Curso divulga sistemas agroflorestais para técnicos na Amazônia

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“Eu nunca ouvi falar que em terra crua se faz plantio e dele ainda produzir bastante”, fala Jucelino Oliveira, admirado. Jucelino é agricultor familiar e presidente da comunidade ribeirinha Bom Jesus. A “terra crua” que ele se refere é aquela cuja vegetação não foi queimada para ser feita roça. No lugar do corte e queima, que lança gases poluentes na atmosfera, os agricultores dessa comunidade no interior do Amazonas conheceram uma forma diferente de tratar o solo: os sistemas agroflorestais (SAF´s). Organizado pelo Instituto Mamirauá, o “Curso de Multiplicação de Conhecimentos em Sistemas Agroflorestais na Amazônia” aconteceu em setembro na Floresta Nacional (Flona) Tefé, a cerca de 600 km de Manaus.

“A proposta do sistema agroflorestal é usar áreas que já foram de agricultura e onde a vegetação está crescendo novamente, conhecidas como ‘capoeiras'”, explica o técnico do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá, José Carlos Campanha. “A ideia é principal é a formação de sítios produtivos, tendo como ‘carro chefe’ as principais culturas cultivadas por eles – como é o caso da banana, cará, macaxeira e abacaxi e, junto a esses plantios, planta-se também espécies frutíferas (cupuaçu, cacau, abacate, açaí, etc.) e florestais (andiroba principalmente) de interesse dos agricultores. Dessa forma, os agricultores têm um recurso a mais para ter essa geração de renda complementar ao longo do ano”.

“Se a gente fizer esse roçado agora, daqui em diante, eu acho que vai ser bem proveitoso”, completa o agricultor Jucelino Oliveira. “E a terra vai ficar muito mais fortalecida do que se fosse queimada, porque quando a gente queima a gente só tem a cinza, o carvão ali, essa aqui não, vai enriquecer cada vez mais”.

Bom Jesus foi uma das comunidades escolhidas para sediar as atividades do curso. Além dela, São Francisco do Bauana, comunidade também localizada na Flona Tefé, recebeu as práticas agrícolas alternativas, como a produção de hortas agroecológicas e a aplicação de biofertilizantes. Mais de vinte profissionais que trabalham com assessoria a grupos de agricultores participaram da capacitação, cujo foco foram experiências aplicadas à realidade rural na Amazônia.

O Instituto Mamirauá tem um histórico de quase vinte anos no incentivo e acompanhamento especializado à sistemas de manejo de recursos naturais, trabalhando ao lado de comunidades ribeirinhas. Os cursos de multiplicadores, realizados há anos pela instituição, são uma forma de compartilhar esses conhecimentos e replicá-los em outras regiões do bioma amazônico.

“A configuração desse curso foi um pouco diferente das edições anteriores. Ao invés de fazermos as atividades com os agricultores diretamente, a gente priorizou técnicos que prestam assessoria a grupos de agricultores, mostramos práticas agroecológicas que eles poderiam replicar nessas comunidades assessoradas”, conta o técnico do Instituto Mamirauá.

Curso ensinou a produzir fertilizantes naturais

Das plantações até o prato do consumidor, boa parte dos alimentos no país é cultivada com agrotóxicos, substâncias usadas para o combate de pragas. O Brasil está no topo da lista de países que mais consomem agrotóxicos, tendência essa que tende a crescer com a recente aprovação de um projeto de lei, de número 6299/02. Entre outras mudanças, está previsto o aumento da oferta de pesticidas no mercado.

Na contramão desse cenário preocupante, o “Curso de Multiplicação de Conhecimentos em Sistemas Agroflorestais na Amazônia” mostrou técnicas para produzir biofertilizantes. Os biofertilizantes são compostos líquidos, feitos com extratos de espécies com grande potencial de nutrição de minerais, como a embaúba. Esse adubo natural é aplicado nas plantas, ajudando também no controle de doenças e insetos.

O Instituto Mamirauá é uma unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). O curso de conhecimentos em sistemas agroflorestais foi realizado em parceria com a organização FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) Amazônia e teve apoio da Fundação Gordon and Betty Moore.

Fonte – Mamirauá

Foto – Divulgação