Do abandono à diversão no envelhecer – o papel do lazer entre pessoas idosas

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A casa que antes ressoava risadas e conversas animadas agora é preenchida apenas pelo som da pequena tevê de seu Benedito, um idoso de 73 anos que vive sozinho desde que os filhos mudaram para a “[…] cidade grande em busca de uma vida melhor”. Esse é o caso de muitas outras pessoas idosas que vivem em Cotijuba, uma ilha fluvial que abriga cerca de 10 mil habitantes e está situada na zona rural do município de Belém (PA).

Cotijuba, que foi morada dos Tupinambás e na linguagem indígena significa “trilha dourada”, é conhecida por suas inúmeras praias de água doce, que a tornaram um dos principais destinos turísticos do veraneio paraense – o que movimenta alguns locais da ilha e deixa outros em completa solidão, a exemplo da propriedade de Isabel, que diz se sentir sozinha aos finais de semana, sem a companhia de um vizinho sequer.

Em nossa investigação, no âmbito do projeto de pesquisa “Lazer para envelhecer com futuro em comunidades tradicionais da Amazônia Paraense”, constatamos que há o crescimento acentuado da população idosa da ilha, seja em virtude dos processos de envelhecimento e longevidade dos residentes, seja em razão da migração de pessoas idosas de outras regiões, que passaram a morar na ilha para fugir do ritmo acelerado da cidade e, com efeito, buscar a calmaria dos tempos lentos dessa ambiência amazônica.

Além dessa constatação, porém, identificamos que muitos idosos e idosas residem sozinhos(as) e experimentam o abandono e a solidão, como nos relatou Naza, 72 anos, residente da ilha: “Olha, aqui nós temos, no nosso grupo, várias pessoas que moram só, só elas e Deus”.

Essa situação de abandono tem como raiz do problema a ausência e/ou deficiência de algumas políticas públicas que motivam os filhos e as filhas desses idosos(as) a buscar por melhores oportunidades na área urbana de Belém e em outras cidades próximas. Soma-se a isso o fato de que, segundo os idosos, poucos são os filhos que ligam ou têm tempo para visitá-los, pois, ou moram longe, ou estão ocupados em suas rotinas laborais e familiares.

Naza, nos relata: “[Eles] têm filho? Têm! Mas muitos viajam, vão estudar fora, trabalham. Como eu, que tenho filho que também trabalha pra lá. Não tem tempo de tá comigo”. Em outras palavras, como a ilha carece de infraestrutura e de acesso a serviços básicos, muitos jovens são motivados a procurar por qualificação profissional e empregos no continente, onde esperam encontrar melhores condições de vida e ascensão social. Esse movimento migratório resulta em uma dolorosa separação familiar, deixando os idosos, por vezes, além de sozinhos, completamente desamparados.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD – Contínua) de 2022, divulgada em 2023 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de domicílios com apenas um morador aumentou de 12,2% para 15,9% em 10 anos (2012-2022). Dentre esses domicílios unipessoais, 41,8% eram ocupados por pessoas 60+ vivendo sozinhas. Nesse contexto, em 2023, o número de denúncias de abandono de idosos aumentou 855%, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Em apenas cinco meses de 2023, foram registrados 19.987 casos de abandono, comparados aos 2.092 casos registrados no ano anterior. Tais dados evidenciam que essa problemática afeta não apenas a população idosa da Ilha de Cotijuba, como também outros locais no País.

O abandono tem um impacto substancial na vida dessas pessoas. Muitos nos relataram sentir-se esquecidos por suas famílias, pelo Estado e pela sociedade. Naza comenta: “Mora eu, Deus e meu marido, mas eu tenho uma pessoa pra dividir, mas tem outros que não têm”. Essa sensação de desamparo pode levar a problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, além de agravar condições físicas preexistentes.

Houve relatos de pessoas idosas que, diante do abandono, enfrentaram momentos muito difíceis, tanto de saúde quanto financeiramente, que ocasionaram crises de ansiedade, estresse e depressão. Maria, por exemplo, aos 62 anos passou a praticar exercícios físicos, por indicação médica, para cuidar de sua saúde mental.

Nesse cenário, o lazer, muitas vezes subestimado e visto como futilidade, tem se mostrado um espaço/tempo importante para combater, além de enfermidades, o processo de abandono e solidão que muitas pessoas idosas enfrentam na ilha. Especialistas têm apontado o lazer como um elemento fundamental para a qualidade da saúde mental, destacando inclusive prejuízos causados pela sua ausência. Seja a partir da prática de esportes, seja de festas e celebrações com amigos e familiares, o lazer, metaforicamente, pode ser um verdadeiro “antídoto” contra o desgaste das obrigações e dos problemas cotidianos que “envenenam” o emocional de pessoas idosas (Abdel Hadi; Bakker; Häusser, 2021; Barata et al., 2024).

Esses espaços/tempos de lazer têm sido oportunizados a alguns idosos(as) da ilha por meio de ações do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB), uma instituição comunitária, sem fins lucrativos, fundada em 1998, com o objetivo de estimular a autonomia, a autoestima e o desenvolvimento do cidadão.

No MMIB, idosos e idosas da ilha participam de vários projetos, que envolvem cursos de culinária, artesanato e agricultura. Essas atividades promovidas proporcionam aos idosos não apenas capacitações e melhoria das capacidades físicas, mas também lazer, diversão e entretenimento com a criação do “Grupo Vida e Companhia”. Nesses momentos, eles acabaram por criar vínculos e laços de amizade e irmandade, em meio às sociabilidades cotidianas, como nos conta Naza:

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“[…] Então o nosso MMIB é uma família maravilhosa, porque se aquela pessoa que não vai aparecer na nossa ginástica, a gente procura saber o que tá acontecendo, como eles se preocuparam comigo, porque tinha quase um mês que eu não tava indo. Não tava doente, eu tava ajudando resolver os problemas com a minha filha. Mas eu amei eles, e amo, porque eles se preocuparam comigo. Assim eu faço, eu me preocupo seja cá professora, seja quem for, porque ali é uma família fiel. […] Um ajuda o outro”.

Lazer para envelhecer com futuro

Nessa direção, nos dias 14 e 16 de maio, o nosso projeto “Lazer para envelhecer com futuro”, realizou uma ação de devolutiva dos resultados preliminares da pesquisa, a qual contou, no primeiro dia, com três rodas de conversa, a saber: 1) Lazer para envelhecer com futuro, ministrada pela Prof.ª Dr.ª Mirleide Chaar Bahia (UFPA); 2) Potocas da internet: enganação e golpes contra a pessoa idosa, ministrada pelo Prof. Me. Luiz Felipe da Fonseca Pereira (UFPA); e 3) Práticas de higiene bucal para fortalecer sorrisos, ministrada pela Bacharel em Odontologia Luana Jhennyfer da Costa Pantoja (UFPA).

No segundo dia, realizamos um “Dia de Lazer”, em que foram realizadas várias brincadeiras e dinâmicas na praia que buscaram rememorar as vivências de lazer na juventude. Foi uma verdadeira festa de alegria! Ainda no ônibus que nos levou até a praia, percebemos o quão ansiosos e animados os(as) idosos(as) estavam para um dia de diversão. Ali, pelo menos naquele momento, não havia qualquer sinal de solidão, abandono ou tristeza entre todos.

Compreende-se que iniciativas como a do MMIB e a do nosso projeto têm demonstrado o papel que o lazer pode desempenhar nos processos de abandono e solidão relatados por pessoas idosas de Cotijuba. Atividades como danças, palestras, oficinas de artesanato e encontros culturais proporcionam aos idosos um ambiente acolhedor, no qual podem compartilhar experiências, trocar histórias e apoiar uns aos outros.

Essas interações são fundamentais para melhorar a saúde mental e emocional, bem como a integração social dos idosos. Portanto, é essencial que haja um comprometimento de todas as partes – governo, comunidade e famílias – para implementar políticas públicas que garantam o bem-estar dos idosos. Só desta forma será possível construir uma sociedade mais equitativa e inclusiva, em que a população 60+ seja tratada com mais respeito.

 

Fonte – Portal do Envelhecimento

Foto – Divulgação

 

 

 

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