A sociedade do cuidado é uma estrada de mão dupla. Não só os jovens e os adultos precisam cuidar da população envelhecida, mas as pessoas idosas precisam cuidar dos jovens e da saúde física e mental da juventude. A solidariedade intergeracional é fundamental para a harmonia entre as gerações.
Os filhos e os netos não existiriam sem os pais e os avós. Mas com a sucessão das gerações o equilíbrio se inverte e os ascendentes passam a depender dos descendentes. O cuidado muda de mãos ao longo do tempo: quem cuidava no passado passa a ser cuidado no presente e no futuro. Portanto, o cuidado não é apenas uma responsabilidade unidirecional, mas um processo recíproco e dinâmico. Ele envolve tanto quem cuida quanto quem é cuidado, criando redes de interdependência.
Se os progenitores cuidarem adequadamente das crianças e dos adolescentes, formarão uma geração adulta saudável, produtiva, colaborativa e responsável tanto por si mesma quanto pelos seus predecessores. No entanto, se as gerações mais velhas falharem na educação e no desenvolvimento das mais jovens, a mobilidade social ascendente será comprometida. Afinal, uma pirâmide etária cuja base se corrói e se debilita corre o risco de colapso.
De acordo com o relatório World Hapiness Report (Relatório Mundial da Felicidade) de 2025, a fase inicial da vida adulta teve uma “virada preocupante”. A juventude era considerada uma das fases mais felizes da vida, mas agora apresenta a menor sensação de bem-estar entre todas as faixas etárias. Há vários problemas que estão preocupando os adolescentes, tais como:
Desemprego: O mercado de trabalho tem se tornado mais volátil e mais incerto para os jovens, em decorrência da alta competitividade, automação e precarização do trabalho. Muitos jovens enfrentam dificuldades para conseguir empregos estáveis, enquanto o trabalho informal e temporário cresce. No Brasil existem cerca de 10 milhões de jovens de 15 a 29 anos que nem estão na escola e nem no mercado de trabalho (geração nem-nem).
Inflação: O custo de vida tem subido, com moradia e alimentação ficando cada vez mais caras. Muitos jovens não conseguem sair da casa dos pais ou acumulam dívidas estudantis. Essa situação gera um bloqueio na independência financeira e um adiamento de projetos de vida, como casamento e filhos.
Solidão e Saúde Mental: A solidão crescente entre jovens é um fenômeno global, impulsionado pelo uso excessivo das redes sociais, mudanças nos padrões de sociabilidade e dificuldades econômicas. A depressão e a ansiedade têm aumentado e o acesso a serviços de saúde mental ainda é limitado em muitos lugares.
Guerras e Conflitos: Crises como as guerras na Ucrânia e em Gaza, além de tensões em Taiwan, no Mar Vermelho e na Groenlândia, aumentam a sensação de instabilidade global. Conflitos muitas vezes levam a crises econômicas, deslocamento de populações e um cenário global de incerteza que atinge diretamente a juventude, seja por medo do recrutamento militar, aumento dos preços ou dificuldades para migrar e estudar.
Crise Climática: O aquecimento global constitui uma ameaça existencial à civilização humana. A juventude sente que terá que pagar um preço maior do que os idosos e tem se tornado uma das principais vozes na luta contra as mudanças climáticas. O aumento de eventos extremos (ondas de calor, enchentes, incêndios florestais) impacta a saúde mental e a segurança econômica dos jovens, que sentem um futuro cada vez mais incerto. Muito experimentam a chamada ecoansiedade, um medo constante sobre o futuro ambiental do planeta, pois os piores efeitos da crise climática e ambiental serão sentidas pelos jovens de hoje, que serão mais velhos quando ocorrerem os mais catastróficos desastres ambientais.
Polarização política: A polarização política entre direita e esquerda tem impactado profundamente a juventude em diversos aspectos, desde sua visão de mundo até sua saúde mental e participação cívica. Os jovens estão cada vez mais politizados, mas isso nem sempre significa um engajamento construtivo. Muitos entram em bolhas ideológicas nas redes sociais, reforçando visões extremas sem espaço para diálogo. Os conservadores usam memes, teorias da conspiração e desinformação para atrair jovens, enquanto os progressistas apostam em discursos contra a desigualdade e em denúncias sociais. O problema é que o algoritmo amplifica conteúdos polarizadores, tornando mais difícil o debate equilibrado.
A crise na educação e intolerância: A disputa política tem chegado às escolas e universidades. Em alguns países, governos de direita tentam restringir o ensino de pautas como racismo, gênero e mudanças climáticas, enquanto setores da esquerda buscam promover currículos mais inclusivos e identitários. Esse embate gera um ambiente acadêmico tenso, onde professores e alunos podem se sentir censurados ou intimidados. Com a polarização extrema, cresce a intolerância política. Em alguns casos, isso leva a violência, perseguições e até ataques à democracia.
Redes sociais: O uso excessivo de redes sociais está associado a um aumento nos níveis de ansiedade e depressão, além de incentivar comportamentos agressivos entre os jovens. O Relatório Mundial da Felicidade destaca a necessidade de atenção ao impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes, sugerindo a importância de monitorar e moderar o uso dessas plataformas para promover o bem-estar nessa faixa etária.
As tecnologias que prometiam segurança, acesso à informação e democratização do conhecimento estão mostrando um lado obscuro que tem assustado a sociedade. A minissérie britânica “Adolescência”, em 4 episódios, lançada em 13 de março de 2025 e sucesso absoluto da Netflix, trata da desconexão entre adultos educadores e os hábitos digitais de jovens, colocando em xeque a ilusão de que adolescentes estão seguros nos seus domicílios e em suas escolas.
“Adolescência” chama a atenção para o que está acontecendo com a juventude
A série da Netflix trata de um drama que tem impactos individuais, familiares, educacionais e sociais. Logo na primeira cena assistimos a prisão do adolescente Jamie Miller, de 13 anos, acusado de matar sua colega de classe, Katie Leonard, também de 13 anos. O drama prossegue com os personagens e os expectadores tentando entender as motivações e as consequências para o jovem, sua família, a comunidade escolar e para toda a sociedade que percebe, como diria Shakespeare: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, no caso, no reino da Grã Bretanha.
O crime impacta em sim mesmo, mas chama a atenção para o que está acontecendo com a juventude do país e as disjunções existentes entre filhos, pais, educadores, colegas de escola, vizinhos e a dinâmica econômica, política, social e cultural do país. A maneira como os adolescentes lidam com a internet e transitam pelas redes sociais é uma das pistas para a compreensão da anomia social, provocada pelas intensas transformações no mundo atual.
A modernidade, com suas mudanças e complexidades, destrói valores antigos, mas não fornece um consenso para os novos princípios, deixando um vazio no cotidiano de muitos indivíduos. O sistema escolar, ao invés de preparar a juventude para os novos desafios da sociedade moderna, se torna um fator adicional de conflito interno (entre alunos, professores e funcionários) e externo (entre a escola, as famílias e a sociedade). Existe uma crise na saúde mental individual e coletiva.
A investigação do crime de Jamie Miller revela uma atmosfera escolar conflituosa, tanto no plano presencial, quanto virtual, com relações desarmoniosas baseadas em sucessivas violências reais e simbólicas, alimentadas pelo compartilhamento de fotos íntimas, bullying e cyberbullying. Os corpos discentes e docentes não se entendem e os estudantes comunicam-se entre si, pelas redes sociais, usando de uma linguagem indecifrável para as autoridades escolares e familiares, com a utilização de emojis (imagens utilizadas em chats para transmitir emoções) visando apoiar, mas também constranger e humilhar uns aos outros.
A série Adolescência veio em um momento oportuno e tem contribuído para realçar os conflitos existentes no seio da juventude e a falta de diálogo intergeracional. Dificuldades nas relações familiares, pressões escolares, racismo, LGBTfobia, misoginia, sexismo e xenofobia são fontes de sofrimento que agravam a saúde mental. Distante de ser um ambiente neutro, a escola é uma instituição que carrega as contradições sociais, sendo, ao mesmo tempo, um espaço de aprendizado e de reprodução das desigualdades sociais e dos preconceitos.
O ator que interpreta o pai de Jamie Miller, Stephen Graham, é também roteirista e produtor executivo da produção. Ele protagoniza o quarto episódio da série, mostrando como o crime do adolescente afetou sua família (irmã, mãe e pai). No dia do aniversário de 50 anos, o pai até tenta comemorar indo ao cinema com a esposa e a filha, mas uma série de inconveniências e contratempos com os vizinhos transformam a possível comemoração em um momento de sofrimento e com uma chamada telefônica de Jamie dizendo que iria se declarar culpado pelo crime.
O último episódio da série se encerra com um diálogo profundo entre marido e esposa, quando avaliam o que fizeram de errado e deixam transparecer a falta de esperança não só da família, mas de toda a situação que envolve as instituições, a cultura e a difícil convivência social. Um casal afetivo e buscando dar o melhor de si é devastado pela contingência e de uma sociedade desfuncional.
Sem dúvida, o apoio da família e da escola é essencial para a construção da identidade individual e para auxiliar os jovens na transição para a vida adulta. Em um cenário de conflitos sociais e ambientais cada vez mais intensos, a economia da atenção torna-se crucial. Em tempos de rápidas transformações tecnológicas e culturais, esses desafios podem gerar tensões, enfraquecer a autoconfiança e abalar a confiança mútua entre as pessoas. O choque de expectativas entre autoridade adulta e autonomia juvenil abre espaço para os conflitos sociais e intergeracionais.
A série Adolescência aborda os desafios da menoridade e da maioridade, deixando claro a importância das conexões intergeracionais no suporte social entre diferentes faixas etárias. Há um conflito não resolvido entre os adultos que querem exercer a autoridade e os adolescentes que querem ser ouvidos. De um lado, os adultos (pais, professores, mentores) sentem a necessidade de guiar, proteger e impor limites com base em sua experiência e responsabilidades. De outro, os adolescentes buscam autonomia, reconhecimento e validação de suas emoções e opiniões, pois estão em um momento de desenvolvimento da identidade e construção da independência.
O número de crianças e adolescentes está diminuindo e o número de idosos está aumentando no Brasil e no mundo. A forma como as sociedades lidam com as novas configurações demográficas e as transformações de seus paradigmas, assim como promovem o equilíbrio entre gerações influencia diretamente o bem-estar coletivo. Construir pontes entre as pessoas e fortalecer o diálogo intergeracional é fundamental para uma sociedade mais justa, harmoniosa e próspera. O equilíbrio das estruturas econômica, social e cultural da pirâmide demográfica é essencial em todos os aspectos do cuidado da vida.
Fonte – Portal do Envelhecimento
Foto – Precious Memories Vietnam/pexels