Em um mundo perfeito, todos gostaríamos de conhecer as praias paradisíacas das Maldivas, esquiar nos Alpes europeus ou mergulhar na Costa dos Corais, no Nordeste brasileiro. Mas a realidade é que esses e muitos outros destinos já sofrem os efeitos das mudanças climáticas e arriscam deixar de ser atrações turísticas no futuro. O turismo, além de impactado, também contribui para esse cenário, principalmente pelo grande volume de viagens aéreas. Para especialistas, no entanto, o setor não precisa ser visto apenas como vítima ou vilão: o turismo pode ser parte da solução.
Essa é a proposta central do livro Mudanças climáticas e turismo, lançado gratuitamente pelo Portal de Livros Abertos da USP neste link. Organizada pelas pesquisadoras Rita de Cássia Ariza da Cruz, Carolina Todesco, Isabel Jurema Grimm e Isabela de Fátima Fogaça, a obra reúne especialistas da Rede Internacional de Pesquisa Turismo e Dinâmicas Socioterritoriais Contemporâneas para refletir sobre os desafios e oportunidades do turismo num planeta em transformação.
Criada em 2020, a rede é composta com pesquisadores de instituições do Brasil, Argentina, Portugal e Moçambique, e é liderada por Rita de Cássia, docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “O livro é um fruto muito claro do trabalho da rede. Ela surgiu pelos idos de 2020, logo após a eclosão da pandemia”, conta a professora. “Iniciei uma pequena iniciativa de chamar colegas para analisarmos os impactos da pandemia sobre o setor de turismo, a partir de uma perspectiva geográfica. Isso foi crescendo, envolvendo colegas de vários estados do Brasil e, de repente, também colegas de outros países, sobretudo de língua portuguesa, como Moçambique e Portugal.”
A motivação da professora para propor a obra surgiu após um desastre climático em São Paulo. “Meu interesse pessoal surgiu de estudar a tragédia em São Sebastião, em fevereiro de 2023, na sua relação com o turismo”, afirma. No Carnaval de 2023, chuvas causaram deslizamentos em São Sebastião, no Litoral Norte paulista, matando dezenas de pessoas, a maioria na Vila Sahy. Destino turístico, a cidade foi isolada por dias. Especialistas sugerem que a tragédia pode ter sido agravada pelas mudanças climáticas.
Para a professora, o evento evidenciou uma triangulação crítica entre o modelo de ocupação urbana no litoral, a vulnerabilidade social e os impactos do turismo.
Do diagnóstico à ação
A obra é dividida em quatro partes, sendo a primeira dedicada à abordagem teórica e metodológica do tema. “Ela mostrou que a produção internacional sobre o tema é muito grande, mas no Brasil ainda é pequena. Poucos trabalhos existem aqui, é uma produção pífia”, destaca Rita, referindo-se ao levantamento bibliográfico feito pela especialista Carolina Todesco, que situa o trabalho.
Um dos fundamentos teóricos apresentados logo no início do livro é o conceito de “hiperobjeto”, do filósofo Timothy Morton. “O primeiro capítulo do livro, escrito pelo professor Eduardo Brito-Henriques, da Universidade de Lisboa, faz uma análise oportuna. Ele afirma que as alterações climáticas se tornaram um paradigma deste momento histórico e são aquilo que Morton chama de hiperobjeto [algo tão imenso que não conseguimos compreender por inteiro, só temos acesso a partes dele ou aos seus efeitos]”, relata a professora.
Considerando esse grau de complexidade, entre os conceitos centrais discutidos no livro estão resiliências, adaptação e mitigação. “Vários autores do nosso livro falam, por exemplo, em resiliência climática e em adaptação, que é um conceito crucial. Por quê? Porque as mudanças climáticas chegam de forma crítica: nós lidamos com eventos extremos acontecendo em muitos lugares do mundo. Secas, chuvas torrenciais, ondas de calor. Esses eventos demandam, ao mesmo tempo, uma reação imediata e também uma atuação sobre seus efeitos de longo prazo. A resiliência está ligada ao que eu posso fazer agora, no curto prazo, para sobreviver às mudanças climáticas.”
Já a adaptação, esclarece ela, diz respeito ao que nós fazemos ou podemos fazer para minimizar os efeitos das mudanças climáticas, combatê-los e resistir ao que está acontecendo. “O governo federal, por exemplo, lançou uma política de adaptação às mudanças climáticas para o setor de turismo, e eu cito isso no livro. É um exemplo de como o conceito de adaptação vem sendo incorporado às políticas públicas”, complementa a especialista. Para a geógrafa, o mais importante é compreender que “as mudanças climáticas implicam riscos sociais: uma grande seca ou um evento climático extremo pode provocar mortes. No caso de São Sebastião, foram 63 vítimas. Além disso, há mudanças profundas no modo de vida daquela comunidade.”
Com capítulos assinados por autores das áreas de geografia, ciências sociais, turismo e engenharia, a obra propõe uma leitura coletiva das interações entre turismo e mudanças climáticas, especialmente em contextos pouco discutidos no Brasil. “Essa palavra é muito importante, porque na rede temos uma gestão coletiva, todos participam das decisões”, ressalta a docente.
Pensando no futuro, a professora reforça a importância da discussão sobre a mitigação, voltada à redução dos efeitos das mudanças climáticas já em curso. “Temos que enfrentar o que já ocorre hoje, além do que ainda pode vir nos próximos 100 anos. A mitigação busca reduzir os efeitos das mudanças climáticas. Precisamos, por exemplo, mitigar os efeitos do turismo sobre as mudanças climáticas e também mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre o turismo.”
Para Rita, o livro é só o começo de uma trajetória ainda em construção. “A temática das mudanças climáticas ainda é uma ‘descoberta’ recente no Brasil. Queremos dar continuidade a esse trabalho”, conclui.
Fonte – USP
Foto – Novais Camal Abubacar e Martins/Livro Mudanças Climáticas e Turismo




