Ciência e Tecnologia

Segurança alimentar em risco – do desperdício ao excesso de ultraprocessados

Ricardo Abramovay alerta que o excesso na produção de alimentos compromete não só a segurança alimentar, mas também o meio ambiente.
Hoje, apenas seis produtos concentram 75% das calorias consumidas pela humanidade, revelando a fragilidade da nossa dieta.
A expansão dos ultraprocessados agrava o problema e impacta a qualidade da alimentação em escala global.

A segurança alimentar hoje enfrenta um desafio diferente do passado: o excesso de produção de alimentos, e não a escassez. O problema não está no crescimento econômico em si, mas nos impactos que comprometem o bem-estar das sociedades atuais.

Para o professor Ricardo Abramovay, do Instituto de Estudos Avançados da USP, o tema está diretamente ligado à COP30, que será realizada em novembro. Ele alerta que as mudanças climáticas ameaçam a oferta de alimentos, mas lembra que o próprio modelo de produção agrícola também agrava a crise climática.

Segundo Abramovay, um terço das emissões globais de gases de efeito estufa vem do sistema agroalimentar — uma via de mão dupla entre produção e impacto ambiental.

Abramovay também diz que os dois assuntos mais importantes de serem discutidos na COP30 envolvem como o desmatamento para produção alimentar é desnecessário, sendo uma questão mais patrimonial do que produtiva, e a poluição causada por agrotóxicos. “Hoje nós dependemos de fertilizantes que estão na origem de formas muito graves de poluição […] já ultrapassamos o que a terra pode aguentar em nitrogênio e em fósforo, elementos essenciais para a agricultura contemporânea, além de agrotóxicos e antibióticos que estão sendo produzidos muito mais do que a terra e a saúde humana podem aguentar.”

Características específicas do atual sistema de produção

O aumento e a melhora produtiva de alimentos na segunda metade do século XX, graças principalmente à Revolução Verde ocorrida, reduziu drasticamente a fome no mundo, entretanto, as bases para esse avanço estão esgotadas. “O avanço da oferta agropecuária se apoiou numa tríplice separação. A agricultura se separou da biodiversidade, a produção animal se separou da oferta dos alimentos para esses animais, por exemplo, o rebanho suíno da China é alimentado por algo que vem do outro lado do mundo, ou seja, as funções ecossistêmicas que os animais preenchiam deixam tradicionalmente de ser preenchidas. E, em terceiro lugar, a alimentação se separou da saúde, com o avanço dos ultraprocessados. Isso implicou uma tríplice monotonia do sistema agroalimentar”, ressalta o professor.

Desse modo, a produção agropecuária é concentrada em poucos produtos: apenas seis produtos respondem a 75% do consumo calórico da humanidade. Ocorre também uma monotonia na utilização de antibióticos para a produção animal: 70% dos antibióticos produzidos são destinados a animais, gerando uma resistência microbiana e um problema com as chamadas superbactérias.

A produção em larga escala de ultraprocessados, alimentos com diversos aditivos químicos e pouquíssimos valores nutricionais, também é outro fator que interfere na segurança alimentar da população mundial. “Estamos produzindo cada vez mais para uma população cujo consumo alimentar está na raiz das doenças que mais matam no mundo, a qual são as doenças não transmissíveis geradas fundamentalmente pelo avanço dos ultraprocessados. Essa é a ideia do excesso. Nós estamos gerando muito e usando técnicas de excesso de insumos, excesso de produção, mas que não geram abundância de vida.”

A contestação dessa monotonia

“O primeiro sinal de que esse sistema está sendo contestado é que as próprias organizações que estiveram na origem das tecnologias da Revolução Verde estão se dando conta de que esse modelo está esgotado. O Banco Mundial, o Grupo Consultivo da Pesquisa Agrícola Internacional, mas também organizações financeiras, como a organização Mitsubishi, sendo o sétimo grupo financeiro do mundo. A Mitsubishi, inclusive, lançou recentemente um relatório mostrando como os ultraprocessados e o consumo em larga escala pelos animais de antibióticos são ameaças às próprias empresas, aos lucros das empresas.” O fato desta contestação estar partindo de grandes instituições e grupos financeiros, não apenas de organizações ativistas, mostra como essa realidade pode se transformar.

Como o Brasil e a América Latina podem contribuir

A melhor forma de contribuição dos países latino-americanos para transformar essa realidade é através da agricultura tropical regenerativa, que utiliza de técnicas que prezam o bem-estar do solo e não uma produção agressiva em larga escala. “A ciência do século XXI valoriza muito o que está abaixo do solo, os microrganismos, os fungos, em comparação à ciência do século passado. E é nos trópicos que se concentra a maior densidade de vida do planeta, o maior potencial de desenvolvimento da agropecuária, baseada numa ciência que valoriza a vida e não vê ela como inimiga”, finaliza Abramovay.

 

 

Fonte – USP

Foto – Divulgação/Freepik

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