Ciência e Tecnologia

Desmatamento é responsável por 75% da perda de chuvas na Amazônia, aponta estudo

O estudo mostra como o desmatamento e as mudanças climáticas globais influenciam gases de efeito estufa, aumento da temperatura e redução das chuvas.
Pesquisadores quantificaram pela primeira vez o impacto do desmatamento nas mudanças climáticas que afetam o bioma durante a estação seca.
O período de estiagem na Amazônia ocorre entre julho e novembro, com variações conforme a região.

A maior floresta tropical do mundo está ficando mais quente e menos chuvosa. Um estudo publicado na revista Nature Communications aponta o desmatamento como principal responsável por essas mudanças. Os pesquisadores concluíram que cerca de 75% da perda de chuvas e 16,5% do aumento da temperatura na Amazônia estão ligados à redução da cobertura florestal. Entre 1985 e 2020, o bioma deixou de receber, em média, 21 milímetros de chuva por estação seca — uma queda de aproximadamente 8% no período.

Caso as taxas persistam, a previsão é de que, em 2035, a região amazônica tenha um aumento total de 2,64ºC na temperatura e uma redução de precipitação de 28,3 milímetros por estação seca em comparação a 1985. “Esses valores começam a se aproximar do ponto de não retorno”, alerta Luiz Machado, pesquisador visitante do Instituto de Física (IF) da USP e coordenador do estudo. “Esse ponto é complexo de definir, porque ele não depende só do clima, ele depende da vegetação. Mas a vegetação que é mais sensível à falta d’água pode, sim, desaparecer.”

“O que observamos é que os efeitos de redução de precipitação e de aumento de temperatura são muito evidentes na estação seca”, diz Marco Franco, um dos autores da pesquisa e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Ele explica que “sempre choveu na Amazônia. Mas, ao longo dos últimos anos, têm ocorrido secas muito intensas, e isso desencadeia uma série de impactos no bioma, como as queimadas”.

Homem com cachos curtos e pretos, sorrindo em direção a câmera e de óculos. Ele usa uma camisa preta e um paletó cinza. No pescoço, um crachá.

Franco lembra que esses efeitos não ficam restritos à Amazônia. A redução de chuvas na estação seca também compromete o Cerrado e o Pantanal, que dependem da umidade transportada pelos “rios voadores” — responsáveis por parte significativa das chuvas nessas regiões. Segundo ele, a diminuição desse fluxo pode comprometer a agricultura, inclusive a produção da safrinha – que ocorre após a colheita da safra central de um cultivo.

A pesquisa ainda aponta que o clima amazônico responde ao desmatamento de forma não linear, uma vez que o impacto é mais intenso nos primeiros 10% a 40% de área desmatada. Para Franco, o cenário reforça a urgência na preservação do bioma.

“Isso significa que é fundamental preservar o bioma. Porque se você não preserva, ele sentirá o desequilíbrio”
Marco Franco

Nas últimas décadas, a combinação do aumento da temperatura global devido às emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento demonstrou alterar os ciclos hídricos, de carbono e de energia da Amazônia. No entanto, pesquisas não haviam quantificado esses fatores e seus papéis relativos na transformação da floresta amazônica.

Chegando aos resultados

Os autores recorreram a 35 anos de dados do MapBiomas, entre 1985 e 2020, para identificar as transformações no uso da terra na Amazônia Legal. Assim, a área em análise foi dividida em 29 blocos de 300 por 300 quilômetros e os pesquisadores cruzaram as informações de cobertura florestal com dados de temperatura, da precipitação e dos gases de efeito estufa obtidos por satélites e reanálises.

“Através do sensoriamento remoto, pegamos dados de precipitação, do metano, do dióxido de carbono e da temperatura máxima próxima à superfície, porque, caso contrário, seria impossível olhar para a Amazônia de uma forma integrada”, explica Franco. Ele destaca que a temperatura máxima foi escolhida por ser o parâmetro em que os efeitos da perda da vegetação são mais intensos.

Com essas informações, os pesquisadores desenvolveram uma equação paramétrica, que relaciona os efeitos das emissões de gases com o desmatamento. Foi assim que eles conseguiram quantificar quanto do aquecimento e da seca se deve às emissões globais e quanto é resultado direto do desflorestamento; 75% da redução das chuvas tem relação direta com o desmatamento, enquanto o restante é atribuído à emissão de gases. No aumento de 2 °C na temperatura, 0,4 °C são resultados da perda de cobertura vegetal.

Futuro da amazônia

Embora o aquecimento global explique a maioria da elevação das temperaturas na Amazônia, os 0,4ºC adicionados pelo desmatamento não são nulidades. “Parece pouco, mas não é”, aponta Franco. O professor enfatiza que os extremos de calor e de redução das chuvas se acentuam nas regiões mais desmatadas, o que amplifica os eventos climáticos extremos em escala local e regional.

Caso o desmatamento avance de forma contínua, a Amazônia pode ser levada para um regime climático semelhante ao do Cerrado, com estações secas mais marcadas e maior contraste com o período chuvoso.

“Essas tendências de desflorestamento e aumento da temperatura estão levando a Amazônia a ter um ciclo sazonal cada vez maior. Mas a resposta da vegetação pode ser diferente, não se sabe como a vegetação vai reagir a isso. Em regiões onde a vegetação é um pouco resiliente, pode haver uma redução de altura das árvores” – Luiz Machado

Para Franco, esses dados são cruciais, agora que a Amazônia está no centro do debate internacional. “Este ano é o ano da COP30, em Belém”, ressalta. “Os números que apresentamos precisam servir de guia para os tomadores de decisão. É fundamental proteger e reflorestar o bioma, porque os efeitos são muito drásticos quando se remove a cobertura vegetal. E, quando cada país sentar à mesa de negociação, todos terão de saber a conta que lhes cabe pagar.”

 

Fonte – USP

Foto – Reprodução/Nature Communications/Greenpeace/Brasil de Fato/Flickr

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