Existe uma expressão em inglês que muita gente já ouviu: “Don’t shoot the messenger”, ou simplesmente não atire no mensageiro. A ideia é clara. Quem transmite uma notícia ruim não é, necessariamente, responsável por ela. O problema é que, no cenário atual, essa lógica tem sido distorcida, principalmente quando falamos de desinformação na saúde.
Hoje, com redes sociais acelerando opiniões e boatos, algumas autoridades deixam de ser apenas mensageiras e passam a reforçar informações sem base científica. Foi o que aconteceu quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu uma relação sem comprovação entre o uso de paracetamol na gravidez e o autismo. A fala gerou preocupação imediata.
A resposta da comunidade científica veio rápido. A Organização Mundial da Saúde afirmou que não há evidências científicas conclusivas que sustentem essa associação. A Agência Europeia de Medicamentos também reforçou que não existe motivo para mudar as recomendações atuais. Entidades médicas em vários países, inclusive no Brasil, se posicionaram na mesma direção.
Esse tipo de situação, infelizmente, não é novidade. Durante a pandemia de COVID-19, o mundo acompanhou uma enxurrada de informações falsas ou distorcidas sobre vacinas, tratamentos e medidas de prevenção. Sempre que uma declaração imprecisa ganha visibilidade, especialistas precisam agir para evitar que a desinformação na saúde cause danos reais.
O desafio é que a mentira costuma circular mais rápido do que a correção. Uma fala polêmica viraliza em poucos minutos. Já a ciência depende de pesquisa, análise, revisão e consenso. Esse descompasso favorece a confusão e aumenta a insegurança da população.
No fim das contas, combater a desinformação na saúde exige mais do que notas técnicas. Exige responsabilidade de quem ocupa cargos públicos, compromisso do jornalismo e educação midiática para que as pessoas saibam diferenciar opinião de evidência científica. Informação de qualidade não é detalhe. É uma questão de saúde pública.
Divulgada no mês anterior, uma pesquisa Genial/Quaest mostra um quadro que vem se complexificando na última década: enquanto 73% dos brasileiros afirmam confiar na igreja católica e 63% na evangélica, essas taxas são de 36%, 50% e 54% quando se referem, respectivamente, aos partidos políticos, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à imprensa.
As dúvidas fomentadas por negacionismo e conspiracionismo navegam com facilidade nesse cenário de crise democrática, baixo letramento científico da população e, principalmente, nas crenças desta. Na queda de braço entre objetividade e subjetividade, quem tem vencido são os vieses ideológicos e valores pessoais, independentemente destes negarem fatos e evidências. A resistência às campanhas de vacinação são uma preocupante consequência disso.
Em texto na coluna da Folha, o jornalista Reinaldo José Lopes faz uma reflexão crítica sobre o trabalho da imprensa especializada. Para ele, é preciso “encontrar maneiras de discutir em público a maneira como a ciência funciona”, repensando o peso dos discursos oficiais, já que esses podem ser usados “por qualquer lado num debate”.
Para além desse esforço e de marcos legais, como a regulação das plataformas digitais para coibir a monetização de mensagens enganosas, é preciso pensar também na complexa tarefa de educar midiaticamente a audiência, para que o senso crítico e a capacidade de discernir entre informação e desinformação se tornem habilidades prevalentes na hora de avaliar quem é o “mensageiro”, seus interesses, valores e objetivos, bem como o conteúdo do que está nos dizendo.
Mariana Mandelli – Coordenadora de comunicação EducaMídia / Instituto Palavra Aberta.
Edição – Coopnews
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