O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) integra um estudo internacional que revela um dado preocupante: as mudanças climáticas já estão alterando a diversidade de árvores nas florestas tropicais da Amazônia e da região Andino-Amazônica. Publicada na revista Nature Ecology and Evolution, a pesquisa reúne informações inéditas de 40 anos de acompanhamento contínuo dessas florestas na América do Sul.
À frente do estudo, a pesquisadora Belen Fadrique, da Universidade de Liverpool, explica que o trabalho juntou registros de centenas de botânicos e ecólogos ao longo de décadas. Esses dados mostram que, diante das mudanças climáticas, algumas espécies conseguem se adaptar ou migrar em busca de condições melhores. Outras, porém, não acompanham esse ritmo e acabam encolhendo, o que aumenta o risco de desaparecerem.
A análise é a primeira, em escala continental, a acompanhar de perto como o clima influencia o número de espécies arbóreas. Ao todo, foram avaliadas 406 áreas de monitoramento em dez países sul-americanos, regiões que abrigam mais de 20 mil espécies de árvores. Os resultados indicam que, apesar de a diversidade total parecer estável, há perdas significativas em algumas áreas e ganhos discretos em outras, deixando claro que os efeitos das mudanças climáticas já são reais e desiguais nas florestas tropicais.
A análise revelou que florestas em áreas mais quentes, secas e com maior sazonalidade apresentaram declínios na riqueza de espécies. Enquanto algumas áreas com ecossistemas mais intactos e com florestas naturalmente mais dinâmicas, na verdade, ganharam espécies. Nos Andes Centrais, no Escudo das Guianas e nas florestas da Amazônia Centro-Oriental, a maioria das parcelas de monitoramento florestal perdeu espécies ao longo do tempo, enquanto a maioria nos Andes Setentrionais e na Amazônia Ocidental apresentou um aumento no número de espécies arbóreas.
Apesar do aumento da temperatura ter um efeito geral e abrangente sobre a riqueza de espécies, a pesquisa destaca que a precipitação e seus padrões sazonais desempenham um papel importante na formação das tendências regionais. Os autores apontam os Andes Setentrionais como um refúgio climático, ou seja, uma região que tem mantido as condições climáticas adequadas para a sobrevivência das espécies e assim poderia abrigar espécies cujo ambiente original se tornou quente demais pelas mudanças climáticas.
Para a pesquisadora do Inpa, a ecóloga Flávia Costa, coautora do trabalho, os resultados reforçam a importância de estratégias de conservação adaptadas às realidades regionais. “Este estudo evidencia que os impactos das mudanças climáticas sobre a diversidade de árvores não são homogêneos nas florestas tropicais, o que reforça a necessidade de monitoramento contínuo e de ações de conservação específicas para cada região”, destaca.
O estudo destaca ainda que as espécies vegetais têm opções limitadas para sobreviver às mudanças climáticas. Segundo os cientistas, elas podem alterar sua distribuição conforme as condições ambientais mudam ou podem se aclimatar às novas condições. Se as espécies não conseguirem se deslocar ou se aclimatar, suas populações diminuirão, podendo levar à extinção.
Os pesquisadores pretendem dar continuidade às análises, aprofundando o entendimento sobre quais espécies estão sendo perdidas ou recrutadas ao longo do tempo, considerando aspectos taxonômicos e funcionais. A expectativa é avaliar se essas mudanças indicam um processo de homogeneização da flora em larga escala na região Andino-Amazônica.
Colaboração internacional
O trabalho é fruto de uma ampla colaboração internacional envolvendo mais de 160 pesquisadores de 20 países, com muitas contribuições de universidades e parceiros sul-americanos. O projeto contou com o apoio de grandes coletivos de pesquisa, incluindo RAINFOR, Red de Bosques Andinos, o Projeto Madidi e a rede PPBio. Além de Flávia Costa, outros pesquisadores do Inpa assinam o estudo, dentre os quais Carolina Castilho, Juliana Schietti e José Luis Camargo – novos servidores contratados no último concurso – e Philip Fearnside.
O artigo, intitulado “Tree Diversity is Changing Across Tropical Andean and Amazonian Forests in Response to Global Change “, está disponível na Nature Ecology and Evolution https://www.nature.com/articles/s41559-025-02956-5
Fonte – Ascom Inpa e autores do estudo
Edição – Coopnews
Foto – Ascom INPA




