Variedades

Concessões de crédito incentivam a inadimplência, que avança no cenário econômico brasileiro

O porcentual de famílias com dívidas em atraso por mais de 90 dias recuou quatro meses consecutivos.
Segundo Edgard Merlo, apesar de não ideal, o movimento apresenta tendências de alta.
A inadimplência financeira é uma situação cotidiana para a vida de muitas famílias.

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), promovida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e divulgada em fevereiro, mostraram que o porcentual de famílias com dívidas diversas, como cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal e outras a vencer voltou a crescer após duas quedas consecutivas, chegando a 76,4% em fevereiro de 2025.

A inadimplência financeira é uma situação cotidiana para a vida de muitas famílias e acarreta uma série de dificuldades econômicas. Segundo o Serasa, mais de 57 milhões de brasileiros estão endividados sem sequer saber disso e, segundo Edgard Merlo, professor do Departamento de Administração na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp) da USP, diversos fatores podem levar uma pessoa à inadimplência, desde pessoais, como ofertas de crédito, até contextuais, como variações econômicas.

“Primeiro, a questão do aumento da taxa de juros, que dificulta o pagamento e pode aumentar a inadimplência. Segundo, a oferta de crédito. Se você não tiver oferta de crédito suficiente, ou for muito escassa, também aumenta a inadimplência. Terceiro, variações na economia. Se você aumentar o desemprego, você pode ter uma maior inadimplência, porque os rendimentos das pessoas diminuem.”

A pesquisa também indicou que brasileiros estão optando por gerar novas pequenas dívidas, com prazos e condições mais vantajosas, com o objetivo de pagar as antigas, que são maiores. A alta, entretanto, é acompanhada por uma redução de 0,5 ponto porcentual nas dívidas em atraso, que corresponde a 28,6% das famílias inadimplentes em fevereiro.

Oferta de crédito

O fenômeno, segundo Merlo, é decorrente da grande oferta de crédito oferecida pelos bancos e, acertadamente, os últimos dados do Banco do Brasil mostram o crescimento da concessão de créditos. “É um movimento com tendência ainda de alta, mas, por outro lado, com renegociação de taxas melhores. Por quê? Porque as pessoas estão percebendo que tem uma grande oferta de crédito e essa oferta de crédito está possibilitando uma renegociação dessas dívidas”, explica o professor.

Outros dados da pesquisa mostram que o porcentual de famílias com dívidas em atraso por mais de 90 dias recuou quatro meses consecutivos, chegando a 48,2% do total de endividados, o menor número desde julho de 2024.

Entretanto, apesar dos números positivos, Merlo ressalta que, idealmente, redução de endividamentos globais indicaria uma evolução melhor, mas que a troca de dívidas tende a aumentar. Mas, de qualquer forma, o ato de trocar dívidas maiores por menores mostra inteligência financeira. “Espera-se que o endividamento continue aumentando, que seria algo negativo, mesmo as pessoas trocando por taxas melhores de juros. O ideal é quando você tem uma redução desses endividamentos em termos globais, mas, pelo menos, é um movimento positivo no sentido de que as famílias estão conseguindo buscar o melhor equacionamento das suas dívidas.”

E a afirmação do economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, confirma a previsão, ao dizer que o endividamento pode continuar aumentando, desde que os brasileiros passaram a ter mais confiança em utilizar o crédito para o consumo e quitação de dívidas.

 

 

Fonte – USP

Foto – katemangostar / Freepik

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