O avanço da medicina trouxe inúmeros benefícios, mas também abriu espaço para um fenômeno cada vez mais presente na sociedade contemporânea: a polifarmácia. Especialmente entre pessoas idosas, a rotina de tomar vários comprimidos ao longo do dia tornou-se comum e passou a despertar debates importantes sobre saúde pública e qualidade de vida.
Essa realidade ganha uma leitura artística na exposição The Pursuit of Perfection, da artista Beverly Fishman. Em suas obras, ela explora como a indústria farmacêutica utiliza cores vibrantes e formas geométricas atraentes para transformar os comprimidos em símbolos visuais quase sedutores, associados à promessa de cura e bem-estar.
Com uma estética que lembra a precisão industrial das cápsulas e pílulas, a arte de Fishman convida o público a olhar além da aparência brilhante dos medicamentos. A proposta é provocar reflexão sobre como a medicina moderna e a indústria farmacêutica influenciam emoções, comportamentos e até a forma como as pessoas enxergam o próprio corpo.
Ao trazer esse debate para o campo da arte, a artista também levanta um alerta sobre a naturalização do uso excessivo de medicamentos. A reflexão aponta para a importância de discutir os impactos da polifarmácia e de recuperar a autonomia das pessoas diante de um sistema que, muitas vezes, transforma tratamentos em produtos visualmente atraentes.
Com uma trajetória de mais de duas décadas explorando esse tema, Beverly Fishman mantém um olhar crítico e atual sobre a relação entre saúde, consumo e cultura. Ao mesmo tempo em que dialoga com o minimalismo e a abstração, sua produção segue investigando como comprimidos, tratamentos e a própria indústria farmacêutica moldam a experiência humana no mundo contemporâneo.
Crítica à polifarmácia
Na exposição “The Pursuit of Perfection”, o conceito principal é a polifarmácia, um fenômeno crescente e alarmante que afeta de maneira desproporcional a população idosa, principalmente. Fishman observa que o consumo diário de três a cinco comprimidos tornou-se uma norma que se intensifica com o envelhecimento, transformando-se em uma preocupação social de grande escala.
O conceito de polifarmácia transcende, portanto, a mera definição clínica de uso simultâneo de diversos medicamentos para se tornar uma crítica profunda sobre como a sociedade contemporânea consome a ideia de “cura” e “perfeição”. Através de sua prática artística, Fishman expõe um fenômeno crescente e alarmante que ocorre na contemporaneidade.
Essa realidade é abordada não apenas como um dado estatístico, mas como uma transformação da experiência humana moldada pela indústria farmacêutica, que utiliza estratégias de design altamente sofisticadas para seduzir o público e tornar o consumo químico uma parte integrante da identidade moderna.
A artista mimetiza essa estratégia de sedução industrial ao criar formas geométricas impecáveis — como triângulos, ovais e círculos — que ecoam deliberadamente o design atraente dos comprimidos reais produzidos pelas grandes empresas. Ao utilizar cores brilhantes e múltiplas camadas de tinta, Fishman captura a atenção do observador por meio de uma superfície que parece ter sido fabricada por máquinas.
No entanto, esse acabamento “perfeito” é, na verdade, o resultado de um processo manual exaustivo, envolvendo semanas de lixamento e uma colaboração intuitiva com especialistas em cores que não utilizam catálogos industriais, mas sim o seu próprio olhar apurado. Essa tensão entre o humano e o industrial serve para evidenciar como a indústria farmacêutica busca mascarar a complexidade química e os riscos potenciais sob uma fachada de simplicidade e beleza estética.
A dimensão de gênero e o impacto emocional da medicação ocupam um lugar de destaque nessa análise, uma vez que Fishman investiga como a publicidade farmacêutica foi e continua sendo direcionada especificamente ao público feminino. Ela destaca como a cultura impõe às mulheres padrões rígidos de aparência e comportamento, utilizando a farmacologia tanto para promover o “antienvelhecimento” quanto para gerenciar emoções que a sociedade prefere silenciar.
O uso recorrente da forma de coração em suas peças para representar o Valium é uma crítica direta a essa história, lembrando uma época em que medicamentos altamente viciantes eram comercializados como soluções inofensivas para os “nervos” das mulheres. Ao embelezar essas formas e torná-las visualmente “fofas”, Fishman reproduz a tática da indústria de desarmar o senso crítico do consumidor através da familiaridade e do afeto visual.
Na realidade, o trabalho de Fishman revela como a polifarmácia transforma o ato de medicar-se em um dos rituais mais poderosos e esteticamente planejados do nosso tempo.
Ao buscar a verdadeira beleza no aqui e agora da vida, Fishman convida o público — especialmente a população idosa, que enfrenta o desafio de um consumo medicamentoso cada vez mais elevado — a refletir sobre como a cultura contemporânea dita padrões rígidos de envelhecimento e comportamento. Sua obra funciona, portanto, como um chamado à liberdade de ser, incentivando uma existência que não seja definida apenas pela sedução visual das promessas farmacêuticas, mas por uma compreensão mais autêntica e crítica de nossa própria humanidade.
Fonte – NextAvenue
Edição – Coopnews
Imagem: Geometrias da esperança (e do medo). Galeria Miles McEnery, Nova Iorque, NY. 8 de maio a 21 de junho de 2025. Estúdio Beverly Fishman.




