Ciência e Tecnologia

Universitários cortam doces e refrigerantes, mas ainda enfrentam desigualdade no prato

As frutas, hortaliças e feijão aparecem pouco na rotina alimentar, especialmente entre estudantes negros e indígenas, mulheres e quem divide o tempo entre trabalho e faculdade.
Entre 2013 e 2019, estudantes universitários passaram a consumir menos refrigerantes, doces e a praticar mais atividade física, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde.
O cenário mostra que a desigualdade social segue influenciando a alimentação e reforça a importância de políticas de apoio dentro das universidades.

Entre 2013 e 2019, estudantes universitários brasileiros passaram a adotar alguns hábitos mais saudáveis no dia a dia. Houve redução no consumo de refrigerantes, doces e no sedentarismo, além de aumento, na prática de atividade física e no consumo de frutas e hortaliças. Mesmo assim, esses avanços ainda não alcançam o nível recomendado e seguem marcados por desigualdades sociais e raciais.

Os dados fazem parte de um estudo publicado na Revista de Saúde Pública, que analisou informações da Pesquisa Nacional de Saúde com quase sete mil estudantes de graduação de todas as regiões do país. A pesquisa avaliou fatores de risco e de proteção para doenças crônicas, considerando diferenças de sexo, raça, idade e situação de trabalho.

Entre os resultados, o consumo regular de refrigerantes caiu de forma expressiva. Entre os homens, passou de 27,9% para 12,5%, enquanto entre as mulheres a redução foi de 22,8% para 10,7%. Já o consumo de frutas e hortaliças aumentou, saindo de 16,1% para 27,2% entre os homens e de 22,6% para 34% entre as mulheres.

Apesar da melhora, o consumo desses alimentos continua abaixo do ideal. Segundo a pesquisadora Daniela Canella, fatores como preço elevado, dificuldade de acesso e pouca oferta de frutas e hortaliças nos locais onde os estudantes moram, trabalham e estudam acabam limitando escolhas mais saudáveis.

Outro ponto de alerta é a queda no consumo de feijão, alimento tradicional da mesa brasileira e indicador de alimentação saudável. A redução foi mais acentuada entre estudantes negros e indígenas, mulheres e aqueles que precisam conciliar estudo e trabalho. “Essa diminuição pode refletir a precarização das condições de vida, a falta de tempo para cozinhar e a ausência desse alimento nos ambientes universitários”, explica Daniela Canella.

Estudantes negros, indígenas e de menor renda enfrentam mais obstáculos para acessar alimentos saudáveis e espaços adequados para a prática de atividade física. “Esses resultados são consistentes com desigualdades históricas como racismo, classismo e sexismo. A universidade reflete os problemas da sociedade brasileira”, afirma Canella, lembrando que a ampliação do acesso ao ensino superior por meio das políticas de cotas tornou essas desigualdades mais visíveis.

Outro ponto analisado foi o impacto de trabalhar ou estagiar durante a graduação. Entre os estudantes com ocupação profissional, observou-se aumento da prática de atividade física no lazer, mas também redução no consumo regular de feijão. Na visão da especialista, isso pode ser explicado pelo equilíbrio entre maior renda e menor disponibilidade de tempo para planejar as refeições. “Isso reforça a importância de políticas de permanência estudantil e da oferta de refeições saudáveis dentro das universidades”, observa Canella.

Os pesquisadores avaliam que as melhorias observadas estão associadas a políticas públicas e iniciativas institucionais, como o Guia Alimentar para a População Brasileira, a e ações de assistência estudantil, com destaque para o papel dos restaurantes universitários na promoção de uma alimentação mais saudável, especialmente entre estudantes em situação de maior vulnerabilidade. Com a recente sanção da Política Nacional de Assistência Estudantil e a previsão de uma nova edição da PNS, a expectativa é ampliar o monitoramento da saúde dos universitários e gerar evidências que subsidiem políticas públicas mais eficazes ao longo do tempo.

O estudo recebeu apoio institucional da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), responsável pelo financiamento dos programas de pós-graduação no país, além da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), por meio da concessão de bolsa de mestrado à pesquisadora Maria Emília Coimbra Pereira.

 

 

Fonte – Agência Bori

Edição – Coopnews

Foto – Freepik

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