Doutorando da Ufam aprofunda pesquisa sobre música popular indígena em intercâmbio na Universidade austríaca de Viena

Música

Doutorando em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Agenor Vasconcelos agrega ao currículo acadêmico a experiência do doutorado sanduíche que realiza na Universidade de Viena, na Áustria. A tese aborda a temática da música popular praticada entre indígenas do Alto Rio Negro, mais especificamente em São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, que é conhecida como Kuxiymauara. Na universidade austríaca desde setembro de 2018, o pesquisador mostra sua vivência na Europa no próximo mês de abril.

O intercambista ingressou no curso de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) em março de 2015. Os estudos teriam se encerrado agora neste mês de março, não fosse pela busca por uma vivência a mais, concretizada com a aprovação no Programa de Doutorado-sanduíche no Exterior (PDSE), uma oportunidade oferecida em edital pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“A chance estudar em Viena veio, primeiramente, ao participar do processo de doutorado sanduíche, quando o estudante precisa ter um coorientador (no exterior) que cumpra as exigências do edital da Capes e tenha afinidade com sua área de estudo. Eu conheci o professor Julio Mendívil, da Universität Wien, num congresso internacional de Etnomusicologia, em 2016. Naquela oportunidade, eu o presenteei com o livro ‘A música das cachoeiras’ e nós conversamos sobre alguns instrumentos musicais indígenas que são feitos com ossos animais”, recorda Agenor.

“Obtive ali um ótimo feedback a respeito do trabalho que apresentei daquele que é um dos nomes mais ilustres da etnomusicologia atual. Aquele evento ficou gravado na minha memória. Mas, sinceramente, nunca pensei que ele pudesse responder meu pedido de coorientação para um intercâmbio de doutorado. Retornou rapidamente e eu fiquei muito feliz”, complementa o doutorando, ao citar o coorientador, renomado no meio antropológico.

Tradição em Brasil

A Universidade de Viena tem tradição em diversas áreas, por ser uma das mais antigas da Europa. Especialmente no campo da antropologia, essa tradição chega a ser mais antiga que a própria disciplina, e remonta ao período colonial brasileiro. Conforme esclarece o intercambista, o departamento de antropologia daquela universidade produziu bastante sobre o Brasil, incluindo o Amazonas. A especialidade dessa produção acadêmica está na coleção do Welt Museum (Museu do mundo, tradução livre), uma das mais importantes do planeta.

“É algo pouco conhecido no nosso país, mas uma das esposas do Imperador Dom Pedro I era austríaca, Maria Leopoldina da Áustria. Ela e a família de Viena organizaram e financiaram a viagem do naturalista austríaco Johann Natterer. Ele viajou pelo País entre 1817 e 1835. A coleção etnográfica do museu é resultado desse longo e produtivo período. Foi por meio do departamento de Antropologia Social da UniWie que se revelou para mim essa referência sobre nossa região”, reconhece o doutorando.

Nesse contexto, ele destaca a importância de ter conhecido a organizadora do Festival Cultural do Brasil na Áustria, Vhanessa Noronha. O Brasilianisches Kulturfestival Wien ocorre no Welt Museum, conhecido como o coração etnográfico-antropológico de Viena. Além disso, Agenor pode compartilhar um pouco do próprio conhecimento acumulado na temática da música popular indígena, ao doar o livro do qual foi coordenador, “A Música das Cachoeiras”, lançado pela Editora da Ufam (EDUA), em 2013. Exemplares foram deixados nas bibliotecas centrais de Antropologia e Musicologia da Universidade de Viena e na Biblioteca Nacional da Áustria.

Agregar e aprender

A vivência na clássica cidade austríaca agrega principalmente quanto ao aprendizado da Antropologia Social. “É algo que extrapola a nossa vida acadêmica. Ter acesso a outras formas de serviços públicos e conhecimentos, outras formas de universidades e cidades aumenta nosso repertório para solucionar problemas sociais da nossa região. Objetivamente, o intercâmbio nos faz perceber a importância de escrever a tese em português e inglês e de conectar, na medida do possível para um estudante de doutorado, o PPGAS-UFAM, NEAI e Maracá com mais um parceiro internacional, o Institut für Musikwissenschaft da UniWie”.

Em Viena, o doutorando desenvolve atividades sob a coorientação do professor Julio Mendívil. Trata-se de sessões privadas de orientação acadêmica, com foco na escrita da tese. Os dois estão lendo e discutindo a partir de uma vasta bibliografia, e Agenor escreve todos os dias da semana na biblioteca central da UniWie, Universität Wien.

“Junto a essas atividades principais, faço duas disciplinas ministradas por ele – ‘Introduction to Ethnomusicology’ e ‘Survey in Ethnomusicology’. Além disso, eu fiz um curso intensivo de alemão… apesar de o inglês ajudar bastante numa cidade cosmopolita como Viena, o alemão é uma língua fascinante e muitos dos autores clássicos que estudamos nas Ciências Humanas e Sociais escreveram nesse idioma”, justifica o estudante, para o aprendizado da língua alemã.

Ao avaliar a experiência, o estudante a qualifica como “formidável”. “Além dos conteúdos bibliográficos e abordagens metodológicas que estou aprendendo, a vida em noutra cidade, com outra cultura, outra língua faz a gente sair da zona de conforto. É um exercício antropológico que se soma ao trabalho de campo entre os músicos populares de São Gabriel. Uma coisa está conectada à outra. Nesse sentido, a experiência de um intercâmbio me ajuda a amadurecer na disciplina e na escrita de um bom texto final”, analisa.

Ainda em tom apreciativo, Agenor compreende e destaca a importância dos contatos com instituições e pesquisadores estrangeiros para o enriquecimento do contexto acadêmico do País. “O meu inglês melhorou bastante, tornando possível escrever um artigo científico nessa língua. Um dos objetivos do plano de trabalho do doutorado sanduíche é a publicação em inglês de um artigo científico sobre o tema estudado, o que já está a caminho. No alemão eu apenas estou iniciando, sou bem iniciante, mas consigo me comunicar na cidade. Não entendo o alemão acadêmico ainda, mas estou lá fazendo uma disciplina como ouvinte”, acrescenta.

Como se fosse um “forró”

“Especificamente me concentro em uma cena de música popular local conhecida na região do Alto Rio Negro como Kuxiymauara. Superficialmente, podemos dizer que é um “forró indígena”, mas no decorrer do trabalho de campo fui descobrindo como práticas e filosofias indígenas estavam inseridas naquela cena musical”, explica o pós-graduando intercambista, ao resumir o trabalho como uma reflexão antropológica sobre a música popular em contexto cultural indígena. O título da tese será ‘Kuxiymauara: uma antropologia da música popular entre indígenas de São Gabriel da Cachoeira – AM.

Segundo esclarece o discente, o Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) foi fundamental para pesquisa. “Fui a campo algumas vezes em São Gabriel da Cachoeira. Sempre me preparei bastante para esse trabalho. Levava câmera e gravador para aproveitar todas as oportunidades. Fotografei e gravei bastante em festas e eventos nas comunidades do município, mas foi no Núcleo, em convivência com os alunos indígenas, que eu pude aprofundar a experiência etnográfica”, reconhece Agenor.

“Muitas vezes, eu ficava sem saber o que fazer com os dados que obtinha em trabalho de campo. Foi então que eu prendi o quão produtivo era conversar e a debater com os alunos do Núcleo de Estudos para a reflexão antropológica”, lembra ele, que – além de participar de atividades pedagógicas, eventos e debates promovidos pelo NEAI – também integra a equipe de edição dos Cadernos do NEAI. Esse é um blog em que os pesquisadores e parceiros externos publicam escritos sobre suas investigações acadêmicas.

A participação em atividades ligadas aos estudos de antropologia não param por aí. Agenor ainda é membro do MARACÁ, o Grupo de Pesquisa sobre Arte, Cultura e Sociedade. “É nesse grupo que a minha orientadora no Brasil, professora Deise Lucy Montardo, desenvolve o lindo trabalho de pensar antropologicamente esses temas. Há reuniões e uma série de debates entre os antropólogos que estudam nessa mesma linha”, informa o doutorando, ao reconhecer o papel dos grupos como propulsores para a conquista do intercâmbio em Viena.

 

Fonte – Ufam

Foto – Divulgação