Ciência e Tecnologia

Transtornos mentais no Brasil atual expõem o choque entre autocuidado e realidade social

O discurso do autocuidado cresce, mas esbarra em jornadas exaustivas, renda instável e serviços públicos sobrecarregados.
O debate sobre saúde mental precisa ir além das soluções individuais e enfrentar as condições reais de vida no país.
Ansiedade, depressão e burnout avançam em um cenário marcado por pressão econômica e insegurança cotidiana.

Ansiedade, depressão, burnout e crises de pânico já fazem parte do vocabulário cotidiano dos brasileiros. Esses termos aparecem nas redes sociais, nas universidades, nos ambientes de trabalho e até nas conversas mais pessoais. A saúde mental ganhou visibilidade, mas isso não significou, na mesma medida, mais cuidado ou respostas concretas.

O debate avançou no discurso, porém ficou para trás, na prática. Faltam políticas públicas eficazes, acesso real a atendimento psicológico e psiquiátrico e mudanças estruturais que enfrentem as causas do adoecimento. Para muitos, o autocuidado virou uma exigência individual em meio a rotinas exaustivas e condições de vida cada vez mais difíceis.

A crise da saúde mental no Brasil vai além do consultório. Ela reflete desigualdades sociais, pressões econômicas e decisões políticas que impactam diretamente o bem-estar da população. Ignorar esse contexto é tratar sintomas sem enfrentar o problema de fundo.

O Brasil ocupa o topo do ranking global de ansiedade e figura entre os países com maiores índices de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde. Esses números não surgem por acaso. Eles refletem um país marcado por desemprego persistente, informalidade crescente, violência, instabilidade política, racismo estrutural, aumento da pobreza e sucessivos desmontes de políticas sociais. A pandemia de Covid-19 apenas intensificou as feridas já abertas e ampliou desigualdades históricas.

Enquanto a sociedade repete a máxima “procure ajuda”, a realidade mostra que essa ajuda não está disponível para todos. O Sistema Único de Saúde, apesar de sua relevância e capilaridade, enfrenta sucateamento, falta de profissionais, sobrecarga de demandas e, em muitos lugares, a inexistência de Centros de Atenção Psicossocial. Vivemos, assim, uma contradição cruel: o sofrimento cresce, mas o cuidado não acompanha.

Nos ambientes de trabalho, o cenário também preocupa. Apesar de o burnout ter sido oficialmente reconhecido como fenômeno ocupacional, as condições laborais permanecem adoecidas. Exigências desumanas, assédio moral, metas inalcançáveis, salários defasados e o medo constante do desemprego formam um terreno fértil para o esgotamento. O cansaço vira culpa individual, quando deveria ser entendido como consequência de um modelo produtivo que corrói a saúde física e emocional dos trabalhadores.

Entre os jovens, o quadro não é diferente. Pressão por desempenho, dificuldades de acesso ao ensino superior, precarização das oportunidades e a exposição incessante às redes sociais alimentam ansiedade, insuficiência e desesperança. A promessa de mobilidade social convive com a ausência de perspectivas concretas — e a conta emocional dessa dissonância tem sido paga com sofrimento intenso, automutilação, uso abusivo de substâncias e aumento de comportamentos suicidas.

Nas redes sociais, proliferam imagens de felicidade contínua e vidas aparentemente perfeitas. O Brasil real, marcado por desigualdades profundas, assiste diariamente à apresentação de um país que não existe. A comparação permanente gera sentimentos de fracasso e inadequação, especialmente entre jovens negros, periféricos e vulnerabilizados, que enfrentam mais barreiras e têm menos acesso ao cuidado.

O aumento dos diagnósticos de transtornos mentais também demanda interpretação cuidadosa. Se, por um lado, indica maior reconhecimento do sofrimento, por outra evidência a medicalização crescente da vida — muitas vezes usada como resposta imediata para problemas que têm origem social. Medicamentos são importantes, mas não substituem políticas públicas, vínculos comunitários, trabalho digno, moradia adequada, segurança e acesso à cultura.

É preciso considerar, ainda, que a saúde mental no Brasil é atravessada por marcadores de raça, gênero e território. Populações negras, mulheres, pessoas LGBTQIA+ e moradores das periferias figuram entre os grupos que mais sofrem e que menos conseguem acesso contínuo ao cuidado. A geografia das desigualdades brasileiras também define quem sofre e quem recebe tratamento.

A verdade é dura, mas necessária: não há saúde mental possível em meio à fome, insegurança, desemprego, racismo e violência cotidiana. Continuaremos aprofundando essa crise enquanto tratarmos o sofrimento como responsabilidade exclusivamente individual, ignorando as condições concretas que o produzem.

Cuidar da saúde mental exige mais do que campanhas motivacionais ou discursos sobre autocuidado. Exige investimento público, fortalecimento do SUS, ampliação da Rede de Atenção Psicossocial, valorização dos profissionais e políticas que enfrentam as condições que adoecem milhões de brasileiros. Falar de saúde mental é, acima de tudo, discutir qual projeto de sociedade queremos construir.

 

 

Aline Vitorino Nunes, Psicóloga, Mestre em Psicologia, Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, Especialista em Saúde Pública, Professora de Psicologia na Wyden.

Foto – Divulgação

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