro” (1981) um dos dez melhores discos do Brasil nos anos 1980.

Jairo Aguiar Júnior, o Jay, seu secretário há seis anos, confirma que o chefe é uma metamorfose ambulante.

— Uma hora, ele está ao telefone acertando datas e valores para um show, hiperprofissional. Aí desliga e inventa um diálogo entre a máquina de lavar e a de secar, cria vozes, um teatro na área de serviço. É uma loucura, mas é divertido — diz o assessor pessoal, enquanto ouve ordens surreais como “Jay, traz Coca-Cola… e uma seringa pra injetar”.

REBELDE SEM PAUSA

Dussek nasceu na Rua Santa Clara, em Copacabana, no meio de um réveillon: 1º de janeiro de 1954. Apesar de a internet inteira informar que ele é de 1958 (erro que não lhe desagrada), reportagens antigas trazem a data correta, confirmando que ele está com 63 anos, não 59. Confrontado, ele brinca:

— Estou com qualquer coisa entre 50 anos e a morte.

Filho de mãe húngara e pai tcheco, seu nome de batismo é Eduardo Gabor Dusek. O Gabor da mãe Agnes é o mesmo da atriz e socialite Zsa Zsa Gabor (1917-2016), prima distante. E o Dusek original é com um S mesmo: o sobrenome foi “turbinado” nos anos 1990; primeiro para forçar a pronúncia correta e, depois, porque a numerologia indicava boas energias. Quando a família de artistas se viu em dificuldades financeiras (“Só herdei dívidas”, diz Eduardo), os pais e os quatro filhos (além de Eduardo, Vera, Marcelo e André) se mudaram para um sobrado modesto no Alto da Boa Vista (“Só tinha os ricos e nós”).

Circulando entre os vizinhos de classe alta (de quem descolava trocados fazendo pátinas de móveis) e os do Morro do Borel, o menino magérrimo e loiríssimo desde cedo se interessou pela cultura erudita e a popular. Começou a tocar piano por influência do pai, Milan, e compôs sua primeira marchinha aos 9 anos — “Baianinha”, inspirada em Carmen Miranda, musa a quem depois dedicaria um songbook inteiro.

Formado na Escola Técnica de Arquitetura aos 17 anos, logo já estava morando numa república na Rua Álvaro Ramos, em Botafogo. Sob o mesmo teto viviam o ator Luís Fernando Guimarães, mais tarde do coletivo Asdrúbal Trouxe o Trombone, e Luiz Antônio de Cássio, acadêmico hoje vivendo em Paris e letrista de algumas das primeiras canções de Dussek. O apartamento fervia: sem pedir autorização a ninguém, os garotos faziam do espaço bar, teatro, casa de shows — o que pagasse o aluguel e alimentasse a ambição artística da semana.

— Eram tempos de muita liberdade, todo mundo comia todo mundo e ninguém ficava perguntando se era gay, que invasão de privacidade — brinca. — As pessoas ficam cobrando: “Quando você vai sair do armário?” Eu respondo: “Aqui em casa só tem closet.”

Quando chegou o inevitável despejo, a carreira de Dussek já estava encaminhada. Em 1973, ele foi escalado como pianista na peça “Desgraças de uma criança”, que trazia no elenco Marieta Severo, Marco Nanini e Wolf Maia. O espetáculo foi um sucesso e permitiu que no ano seguinte ele passasse a se apresentar em shows-solo com um nome artístico hoje esquecido: “Duardo Dusek.” Ele explica (ou tenta):

— Foi pura loucura esse nome. Não tinha numerologia alguma, tinha era um produtor e publicitário, cujo nome não revelo, que achava Eduardo um nome muito comum (risos). Meu apelido era Dudu, mas junto dava “dududusek”, que parecia nome de comida exótica. Daí inventaram essa bossa besta de Duardo.

Enfim: foi “Duardo”, com shows performáticos que misturavam a androginia de David Bowie com os primeiros acordes do punk, quem chamou a atenção de gente como Gilberto Gil, Marília Pêra e, finalmente, de Nelson Motta, que em 1977 o levou para o estúdio.

GRAVAÇÃO ESQUECIDA

Tinha tudo para dar certo.

Dussek era era sucesso de público e crítica no cenário “udigrudi” carioca, tinha acabado de fazer uma temporada de sucesso no Teatro Opinião. Nelson Motta já era um produtor badalado, além admirador do pianista. No final de 1977, os dois entraram nos estúdios da RCA Victor para gravar um compacto, que teve coordenação artística de Eustáquio Sena e arranjos de Don Charles. No lado A, “Não tem perigo”, de Dussek e Cássio Ferrer (“um marchinha que debochava da classe média”); no lado B, “Apelo da raça”, mais romântica, parceria de Eduardo com o letrista Luiz Antônio de Cássio, seu ex-roomate. O disco foi lançado no começo de 1978, bem a tempo do carnaval. Mas…

— Não deu nada certo — resume Dussek. — Não sei se as canções eram ruins, se faltou jabá (risos), mas não vendeu, não tocou. Nunca mais gravei essas músicas novamente. Fiquei três anos na geladeira, me virei dando aula de canto, de piano, compondo músicas para outros artistas. E esperando uma nova chance.

Nelson Motta, recuperando-se de uma cirurgia, não pôde dar um depoimento para esta reportagem. Mas foi ele quem, em 1978, colocou Eduardo Dussek no disco das Frenéticas, o que fez com que continuasse sendo lembrado e gravado por outros nomes da MPB, como Maria Alcina, Zizi Possi e, principalmente, Ney Matogrosso, que transformou suas composições “Folia no matagal” e “Seu tipo” em sucessos.

Em 1980, foi chamado para o 1º Festival da Nova Música Popular Brasileira, que ficou conhecido como MPB 80. Já rebatizado como Eduardo, surgiu em rede nacional cabeludo e com asas de anjo para cantar “Nostradamus”, canção apocalíptica em que um sujeito acorda de ressaca e percebe que o mundo está acabando. Foi uma sensação imediata. Logo, Dussek estava nas trilhas de novelas e gravando seu primeiro LP, “Olhar brasileiro”, que trazia várias parcerias com o Luiz Carlos Góes, autor do chamado “teatro besteirol”. Começava uma década de sucessos — que alguns consideram clássicos.

— A obra dele não envelheceu. Baladas como “Aventura” ou canções de humor como “Doméstica” são absolutamente atuais. São eternas — diz Falabella.

— É um cara talentoso demais, que consegiu falar de temas sociais de forma leve, de forma bem humorada e irônica – diz o crítico André Barcinski, autor de “Pavões misteriosos: 1974 – 1984, a explosão da música pop no Brasil”. – Ele foi o retrato perfeito de uma época, mas sua obra sobreviveu a ela.

CHEIO DE PLANOS

Corta para 2017. Ao pensar nos 40 anos de carreira, Dussek diz que não se arrepende de nada. Talvez do disco “Contatos” (1991), que não emplacou nenhum sucesso (“terminei e pensei: fiz merda”). É muito grato aos padrinhos e “clientes” da MPB, curtiu muito a fase em que foi uma espécie de “primo mais velho” do irreverente rock brasileiro dos anos 1980. Além de abrir as portas para a Blitz, de Evandro Mesquita, foi parceiro de João Penca e dos Miquinhos Amestrados e também de Leo Jaime, autor do seu hit “Rock da cachorra” (rock’n’roll à la Jerry Lee Lewis que começa com “troque seu cachorro por uma criança pobre”). Como não podia deixar de ser, Leo é seu fã:

— Dussek é um grande compositor e cantor. Mas o que mais impressiona é sua capacidade de lidar com o público. Ele ganha a plateia no primeiro gesto. É um espanto! Carisma, tempo de comédia, habilidade em improvisar, um controle absoluto da cena.

Dussek tenta manter uma média de oito shows por mês. Boa parte dessa agenda lotada é preenchida por shows fechados, para empresas ou em casamentos, onde ele faz uma pesquisa e pega informações que depois viram piadas no palco.

— Teve um show num congresso de cardiologia, por exemplo, em que eu mexia com os caras: “Você é a favor da ablação por cateter, você defende a cirurgia. Sentem separados que eu não quero porrada”. Em casamentos, eu pego o histórico do casal, mexo com os noivos, com as sogras. Mas tudo no maior respeito — diz Dussek, para quem a grande graça é fazer piadas consigo mesmo. — Eu sou seriíssimo, o mundo é que é uma piada.

Para impedir o avanço do Parkinson doença — que ele chama “carinhosamente” de Park Avenue ou Mr. Parks —, se submete a uma rotina rígida de alimentação saudável, sono abundante e exercícios diários. O tratamento complexo é supervisionado por Cicero Galli, médico da USP, a professora de girotonic Cristiana Wenzel, e a terapeuta Tina Águas (“Mentora e gestora da minha cura”, diz Dussek).

— Consegui transformar uma doença crônica em aguda. Não é um bicho de sete cabeças, mas depende de sua atitude. Meu segredo é combinar a medicina “tarja preta” com uma grande lista de atividades e curas alternativas, para que o organismo se reconstrua. Mas é um tratamento caro, doença de rico, que quase me levou à falência nessa recessão… Xô, crise!

Um sujeito que nunca parou não ia desacelerar justamente agora. Além das apresentações individuais, Dussek tem vários projetos paralelos: o musical de marchinhas “Sassaricando”, duos com a cantora Silvia Machete, também shows mais jazzísticas com o saxofonista Derico (que tocava no programa de Jô Soares). Quer também finalizar um álbum duplo de canções de amor, com um disco sério dedicado a Maria Bethânia e o outro, debochado, para Marília Pêra.

Outro projeto, este prometido há alguns anos, é o livro “Trôpego de Capricórnio”. Ele avisa que não será uma autobiografia, pois não se acha “tão importante”, mas uma coleção de histórias coletadas ao longo da movimentada carreira.

Vai dar tempo de fazer tudo?

— A esperança é a penúltima que morre. O último serei eu.

QUEM É EDUARDO DUSSEK

Nome de batismo:

Eduardo Gabor Dusek (o segundo “S” entrou por fonética e numerologia)

Nascimento:

1º de janeiro de 1954 (apesar de a internet dizer 1958) em Copacabana, Rio de Janeiro

Álbuns:

“Olhar brasileiro” (1981)

“Cantando no banheiro” (1982)

“Brega chique” (1984)

“Dusek na sua” (1986)

“Contatos” (1991)

“Adeus, batucada: Eduardo Dussek sings Carmen Miranda” (2000)

“O tao de Dussek” (2009)

“É show” (2011)

Maiores sucessos:

“Alô, alô, Brasil”

“Amor e bombas”

“Aventura”, com Luis Carlos Góes

“Barrados no baile”, com Luis Carlos Góes

“Brega chique”, com Luis Carlos Góes

“Cabelos negros”, com Luiz Antônio de Cássio

“Cantando no banheiro”

“Injuriado”

“Nostradamus”

“Rock da cachorra”, de Leo Jaime

“Singapura”

“Todo mundo nu”

Na voz de outros:

“A lua e o sol”, de Zizi Possi

“Folia no matagal”, de Ney Matogrosso

“Quem é você?”, de Simone

“Seu tipo”, de Ney Matogrosso

“Vesúvio”, das Frenéticas

Fonte: O Globo

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