Indo direto ao ponto, o leite materno jamais vira água, continua sendo leite da melhor qualidade pelo tempo que a mãe amamentar. Isso é até uma questão de lógica com o alimento produzido pelas mamíferas. Se o leite de vaca sempre é leite de vaca e ninguém duvida disso ao retirar o produto da gôndola do supermercado para pôr no carrinho, então, por que o leite humano deixaria de ser leite para se transformar em outra coisa a partir de determinado momento? Não tem o menor sentido, não é mesmo?
Esse é apenas mais um mito da cultura do desmame. E que nos leva a ficar o tempo todo achando que qualquer choro é sempre de fome, que o bebê não ganha quilos e mais quilos por mês porque o leite é fraco ou que agora que o bebê cresceu ou nasceram os dentes o leite já não sustenta. No entanto, nada disso é verdadeiro.
Para quem acha que o bom senso não é suficiente para dirimir o impasse, podemos acrescentar números comparativos.
O que nos dizem as evidências científicas?
Em 2005, Mandel et al. [1], recrutaram 34 mães de crianças a termo, saudáveis e em crescimento, que estavam amamentando há mais de 1 ano (12-39 meses) e compararam amostras de leite materno produzido por elas com as dos sujeitos controle do estudo, 27 mães, de bebês a termo, que estavam amamentando por 2 a 6 meses. O foco da investigação foi a quantidade de gordura presente no leite e o seu valor calórico.
Pela nossa lógica cultural, os resultados deveriam ter sido que quanto mais velha a criança amamentada, mas “aguado ou fraquinho” deveria ser o leite produzido pela mãe. Porém, para o desespero dos céticos, os investigadores observaram que o leite humano extraído por mães que amamentam há mais de 1 ano aumentou significativamente o conteúdo de gordura e energia, em comparação com o leite extraído por mulheres que amamentaram por períodos mais curtos. O que os levou a concluir que durante a amamentação prolongada, a contribuição energética da gordura do leite materno para a dieta infantil pode ser significativa.
Antes disso, em 2001, Dewey [2] havia analisado a contribuição, do ponto de vista nutricional, da amamentação para o crescimento ao longo dos primeiros dois anos de vida e observou que entre os 12 e 23 meses, o leite materno continua sendo uma importante fonte de energia, cálcio, proteínas e diferentes vitaminas e minerais, mesmo quando comparado com os valores obtidos pela alimentação complementar. E em alguns casos, como o das Vitaminas C, A, B12 e Ácido Fólico, superando os valores obtidos dos alimentos.
O que vemos muitas vezes na prática?
Os estudos nem são recentes, mas ainda assim, muitos profissionais continuam decidindo ignorar solenemente tais evidências. Talvez não cheguem a pronunciar de forma literal que o leite materno vira água, mas o sugerem de outras maneiras. Por exemplo, quando dizem às mães que o bebê já tem mais de seis meses e o leite materno deixa de ser importante em relação aos outros alimentos, ou que depois de um ano é melhor dar fórmula de seguimento ou leite de vaca. Ou ainda, a insistência em afirmar que a amamentação por dois anos ou mais é uma recomendação da OMS válida apenas para países pobres ou pessoas de baixa renda, já que o leite materno a essa altura não traz benefícios.
O mais curioso é que se comparamos a média dos valores obtidos no estudo de Mandel com os do leite de vaca integral, o leite materno produzido por mulheres que amamentam há mais de 1 ano possui maior valor calórico [3]. Ou seja, que sob esse ponto de vista, não existe vantagem em trocar o leite materno pelo leite de vaca.
O leite materno é muito mais que gordura e calorias
Mas sabemos que as qualidades e benefícios do leite materno e da amamentação vão muito além. O leite materno é um alimento vivo e dinâmico, com fatores prebióticos, probióticos e posbióticos. Ele se adapta ao estado de saúde da díade e transfere ao bebê e à criança que mama os anticorpos produzidos pelo organismo materno. Nada disso está presente no leite de vaca integral ou no leite de vaca modificado (fórmula).
Embora existam poucas pesquisas sobre o leite materno em crianças amamentadas após os dois anos, pois a perda da cultura da amamentação também se reflete nas investigações científicas. Contudo, as informações disponíveis indicam que a amamentação continua sendo uma fonte valiosa de nutrição e proteção contra doenças pelo tempo que ela durar.
Fonte – Aleitamento Materno
Foto – Divulgação




