Na fronteira da Amazônia, sentir febre quase sempre significa ouvir a mesma palavra: malária. Em cidades como Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa, essa associação é tão comum que acaba se tornando automática. Só que nem toda febre é malária, e é justamente aí que mora o risco.
Um estudo publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical acende um alerta importante. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal do Amapá, mostra que além do Plasmodium vivax, principal causador da malária no Brasil, vírus como dengue, chikungunya e parvovírus B19 também circulam na região ao mesmo tempo.
O problema é que os sintomas são muito parecidos. Febre alta, dor no corpo, cansaço e mal-estar confundem moradores e até serviços de saúde. Em uma área onde a malária é histórica e frequente, outras infecções acabam ficando em segundo plano, o que pode atrasar o diagnóstico correto.
E isso faz diferença. A malária precisa de medicamentos específicos para eliminar o parasita. Já a dengue, por exemplo, exige monitoramento cuidadoso para evitar complicações como sangramentos. Tratar tudo como malária pode significar deixar passar sinais importantes de outras doenças.
Os pesquisadores também chamam atenção para o parvovírus B19, que pode agravar quadros de anemia, especialmente em pacientes já debilitados pela malária. O recado é direto: na fronteira amazônica, ampliar o olhar sobre a febre é essencial. Reconhecer que diferentes doenças circulam ao mesmo tempo, pode salvar vidas e fortalecer a resposta da saúde pública na região.
O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.
“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.
A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam, ainda que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.
Fonte – Agência Bori
Edição – Coopnews
Foto – Stefan Walkowski / Wikimedia Commons




