Ouvir o som da Floresta, admirar o canto dos pássaros, sentir a brisa entre as copas das árvores, se encantar com estilo de vida das tartarugas amazônicas e as travessuras dos macacos são experiências que encantam quem visita o Bosque da Ciência, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI). Mas essa conexão vai além de encantos, ao se conectar com a natureza, sintomas como estresse, ansiedade, angústia, tem uma diminuição significativa, é o que apontam os estudos realizados pelo Laboratório de Psicologia e Educação Ambiental (Lapsea).
O Bosque da Ciência, que completa 30 anos no próximo dia 1º de abril, oferece um ambiente seguro e propício para esse contato direto, tem um impacto significativo e profundo no bem-estar humano, afetando aspectos físicos, mentais e emocionais. Além de promover a saúde física e psicossocial, auxilia em práticas pró-ambientais.
Segundo a pesquisadora do Inpa e coordenadora do Lapsea, Maria Inês Gasparetto Higuchi, o contato frequente e positivo com a natureza pode trazer benefícios mais profundos, especialmente, quando realizado com atenção plena, ou seja, sem distrações como conversas ou o uso de celular. Ao observar atentamente a natureza e os seres vivos presentes nesses espaços, esse contato aumenta a característica biofílica, a qual é a conexão emocional inata que os seres humanos possuem com a natureza e outros seres vivos.
“Isso acontece porque tais contatos ativam nossa necessidade biológica chamada biofilia, que, quando estimulada, favorece a formação de uma forte conexão com a natureza. Essa conexão é um atributo psicológico, portanto, algo subjetivo, que pode ser caracterizado como vínculo da pessoa com a natureza, ou seja, a pessoa acredita e sente que ela e a natureza são partes de um mesmo mundo”, frisa
Estudos apontam três tipos básicos de contato com a natureza: o primeiro o contato direto, aquele que a pessoa se insere na natureza e com ela vivencia sensações diversas. Por exemplo, atividades de caminhadas, trilhas e acampamentos em ambientes naturais. O contato indireto é quando trazemos até nós em nossas atividades elementos e organismos naturais, cuidando, cultivando plantas e jardins, por exemplo.
E o contato vicário é o contato onde a natureza está representada, seja apreciação de paisagens, organismos ou situações em que a natureza está presente. Isso pode acontecer ao assistir filmes e vídeos, observar pinturas e fotografias. Essas atividades podem provocar uma sensação de restauração mental e alívio psicológico
A natureza e seus benefícios para a saúde e o bem-estar
A ciência comprova que o tempo passado em áreas verdes pode diminuir a produção de cortisol, o hormônio do estresse, e promover uma sensação de calma e relaxamento. Esse vínculo com o meio ambiente também melhora a concentração, estimula a criatividade e ajuda a restaurar o pensamento e despertar sentimentos positivos como tranquilidade, paz e gratidão.
Além dos impactos emocionais, a interação com a natureza também melhora a saúde física. Caminhar por trilhas, andar de bicicleta ou simplesmente passear em parques contribui para o condicionamento cardiovascular e o fortalecimento dos músculos. A exposição à luz solar natural estimula a produção de vitamina D, essencial para o fortalecimento do sistema imunológico.
No âmbito social, a vivência com natureza estimula a interação entre amigos, familiares e colegas. Atividades como o “banho de floresta” (ou como os japoneses dizem, “Shinrin Yoku”) , realizadas pela equipe do Lapsea, demonstram que essa vivência fortalece laços de amizade, cooperação e solidariedade, promovendo um senso de comunidade. A conexão com a natureza também desperta um olhar mais atento para sua preservação. Ao perceber o valor desses espaços, as pessoas tendem a desenvolver uma consciência ecológica mais forte, reforçando a necessidade de cuidar do meio ambiente para garantir seu equilíbrio e continuidade.
Tempo de exposição recomendável
Alguns estudos mostram que, mesmo poucos minutos vividos de forma intensa, são suficientes para trazer benefícios para a saúde integral da pessoa. No entanto, uma única vivência com e na natureza pode proporcionar sensações restauradoras de atenção e emocional, mas são as vivências frequentes que consolidam esses estados psicológicos e de saúde. É na infância que esses contatos ganham uma intensidade maior de benefícios, permanecendo ao longo da vida.
“Se tivéssemos uma lista de atividades que todos poderiam fazer seria recomendado mais visitas aos parques verdes na cidade, caminhadas em ambientes naturais (floresta, sítio, cachoeiras, balneários entre outros), práticas de jardinagem e cultivo de hortas; fazer piqueniques, brincar na areia, nas águas limpas de igarapés, fazer exercícios e brincar ao ar livre”, enfatiza Higuchi.
Distanciamento da Natureza
Apesar de todos esses benefícios, crianças, adolescentes e adultos estão tendo poucas vivências na e com a natureza, sendo, assim, privados dos benefícios que esses espaços podem proporcionar. Esse distanciamento tem um impacto severo na formação dessas pessoas e muitas vezes gerando o que os psicólogos chamam de Transtorno do Déficit de Natureza, revelam os estudos realizados pelo Lapsea.
“As crianças que vivem em centros urbanos estão, cada vez mais, vivendo quase que exclusivamente em ambientes emparedados e virtuais. Elas perdem as oportunidades de usufruir de todos os benefícios que o contato com a natureza oferece. E esse distanciamento não é só das crianças, mas também dos adolescentes, jovens, adultos e idosos. Desse modo, vemos aumentar os níveis de ansiedade, estresse elevado e depressão, sobretudo em crianças e jovens”, pontua.
Para reverter esses quadros, o Lapsea promove vivências diferenciadas com diferentes públicos para contatos intensos com e na natureza. A equipe utiliza o “banho de floresta”, para proporcionar vivências restauradoras e fortalecer maior conexão com a natureza. Essas práticas são realizadas no próprio Bosque da Ciência e também nos Sítios Experimentais, em especial na ZF2, onde o laboratório desenvolve pesquisas nessa temática, levando estudantes, jovens, adultos para essas vivências, as quais se tornam momentos saudáveis e de educação ambiental.
“A natureza não é apenas um ambiente externo a nós que oferece benefícios diversos aos humanos. A natureza deve ser compreendida e sentida como parte essencial de nossa existência, que deve ser preservada. Portanto, ao convivermos com e na natureza, podemos experimentar a felicidade que tanto procuramos”, finaliza.
Fonte – INPA
Foto – Ascom/INPA