Ciência e Tecnologia

O gigante da Amazônia – a incrível jornada da piraíba

Mas a piraíba é muito mais que um peixe de proporções impressionantes — ela tem um papel vital na dinâmica ecológica dos rios amazônicos e na subsistência de inúmeras comunidades ribeirinhas.
Pesquisadores revelam como a piraíba evoluiu até se tornar um dos maiores peixes da Amazônia, símbolo de força e resistência nos rios da região.
Na pesca esportiva, ela é uma das espécies mais cobiçadas, atraindo pescadores de várias partes do mundo em busca de grandes desafios.

Pesquisadores brasileiros alcançaram um marco inédito ao decifrar o mitogenoma completo da piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), o maior peixe de água doce da Amazônia, que pode atingir até 3,6 metros de comprimento.

A descoberta, liderada pelo professor Tetsu Sakamoto, do Instituto Metrópole Digital (IMD/UFRN), foi publicada na revista Scientific Reports. Trata-se do primeiro sequenciamento genético completo dentro do gênero e do décimo na família Pimelodidae, grupo dos grandes bagres de barbatanas longas.

O avanço representa um marco para a biologia e a conservação da piraíba, já que o código genético poderá ajudar a monitorar populações e a desenvolver estratégias de proteção contra a sobre-exploração da espécie nos rios amazônicos.

Mais do que um peixe de proporções impressionantes, a piraíba desempenha papel essencial na dinâmica ecológica e na subsistência de diversas comunidades amazônicas. A espécie é muito procurada para consumo e pesca esportiva. Por isso, foram observados indícios de exploração acima do limite sustentável, o que gera preocupação quanto à sua sobrevivência, já que o tempo mínimo de duplicação da população é estimado em mais de 14 anos. Com o código genético decifrado, passa a ser possível aplicar ferramentas como a metagenômica para acompanhar populações e ambientes com maior precisão.

Para alcançar tais resultados, o estudo uniu tecnologia de ponta e colaboração científica. O mitogenoma foi sequenciado em plataformas como Illumina e PacBio, em parceria com o Instituto Vale Tecnológico e a Universidade Federal do Pará. As análises evolutivas foram realizadas em supercomputadores da UFRN (BioME e NPAD) e da UFMG (CEPAD/ICB), empregando ferramentas robustas de filogenia molecular, como IQ-TREE, MEGA X e BayesTraits.

Os dados obtidos confirmam e ampliam hipóteses já discutidas pela comunidade científica. O sequenciamento revelou semelhanças com o DNA mitocondrial de outras espécies da mesma família, reforçando a confiabilidade da montagem genômica. As análises filogenéticas, que investigam as relações evolutivas entre organismos com base em características genéticas, sustentam a hipótese de que os bagres, reunidos na ordem Siluriformes, surgiram originalmente na região neotropical, que compreende a América do Sul, América Central, partes do México e do Caribe.

Segundo o estudo, a origem desse grupo remonta a cerca de 118,4 milhões de anos. Já o subgrupo Siluroidei, que inclui a maioria das espécies de bagres atuais, teria começado a se diversificar há aproximadamente 94,1 milhões de anos. Essas estimativas, obtidas por meio de dados moleculares, estão em consonância com os fósseis mais antigos conhecidos do grupo, datados entre 83,5 e 88,6 milhões de anos.

O estudo também contribui para as discussões sobre a evolução do tamanho corporal. As análises não identificaram uma tendência geral de aumento ou diminuição entre as espécies da ordem Siluriformes. O parâmetro que mede essa direção evolutiva ficou próximo de zero, indicando ausência de padrão global. Em vez disso, foram observadas linhagens específicas que aumentaram ou reduziram o tamanho ao longo do tempo.

O crescimento corporal em certos grupos, como o da piraíba, coincide com eventos marcantes na história da Terra, como a extinção em massa que separa os períodos Cretáceo e Paleógeno, há cerca de 66 milhões de anos, e o aquecimento climático conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, ocorrido há aproximadamente 56 milhões de anos. Esses episódios provocaram grandes transformações ambientais, influenciando a trajetória evolutiva de diversos organismos.

Esses períodos de crise teriam reconfigurado as cadeias alimentares, permitindo que algumas linhagens de bagres se tornassem predadores maiores. “A biodiversidade perdida durante esses eventos deve ter ocasionado uma mudança drástica na cadeia alimentar. Os siluriformes que sobreviveram a esses episódios podem ter encontrado um ambiente com menos predadores, o que possibilitou sua expansão e favoreceu que algumas linhagens se tornassem predadoras”, reforça Tetsu Sakamoto.

A biodiversidade perdida durante esses eventos pode ter reconfigurado a cadeia alimentar, permitindo que algumas linhagens de bagres se tornassem predadores maiores. O trabalho abre novas perspectivas para investigações futuras. Os próximos passos incluem a integração de registros fósseis às análises para confirmar padrões macroevolutivos e a busca pela base genética do tamanho corporal, explorando as sequências do genoma completo, principalmente de famílias que passaram por mudanças bruscas em seu tamanho.

 

 

Fonte – UFRN

Foto – Divulgação

temas relacionados

clima e tempo

publicidade

baixe nosso app

outros apps