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O envelhecer e o cuidado entre os povos indígenas

Nos últimos dois anos, o país avançou em políticas públicas que reconhecem e valorizam essa forma de envelhecer.
Nos últimos dois anos, o país avançou em políticas públicas que reconhecem e valorizam essa forma de envelhecer.
O Censo 2022 do IBGE mostra que a população indígena no Brasil cresceu 89% em relação a 2010.

O envelhecimento é um processo múltiplo e diverso, moldado por culturas, territórios e diferentes formas de viver. Entre os povos indígenas, os índices de envelhecimento são mais elevados nas regiões Sudeste e Nordeste, especialmente entre aqueles que vivem fora de suas terras de origem (Kruste, 2024). Esse cenário reflete transformações demográficas e sociais e convida a uma reflexão mais profunda sobre o cuidado — reconhecendo a pluralidade das velhices e a importância de incluir a diversidade cultural nas políticas públicas de saúde.

Segundo o Censo de 2022 do IBGE, a população indígena no Brasil cresceu 89% em relação a 2010, passando a representar 0,83% do total do país (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2024). A população indígena é majoritariamente jovem, sendo que 56,1% têm até 29 anos, enquanto 10,6% possuem 60 anos ou mais (Agência Gov, 2024). Segundo o IBGE, essa configuração etária está relacionada tanto à estrutura familiar das comunidades, geralmente compostas por mais filhos, quanto às dificuldades de acesso à saúde na velhice, fatores que influenciam a longevidade indígena (Dias, 2024).

Os dados do censo também revelam que viver dentro ou fora dos territórios tradicionais influencia as taxas de fecundidade e as perspectivas de envelhecimento. A pirâmide etária dos indígenas residentes fora de suas terras se assemelha à da população brasileira em geral: base mais estreita e proporções maiores nas faixas etárias mais velhas (Kruse, 2024).

Reconhecendo esse cenário, o Ministério da Saúde apresentou, em audiência pública de agosto de 2025, a minuta de revisão e atualização da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) — originalmente instituída em 1999. Entre os temas destacados estão o avanço do envelhecimento nas comunidades indígenas e os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde desses povos, apontando a necessidade de atualizar diretrizes e estratégias de atenção diferenciada (Governo Federal, 2025).

Vale destacar que nos últimos dois anos o país avançou com outras duas políticas essenciais que dialogam diretamente com essa realidade: a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), lançada em 2024 (Ministério da Saúde, 2024), e a Política Nacional de Cuidados (PNC), regulamentada em 2025 (Presidência da República, 2025). Ambas propõem novos olhares sobre o cuidado. A PNCP busca oferecer qualidade de vida e alívio do sofrimento físico, emocional e espiritual a pessoas com doenças graves ou em estágio avançado, enquanto a PNC amplia o debate ao reconhecer o cuidar e o autocuidar como direitos, tirando o cuidado da esfera privada e o transformando em um dever coletivo e social.

Essa perspectiva dialoga profundamente com a cosmovisão indígena, que entende o cuidado como ato comunitário e espiritual. A saúde, nessas culturas, é concebida como equilíbrio entre corpo, mente, comunidade, natureza e mundo espiritual, orientando-se por valores de harmonia, solidariedade e reciprocidade (Mota Júnior et al., 2024). Entre os povos indígenas, a pessoa idosa é reconhecida como guardiã da memória e dos valores comunitários, desempenhando papel essencial na coesão social e na preservação da identidade coletiva (Herrero, 2018).

Como observa Ailton Krenak em Futuro Ancestral (2022), as crianças indígenas “anseiam por se tornarem antigas”, pois são os mais velhos que guardam e compartilham os fundamentos de tudo o que é relevante para uma boa vida. Nessa visão, o envelhecer é sinônimo de plenitude e sabedoria, e o cuidado é expressão de continuidade entre gerações. O cuidado, portanto, não é um serviço prestado a quem envelhece, mas uma expressão de continuidade e respeito.

Os saberes sobre saúde e envelhecimento são transmitidos pela tradição oral, em histórias, cantos, rituais e práticas espirituais que reafirmam a harmonia com o território. Essa forma de cuidar contrasta com a lógica ocidental, marcada pela medicalização e pela institucionalização da velhice. Enquanto na sociedade urbana o cuidado tende a ser individualizado e técnico, nas aldeias ele é vivido de maneira coletiva e simbólica, envolvendo a família, a comunidade e o ambiente natural.

Assim, o cuidado à pessoa idosa indígena não pode ser compreendido apenas sob a ótica biomédica, pois está intrinsecamente ligado à ancestralidade, à espiritualidade e à sabedoria transmitida entre gerações. Nesse contexto, compreender e valorizar os saberes tradicionais é fundamental para a construção de um cuidado mais humanizado, integral e culturalmente sensível.

A implementação das políticas nacionais de cuidado e cuidados paliativos em contextos indígenas demanda uma abordagem que vá além da técnica, incorporando o respeito às tradições, à língua e às crenças que permeiam a vida e a morte nessas comunidades, portanto, uma abordagem intercultural, capaz de respeitar cultura e cosmologias próprias. Nos cuidados paliativos, por exemplo, é essencial reconhecer que o morrer, para muitos povos, não representa o fim, mas uma passagem espiritual. Escuta sensível, diálogo e respeito às crenças tornam-se fundamentais para um cuidado humanizado e coerente com a realidade cultural de cada povo.

Ao integrar o conhecimento científico aos saberes tradicionais, representa uma oportunidade de integração de dois modos de cuidar: o científico e o ancestral. Essa união pode enriquecer a prática dos profissionais de saúde, permitindo uma atuação mais empática e coerente com a realidade cultural dos povos atendidos. A valorização das práticas tradicionais, como o uso de ervas medicinais, as bênçãos e os rituais de passagem, não deve ser vista como oposição à ciência, mas como complemento que amplia a compreensão do cuidado e da dignidade humana (Mota Júnior et al., 2024). Assim, promover um diálogo entre saberes significa reconhecer que a saúde é um fenômeno plural, influenciado por dimensões biológicas, culturais e espirituais.

Conclui-se que integrar os saberes tradicionais indígenas aos cuidados paliativos é um passo essencial para a construção de políticas públicas verdadeiramente inclusivas e humanizadas. O reconhecimento do idoso indígena como sujeito de saber e não apenas como receptor de cuidados reforça a importância da interculturalidade na saúde. Dessa forma, o cuidado passa a ser um espaço de encontro entre mundos, em que ciência e tradição caminham lado a lado na busca por um envelhecimento digno, respeitoso e profundamente enraizado na ancestralidade.

 

 

Fonte – Portal do Envelhecimento

David Rodrigues e Micaela Mendiondo – membros da Liga Acadêmica do EnvelheSer (LAES) Unaerp. E-mail: ligaacademicadoenvelheser@gmail.com.

Foto de Cecília Bastos/USP Imagens

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