O que nos toca em um filme? Talvez algo familiar.
Toque Familiar nos apresenta Ruth, uma mulher que poderia ser qualquer uma de nós. De costas, cabelos curtos, nuca raspada, ela examina o armário com cuidado, buscando aquela peça que a faria sentir-se especial.
Entre cabides e memórias, Ruth se perde — e é nesse toque de familiaridade que o filme nos conecta à vida, às lembranças e às pequenas grandes emoções do cotidiano.
Enfim encontrou!
É um casaco de veludo molhado vermelho. É a roupa que iria encontrar aquele pôr de sol de quem estava enamorada.
Vamos com Ruth para a cozinha, um lugar colorido, com plantas, muita louça na pia… o palco no qual construía a cada dia o texto de seu devir.
Detalhes como uma fatia de pão ‘secando’ no escorredor da pia e uma hesitação frente ao que deveria ser conhecido, nos conta delicadamente quem vivencia dois registros de ser Ruth: a escritora de livros de culinária, independente e saudável e a senhora com a Doença de Alzheimer.
Ao chegar o tão aguardado convidado para desfrutar o belíssimo sanduíche de atum, conhecemos Steven, o objeto de seu amor libidinal e, também, seu filho.
Nessa altura da sessão, alguns começaram a se remexer nas poltronas. Alguns jovens se levantaram e saíram. Já meu amigo de 70 anos, sentado logo a minha frente, veio ao meu encontro e disse: “está muito frio, vou embora”.
Sim, é muito medo junto.
Medo do desejo despertado no envelhecer.
Medo dos que agora podem desejar.
Medo de que pode ser muito maior do que “a coisa” em si.
O filme é silencioso.
Nada apressado e nem espetaculoso. É apenas e, enormemente, um arauto contemporâneo a conclamar que há vida em cada palavra que Ruth se esforça em encontrar, em cada escolha estética que faz ao misturar as frutas para a salada, ao usar o bom humor com inteligência seduzindo assim aqueles que fazem parte de sua nova vida numa Residência para Idosos, na Califórnia.
Ali alterna momentos de extrema lucidez e outros, no registro de uma fabulação errante e emocionada, constrói uma parceria quase amistosa com a demência.
Ruth se arruma para o que indica ser o último encontro com sua paixão.
Steven chega, senta ao lado dela e como se fosse uma cena-sequência do jantar do início do filme, entrega-se ao papel de homem-filho e a convida para dançar.
Por meio de imagens que capturam os detalhes mais sensíveis de um corpo velho, podemos sentir Ruth se esvaindo e aturdidos, pensamos: e se fosse eu?
Aqui não cabe arriscar um palpite, apenas uma singela dica: para responder a essa pergunta precisamos pensar mais, falar mais, demandar mais sobre ser velhas, velhos e velhas no Brasil.
Porque uma família sozinha, sem rede pública de apoio, não dá conta de manter nossas Ruths no padrão de excelência e profissionalismo equivalentes ao que vemos no filme.
Porque uma família sozinha, tem enormes chances de desmoronar ao remanejar a vida de todos, para caber a pessoa com demência.
Porque…porque…porque…
Ainda temos muito chão pela frente. E temos o cinema capaz de nos fazer pensar em realidades tão difíceis de maneiras tão tocantes.
Fonte – Portal do Envelhecimento
Foto – Divulgação




