Cultura

Filosofando até no Carnaval

Filosofar no Carnaval é perceber que a festa também carrega sentido, escolhas e histórias.
Entre um bloco e outro, o Carnaval pode revelar muito sobre quem somos e o que buscamos.
No meio da folia, também existe espaço para pensar sobre a vida.

O Carnaval que se aproxima é muito mais do que festa, brilho e multidão nas ruas. Ele carrega séculos de história e significados que atravessaram continentes até chegar ao Brasil. Por aqui, a celebração começou com o Entrudo, trazido de Portugal, uma brincadeira popular marcada por exageros e muita bagunça. Com o tempo, essa prática foi se transformando e ganhando a cara do povo brasileiro.

Ao longo dos períodos colonial e imperial, o Carnaval foi incorporando influências africanas, ritmos, tambores e formas de expressão que ajudaram a moldar a identidade cultural do país. Surgiram as marchinhas, impulsionadas por nomes como Chiquinha Gonzaga, vieram o samba, os blocos e, mais tarde, as escolas de samba. A festa deixou de ser apenas brincadeira e virou símbolo de cultura, resistência e criatividade.

A própria palavra Carnaval costuma ser associada ao latim carnivale, entendida como “adeus à carne”, numa referência à Quaresma que começa logo depois. Mesmo que essa origem seja discutida, ela nos leva a pensar que o Carnaval sempre esteve ligado à ideia de excesso antes de um período de recolhimento. É como se fosse um respiro intenso antes da pausa.

Mas as raízes da festa parecem ser ainda mais antigas. Diversas civilizações celebravam o fim de um ciclo e o início de outro, principalmente com a chegada da primavera. Depois do inverno, tempo de escassez e silêncio, vinha a celebração da vida que renasce. O Carnaval, nesse sentido, também carrega essa marca de renovação.

Na Grécia e em Roma, festas como as dedicadas a Dionísio já traziam elementos que lembram o Carnaval de hoje, como máscaras, inversão de papéis e ruptura das regras. A ideia era sair da rotina e experimentar algo além do cotidiano. No fundo, o Carnaval continua sendo isso: um momento em que a sociedade se permite viver de forma mais intensa, enquanto revela muito sobre sua cultura, seus valores e seus limites.

É nesse contexto que surge a ideia de catarse: uma liberação controlada das tensões psíquicas e instintivas, para evitar que elas transbordem de forma destrutiva ao longo do ciclo social. Na medicina, o termo “catártico” refere-se à purificação do corpo; no carnaval, essa purificação seria simbólica, ligada à psique humana.

Mas surge uma pergunta fundamental: é realmente necessário gerar impurezas para depois purificá-las? Ou seria possível uma moral que não apenas reprima, mas transmute os instintos? Essa reflexão aparece com força nos festivais medievais, nos quais a máscara grotesca ridicularizava o cotidiano “normal”, denunciando sua hipocrisia. O carnaval, nesse sentido, expunha que a moral comum muitas vezes apenas esconde a bestialidade, sem a transformar.

Como numa videira bem cuidada, a poda dos ramos inferiores permite que a seiva produza frutos melhores. A moral verdadeira não reprime por medo, mas orienta a energia vital para algo mais elevado. Quando isso não acontece, cria-se apenas uma aparência de virtude — uma máscara — que o carnaval faz questão de satirizar.

Celebrar o carnaval não é, portanto, um problema em si. A alegria, a festa e a celebração da vida são profundamente humanas. O convite que essa tradição nos faz é mais sutil: refletir se nossas regras nos tornam realmente mais humanos ou apenas mais domesticados; se usamos máscaras por consciência ou por hipocrisia. Talvez o verdadeiro sentido do carnaval esteja em nos ajudar a retirar essas máscaras — não só por alguns dias, mas também no tempo comum da vida.

 

 

Lúcia Helena Galvão é professora voluntária da Nova Acrópole há 38 anos

Edição – Coopnews

Foto – Divulgação/Ascom

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