Entre as ruas históricas de Porto Alegre e as paisagens de Nova Petrópolis, nasceu uma das histórias mais marcantes do cooperativismo de crédito na América Latina. No início do século passado, quando os bancos eram distantes da realidade de pequenos agricultores e trabalhadores da Serra Gaúcha, a própria comunidade decidiu criar uma alternativa mais justa e acessível.
Em 1902, o padre suíço Theodor Amstad deu forma a essa ideia ao fundar a “Caixa de Economia e Empréstimos Amstad”. O que começou como uma solução local se transformou no embrião da Sicredi Pioneira, reconhecida como a primeira cooperativa de crédito da América Latina.
O modelo era simples, mas poderoso. A comunidade reunia seus próprios recursos, oferecia crédito a juros justos e reinvestia os resultados em benefício coletivo. O cooperativismo de crédito surgia como uma resposta prática às dificuldades financeiras da época e como um instrumento de desenvolvimento regional.
Mais de cem anos depois, esse legado não apenas permanece, como se fortaleceu. A Sicredi Pioneira atua em 21 municípios entre o Vale dos Sinos e a Serra Gaúcha, reúne mais de 270 mil associados e já ultrapassa R$ 10 bilhões em ativos, números que mostram a solidez construída ao longo das gerações.
Para o presidente Tiago Luiz Schmidt, o diferencial continua sendo o relacionamento próximo com o associado. O cooperativismo de crédito, segundo ele, vai além de serviços financeiros. É presença constante, orientação e parceria no dia a dia, mantendo viva a essência comunitária que deu origem a tudo.
E os números recentes reforçam o crescimento do cooperativismo pelo Brasil. Só a Sicredi alcançou R$ 396,8 bilhões em ativos totais, levando em consideração a atuação em todo o território nacional, um crescimento de 22,3% em relação ao ano anterior, e ampliou sua carteira de crédito em 22,4%, chegando a aproximadamente R$ 257,6 bilhões.
O cooperativismo de crédito, segundo estudo do próprio Sicredi em parceria com a FIPE, está presente em mais da metade dos municípios brasileiros e atua com força sobretudo em regiões menos atendidas pelas instituições financeiras tradicionais.
“O impacto social e econômico do cooperativismo vai além dos números financeiros. Nos municípios onde há atuação de cooperativas de crédito, foi constatado um acréscimo de cerca de 10% no PIB per capita, de 15,1% na geração de emprego formal e de 15,6% no número de comércios locais”, conta o diretor-presidente da empresa, César Bochi.
Além disso, em 2023 o Sicredi distribuiu cerca de R$ 2,9 bilhões diretamente a seus associados e gerou um Benefício Econômico Total (BET) de aproximadamente R$ 23,5 bilhões, o que se traduz em uma economia média de R$ 3.119,91 por associado naquele ano, retornando o valor à comunidade associada.
O elo entre associados e a unidade evidencia a face moderna do cooperativismo: não apenas finanças, mas impacto social, consciência ambiental e uma relação mais íntima entre instituição e comunidade. Em cenários macroeconômicos em que concentração bancária e tecnologia digital dominam o debate, o cooperativismo tem focado em não perder o espírito local.
“Não temos a meta de trabalhar para levar o cooperativismo para grandes cidades do Sudeste, por exemplo, mas isso é algo que vem acontecendo de forma orgânica e mostra o potencial do cooperativismo de crédito”, diz Schmidt.
Por que escolher cooperativas de crédito?
A vantagem competitiva não está apenas nos produtos bancários, mas na participação: o associado é dono, vota nas assembleias, define rumos, o que cria um vínculo de confiança e pertencimento que bancos tradicionais raramente alcançam.
É importante lembrar o papel fundador de Theodor Amstad: ele via no modelo de cooperação uma alternativa à dependência externa e uma forma de fortalecer comunidades rurais e colonizadas, num tempo em que acessos ao crédito eram restritos. Esse espírito permanece visível hoje.
Por isso, quando as cooperativas de crédito abrem uma agência numa pequena cidade ou destina recursos para um produtor local, o diferencial, além da operação financeira, é o investimento numa comunidade que se reconhece como parte ativa do ciclo.
Na prática
Um exemplo é a parceria com a Du Organics, empresa gaúcha que produz cogumelos e móveis a partir de toras de árvores de uvas japonesas.
O ex-jogador de vôlei Lucas Kehl Bauer trocou as quadras e os saques por um novo tipo de rede, a das micorrizas. Aos 26 anos, o gaúcho de Nova Petrópolis, dono de um currículo que soma tetracampeonato da Copa Brasil e tricampeonato da Superliga, hoje colhe frutos (ou melhor, fungos) do negócio.
A virada de jogo começou com a ideia de um amigo e um trunfo de família: uma propriedade no distrito Dos Boêmios. O atleta recém-saído do Sada-Cruzeiro, de Belo Horizonte, viu ali o terreno, literal e figurativamente, para começar uma nova fase.
O talento para empreender talvez venha de berço. Seu avô, Virgílio Kehl, já transformava a madeira da região em móveis sob a marca Germânia, usando a uva japonesa, uma árvore que parece inofensiva, mas é considerada invasora. Suas copas densas sufocam a vegetação nativa; retirar essas árvores, portanto, ajuda a natureza a respirar.
Lucas, atento à sustentabilidade, achou uma utilidade nobre para os resíduos da madeira. A serragem que antes seria descartada virou o substrato ideal para o cultivo de Shiitake, Shimeji, Portobello e Juba de Leão.
Os troncos também entram no processo: recebem esporos inoculados e são selados com resina natural. Assim nascem os cogumelos da empresa, cultivados de forma artesanal, mas com tecnologia suficiente para garantir 20 quilos de produção por dia, abastecendo hotéis e restaurantes em Nova Petrópolis, Gramado e outras cidades.
A operação ganhou escala com o apoio do Sicredi, parceiro histórico da família Kehl. O crédito cooperativo, neste caso, virou adubo para o crescimento do negócio.
Mas Lucas não parou por aí. Apaixonado por culinária, ele resolveu levar os cogumelos para outro patamar: o das panelas. Hoje, os risotos prontos da Du Organics são o carro-chefe da marca, com combinações que vão de cogumelos com tomate seco e limão-siciliano a cogumelos com açafrão e sálvia, todos orgânicos e veganos.
O futuro, segundo ele, é fértil. A Du Organics já estuda transformar o doce fruto da uva japonesa, o mesmo que um dia virou problema ecológico, em geleias, passas e doces. A ideia é fechar o ciclo, dando novo sentido à madeira, à terra e até à história familiar.
Com apoio da cooperativa, a empresa conseguiu expandir a produção e acessar novos mercados. “A gente não é só cliente. É dono também. Isso muda completamente a relação com o crédito”, diz uma das fundadoras, Juliana Duarte.
Fonte – Cooperativismo de Crédito
Edição – Coopnews
Foto – Divulgação




