No plano nacional, o agronegócio permanece com participação determinante na balança comercial e será um setor fundamental para a recuperação da economia por conta da crise ocasionada pela pandemia de covid-19. No Amazonas, o setor apresenta conquistas recentes que apontam para o caminho cada vez maior de consolidação de um projeto sustentável e economicamente viável para o Estado.
“Tivemos a sinalização da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) de desenvolvimento do distrito agropecuário, com a abertura de lotes. A ZFM, o PIM (Pólo Industrial de Manaus) são muito importantes, mas precisamos desenvolver matrizes econômicas complementares e nós acreditamos que setores como piscicultura, fruticultura, frutas tropicais admiradas pelo mundo e que temos aqui, podem ser um caminho de fortalecimento da nossa economia”, afirmou o presidente da Federação da Agricultura e Pecuaria do Estado do Amazonas (Faea), Muni Lourenço.
Crise
Apesar do setor de produção de hortaliças, frutas, e derivados do leite terem sido muito afetados por conta do fechamento de bares e restaurantes durante a pandemia de covid-19, os incentivos vindos dos governos Federal e Estadual, que incluíram o segmento como atividade essencial, ajudaram a amenizar as perdas.
“Nosso setor desempenha um papel social: não deixou que o desabastecimento de alimentos para os amazonenses fosse uma realidade. Tivemos disponibilização de renegociação de dívida, de produtores que tiveram comprometimento de safra, de renda e linhas de crédito com condições favorecidas, emergenciais para os produtores. No Amazonas, houve uma medida interessante: as feiras da ADS foram paralisadas e lançaram mão de estratégias delivery, mas mesmo assim caiu a renda. O governo fez a aquisição de metade dessa produção e destinou para instituições carentes, atividades essenciais e de vulnerabilidade social”, explicou.
Conquistas
Em entrevista ao programa Economia em Debate, programa de extensão da Universidade Federal do Amazonas em parceria com o Conselho Regional de Economia do Amazonas (Corecon-AM), Lourenço afirmou que conquistas como a conclusão do processo de Indicação Geográfica (IG) do abacaxi produzido em Novo Remanso, por parte do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o que agrega valor ao indicar um selo de procedência, são sinais de fortalecimento do setor que vem crescendo no Estado.
Além disso, ele citou ainda a certificação de 13 municípios no sul do Amazonas de status livre da vacinação obrigatória contra febre aftosa com registro de interesse do mercado japonês em adquirir a produção de carne.
“Fui a Codajás ano passado, maior produtor de açaí do Amazonas, e pude verificar um aquecimento e valorização da saca, produtores com mais renda, investindo em irrigação para aumentar a produtividade, com mercado nacional e internacional cada vez mais demandante. Ano passado também estive representando a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) na maior feira de alimentos, em Pequim (China) e verificamos 4 estandes de agroindústrias da região comercializando açaí na Ásia, uma delas com planta industrial no AM, isso sem contar a industrialização da polpa de fruta que vem se instalando no Estado”, avaliou.
Ao ser questionado pelo apresentador, o economista Jefferson Praia, sobre o imbróglio em relação à comercialização da soja que passa pelo Amazonas, mas é transportada para o mercado internacional via Porto de Itacoatiara, Muni Lourenço explicou a etapa burocrática que restringia a comercialização por ser um setor alfandegado já foi superada, mas que o valor ainda não esta próximo do necessário para barateamento do custo de produção, uma vez que a produção de commodities têm o valor cotado em dólar. “No entanto, já foi um bom gesto ter aberto a comercialização porque abriu um segmento de concorrência e já existe o interesse de um outro grupo graneleiro do Centro-Oeste que já se instalou para revender milho e soja no Amazonas”, disse.
Os grãos são matéria-prima para a produção de ovos no Amazonas, segmento que representa o 5ª maior pólo do produto no País com mais de 1 milhão de ovos produzidos por dia, segmento que tem um caráter estratégico e social de segurança alimentar, segundo Lourenço.
Durante a entrevista, o presidente do Corecon-AM, Francisco de Assis Mourão Jr, questionou que medidas poderiam ser tomadas de modo a retirar os maiores entraves à produção do setor agropecuário no Amazonas. De acordo com o presidente da FAEA, há a expectativa sobre a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, o marco regulatório nacional que vai normatizar s exigências que hoje ficam a cardo de cada Estado. “Estados vizinhos ao nosso, como Rondônia, tem uma legislação ambiental mais flexível e, conseqüentemente, o investimento procura o ambiente mais receptivo e menos burocrático para se estabelecer. Temos alertado Ipaam para este fato, sem que isso represente afrouxamento de exigências no que dizem respeito ao rigor ambiental”, disse.
Carência de infra estrutura como energia elétrica em quantidade, qualidade e regularidade de fornecimento para que a indústria possa se instalar com segurança no beneficiamento de produtos como o abacaxi, que já registra excesso de oferta é outro entrave à guinada do segmento.
A falta de titulação das terras, que permite o acesso ao crédito rural é outro obstáculo listado por Lourenço. “E outro gargalo para todo o segmento rural é a insuficiência da assistência técnica: o Governo do Estado precisa fortalecer o IDAM (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas): essa é a grande revolução, a do conhecimento no campo. São 330 mil produtores no Estado e mais de 90% são familiares que dependem da assistência técnica pública gratuita, pois não tem recurso para contratar seu próprio agrônomo, engenheiro de pesca ou veterinário”, disse.
Ele cita dado do IBGE que aponta que o produtor rural que tem orientação e assessoramento técnico tem produtividade e renda três vezes superior aos que não têm acesso à assistência técnica. “A Embrapa é um exemplo disso: em pouco mais de 40 anos fez a produção de alimentos do Brasil gigante. Antes desse período, o País era importador de alimentos básicos como arroz, feijão, leite. A última safra do ano passado produziu alimentos no montante equivalente ao consumo de 1 bilhão de seres humanos. Hoje, o Brasil ocupa esse lugar de garantir a segurança alimentar da humanidade; a própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) reconheceu o Brasil como celeiro da produção de alimentos, o que ganha especial importância na projeção que se tem de 9 bilhões de pessoas no mundo, em 2050. Precisamos estar junto da ciência e tecnologia para aumentar produtividade sem comprometer o patrimônio ambiental”, disse.
Bioeconomia
Nesta quarta-feira, 15.05.20, a partir das 15h, o programa Economia Em Debate traz o tema “Amazônia 4.0: uma nova bioeconomia”, com o cientista Carlos Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É considerado um dos maiores especialistas no país na área de mudanças ambientais globais. Nobre possui doutorado em Meteorologia pelo Massachusettes Institute of Technology e é conhecido internacionalmente por seus estudos que relacionam a ação antrópica na Amazônia às alterações climáticas globais. É presidente do International Geosphere-Biosphere Programme – IGBP (Programa Internacional da Geosfera-Biosfera) e membro do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática. Também é membro da Academia de Ciências do Mundo em Desenvolvimento (TWAS), na categoria Ciências da Terra, e da Academia Brasileira de Ciências. O programa vai ao ar pelo facebook do portal Tucumã e Corecon-AM.
Fonte – Ascom
Foto – Divulgação




