Ciência e Tecnologia

O silêncio das pessoas idosas

Pesquisadores da Universidade de Zurique concluíram que idosos precisam de algum tempo de silêncio para recarregar as baterias.
Ela, 99 anos, recebe um dos seus filhos com alegria e, depois, volta ao silêncio em sua cadeira preferida, à beira da janela.
O silêncio pode ser um sintoma de solidão, depressão ou uma tentativa de evitar a exposição à violência e negligência.

— Quantos anos eu tenho?

— Noventa e nove anos, mãe. Ano que vem será uma centenária.

— Nossa! Pra que viver tanto? Eu sempre fui tão ativa e hoje não dou conta de fazer mais nada.

— Tem problema não, mãe. Você já fez muito. Hoje tem muita gente que possa fazer por você. E ainda vai viver um tempo, você não tem nada! Mais forte que um carvalho velho!

— Pois é, quantas pessoas de minha idade têm a saúde que eu tenho?

O que é verdade. Seus indicadores de saúde são ótimos. Os medicamentos que toma são apenas dois: um contra a osteoporose pela manhã, um ansiolítico à noite para combater sua ansiedade e dormir melhor. Anda com ajuda de um andador devido às artroses e está quase completamente surda. Temos que falar alto e bem perto dela e ter a sua atenção para que nos ouça. Ainda se alimenta com suas próprias mãos e detesta tomar banho. Já acostumamos com a costumeira reclamação: hora do maldito banho. Alguns amigos dizem o mesmo de seus pais idosos — por que não gostam de tomar banho?

Até mais de oitenta anos atuava como atriz em um grupo de teatro amador do Sesc-BH. Ficava empolgada com o teatro e com sua própria atuação e de seus colegas, quase todos e todas as pessoas idosas. E apresentavam em teatros, escolas, hospitais e presídios. Quando a direção do Sesc encerrou as atividades do grupo, por redução de despesas, veio a depressão.

Foi quando assistimos aquela mulher falante, ativa, inteligente e dinâmica ir declinando pouco a pouco: a depressão, a morte do marido, o isolamento devido à pandemia, a surdez, a solidão. Claro, nunca está sozinha, tem sempre alguém da família com ela, vinte e quatro horas por dia. Mas isso não aplaca a solidão, que está dentro e não no entorno. Onde estão os amigos e amigas, os parentes de mesma geração, as vizinhas que vinham lhe visitar e pedir conselhos? (Sim, ela dava até conselhos matrimoniais: — a gente tem que fingir que não viu e que não escutou). Restaram alguns poucos, muito poucos, ninguém tão idoso quanto ela, mas que já se retiraram às suas solidões acompanhadas.

Em alguns momentos, à mesa do café da manhã, conta algumas histórias:

— Quando eu era moça e trabalhava em Belo Horizonte, no Bairro Santa Efigênia, eu era muito conhecida, porque eu ajudava todo mundo que me pedia. E quando teve a inauguração do Edifício Acaiaca eu estava lá para assistir. Foi quando o Jucelino Kubitschek, que era o prefeito, me reconheceu e me chamou para cortar a fita com ele. (Até onde é verdade, até onde é invenção?)

— Que chique, hein mãe? Amiga do JK!

Ainda lê o jornal todas as manhãs, sem óculos depois da cirurgia de catarata, mas não lembra mais do que leu, minutos depois.

— As notícias são as mesmas de ontem. Não muda nada.

Nesta semana ela estava à janela e percebeu a chegada de alguém no portão. De sua posição não reconheceu quem chegava e me chamou:

— Tem um mendigo na porta, vai ver o que ele quer. Acho que ele quer café.

— Mãe, é J. Um de seus muitos filhos (tem cinco filhos e quatro filhas).

Ela ri, recebe o filho com alegria, e depois volta ao silêncio, em sua cadeira preferida à beira da janela.

Ao silêncio! Ensurdecedor! Só posso ficar em silêncio também. A seu lado, segurando sua mão. Ocasionalmente ela me olha, E sorri.

 

 

Fonte – Portal do Envelhecimento

Foto – RDNE Stock project/pexels.

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