Fórum inicia agenda de mobilização com abraço simbólico e caminhada pelo Dia Mundial da Água em Manaus

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Conservação de nascentes, lagos, igarapés e rios; fiscalização e implementação de comitês de bacia hidrográfica; informação e transparência sobre políticas públicas voltadas para esgotamento sanitário e abastecimento de água em Manaus são algumas das principais preocupações do Fórum das Águas, coletivo de entidades da sociedade civil que promove, nos próximos dias 21 e 22 de março, uma intensa programação em comemoração ao Dia Mundial da Água na capital amazonense e cujo lema deste ano é “A Água nossa de cada dia”.

O objetivo é inserir o tema na pauta da cidade a fim de despertar linhas de reflexão e ação, além de incidir em políticas públicas que entendam que água deva ser tratada de modo inteligente, recuperando a biodiversidade dos mananciais de água, tendo em vista a preservação do meio ambiente, uma vez que a água é a única fonte de riqueza natural que, se extinta, leva à destruição da vida na Terra.

A programação consta de dois dias de atividades: no dia 21.03, a partir das 16h, haverá mobilização com cartazes e faixas educativas para chamar a atenção da população sobre a importância do Dia Mundial da Água. No dia 22.03, haverá abraço simbólico da nascente do Tarumã no bairro Jorge Teixeira às 9h, coordenado pelo Projeto Salve o Mindu, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Às 15h, a caminhada pela Água inicia na Praça Paulo Jacob, na av. Iagarapé de Manaus, Centro e segue até a Praça da Matriz, com previsão de chegada às 17h.

Para se ter uma idéia sobre a importância do tema e a dimensão do problema, basta considerar que o planeta Terra, embora seja composto por 70% de água, somente 0,7% é potável. Nesse contexto, a crise que afeta os igarapés da Bacia do São Raimundo, também afetam com a mesma intensidade de impacto, outras dez bacias hidrográficas de Manaus cujo sentido da correnteza, em geral poluída, é o Rio Negro, tributário da maior e mais importante bacia hidrográfica do Planeta, a Bacia Amazônica.

“É neste conceito que o Fórum das Águas baseia sua preocupação e princípio de luta, desde 2012. E não estamos sozinhos: tivemos a Campanha da Fraternidade 2016 com o tema ‘Casa comum, nossa responsabilidade’, que reacendeu a discussão sobre nossa responsabilidade com o Meio Ambiente, uma vez que o mundo em que vivemos é uma casa para todas as pessoas. Além disso, conseguimos aprovar a realização do Sínodo sobre a Amazônia, que abriga o maior manancial de água do planeta. Então, temos esta responsabilidade de garantir a existência das gerações futuras, mas que é preciso que comecemos porque já estamos atrasados”, afirmou o padre jesuíta Paulo Tadeu xxx, do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (Sares), uma das instituições fundadoras do Fórum.

Ele lembra ainda que, a exemplo da tragédia ocorrida em Brumadinho (MG), com o rompimento da barragem do Córrego do Feijão onde havia exploração de minério, não há, no Brasil, legislação que ampare o julgamento de crimes contra mãe natureza. “Diante disso, fica-se à mercê da justiça comum, sem que haja qualquer parâmetro de responsabilização e todo esse contexto é o motivador da nossa luta”, completou o jesuíta.

Em nível mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu, ainda em 2018, a “Década Internacional para a Ação: Água para o Desenvolvimento Sustentável (2018-2028)” como forma de alertar e estimular ações em busca de solução para o problema.

Em Manaus, a proposta de renaturalização do igarapé do Mindu e de criação do Comitê da Bacia do Mindu, a partir dos conselhos do Parque Municipal Nascentes do Mindu, Parque do Mindu e Parque dos Bilhares, idealizado e encampado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), é uma das formas de iniciar o movimento de resgate e preservação de um dos principais cursos de água receptor de resíduos. A renaturalização é um conceito mundial já adotado, por exemplo, no rio Tâmisa, em Londres; e Cheonggyecheon, em Seul, modificando o cenário urbano-turístico e gerando positivo no ambiente e na economia. Estudo coordenado e orientado pela geógrafa Selma Batista, professora da instituição de ensino que também integra do Fórum das Águas, aponta que manter o modelo de canalização e aterramento de cursos d’água contribui para a produção de cenários de crise e risco socioambiental, provocados por inundações, deslizamentos, doença de veiculação hídrica entre outros danos para o homem e Natureza.

Responsável pelo “Projeto Salve o Mindu”, Selma Batista explica que a importância de se olhar para o curso d’água se dá em função das suas dimensões e localização geográfica: é o maior igarapé da cidade, com 16 km de extensão, atravessando 12 bairros de Manaus como marco divisor da cidade em Leste e Oeste. Em mais 4 km, juntamente com outros afluentes, alcança o Rio Negro onde descarta toneladas de lixo, resíduos, entulhos e esgoto, carregados pela correnteza das águas das chuvas. Quando torrenciais, provocam inundações colocando em risco a população, irregularmente residente em suas margens ou mesmo as regulares, cadastradas com IPTU.

“O que considerávamos como ‘geração futura’ já são os nossos filhos e o que deixamos de legado, de cuidado com a água? Por isso trazemos esta proposta de começarmos cuidando do Mindu sem perdermos de vista a perspectiva da importância da luta sobre outras complexidades que envolvem o assunto água, como esgotamento sanitário e abastecimento, por exemplo”, afirma Batista.

Ela aponta como exemplo, a necessidade de discussão e reflexão junto à sociedade sobre a eficácia de projetos como Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamin), implementado pelo Governo do Estado do Amazonas na bacia do Educandos; o Programa de Desenvolvimento Urbano e Inclusão Socioambiental de Manaus (Prourbis), na bacia do São Raimundo; e o Programa de Integração, Mobilidade e Desenvolvimento da Cidade de Manaus (PIMD/MANAUS) que, juntos, somam um volume total de empréstimos de mais de US$ 1.350.000,00, o que acaba por endividar Estado e Município sem, no entanto, terem corrigido o problema, colocando em risco os recursos hídricos urbanos, as encostas, a mata ciliar e o clima de Manaus.

Na avaliação de estudos coordenados pela UEA, o cenário sinaliza a necessidade, em curto prazo, de nova captação de recursos para intervenções corretivas em infraestrutura urbanística ou habitacional, ainda que os recursos anteriores não tenham atendido as metas estabelecidas, como, por exemplo, a cobertura da rede de esgoto sanitário instalada pelo Prosamim que se encontra em parte, ociosa.

Representante da comunidade João Paulo, no bairro Jorge Teixeira, seo Salatiel Cirilo Cordovil dos Reis sempre militou em prol do benefício do tratamento de água e do esgotamento sanitário em Manaus. “Água é vida”, afirma categoricamente. Fundador do Fórum das Águas desde 2012, ele aprendeu no dia a dia e por meio da fiscalização de obras, a identificar situações que comprometem as comunidades do bairro e que não visam um futuro de preservação do consumo de água. “Em pouco tempo teremos áreas alagadas na região do Jorge Teixeira por conta de obras como o Prourbis que nem ao menos terminaram e já não servem ao propósito original”, afirmou, explicando que atualmente o esgoto captado não é tratado corretamente.

Para o presidente do Instituto Sumaúma, Augusto Leite, salvar um fragmento de floresta que hoje é o parque Sumaúma é um dos exemplos do que pode ser construído a partir da coletividade. As ações coordenadas pelo parque incluem mobilização de comunitários e moradores do entorno para serem mais vigilantes quanto a irregularidades, bem como incentivar a educação de crianças do entorno e nas escolas.

O empoderamento de agentes multiplicadores, por meio da informação e conhecimento, dentro do contexto de Comitê de Bacia Hidrográfica, também um dos pontos incentivados pelo Fórum das Águas. “Vejo que ainda não estamos tão impactados quanto às demais bacias, mas estamos suscetíveis a isso. Estamos consolidando a formação de uma agenda comum, de formação dos comitês de bacia. E isso é uma política muito forte, por exemplo, em MG, onde representantes de todos os comitês se uniram estar no local do acidente de Brumadinho, bem como cobrar e propor soluções, bem como promover políticas públicas que resguardem as águas”, afirmou a bióloga Solange Batista Damasceno, presidente do Comitê de Bacia do Tarumã-Açu, e Conselheira do Conselho Regional de Biologia da 6ª região.

“Ainda não estamos tão impactados quanto às demais bacias de Manaus, mas estamos suscetíveis a isso. A ausência de uma consciência amazônica de pertencimento e de uma cultura de descarte adequada precisa ser trabalhada”, afirma a bióloga que também é educadora ambiental.

O Fórum

O Fórum das Águas tem como princípio ser espaço público, amplo e democrático, aberto ao debate de ideias e experiências, articulador de ações eficazes junto aos movimentos da sociedade civil, lideranças comunitárias, educadores ambientais e demais entidades com a proposta de incidir na construção de políticas sobre a água na cidade de Manaus.

Integram o Fórum das Águas: Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES); MovimentoSalve o Mindu da Universidade do Estado do Amazonas – UEA; Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açu (CBHTA); Instituto Sumaúma; Escola Municipal Francisca Nunes; Movimento Cultufuturista da Amazônia; Levante Popular da Juventude; Engajamundo; Rede um grito pela vida; Conselho de Leigos e Leigas da Arquidiocese de Manaus; Comunidade Eclesial de Base (CEBs) regional Norte 1; Movimento Socioambiental SOS Encontro das Águas; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJPAM); Amigos Sementes da Natureza do Puraquequara; Parque Municipal Nascente do Mindu; Pastoral da Criança da Arquidiocese de Manaus; Equipe Itinerante; Movimento de Mulheres Negras da Floresta – Dandara; Fórum Permanente das Mulheres de Manaus

Dia Mundial

Instituído Organização das Nações Unidas (ONU) em 21 de fevereiro de 1993, o Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março, foi criado para alertar a população mundial acerca da importância da preservação hídrica para a sobrevivência de todos os ecossistemas do planeta.

De acordo com a ONU, a água potável é um direito humano garantido por lei desde 2010. Mesmo o planeta Terra sendo constituído por aproximadamente 70% de água, apenas 0,7% de toda a água do mundo é potável. É considerada água potável a que é adequada para o consumo humano.

 

Fonte – Ascom

Foto – Divulgação