Tive a alegria de participar do sétimo episódio do Direito ao Envelhecer, em uma conversa que foi ao mesmo tempo profunda e leve. Estive ao lado de Micaela Fernandes, Fernanda Paiva, do Paiva & Leoni Advogados, e da psicanalista Luciana Ernany. Falamos sobre a velhice como obra de arte em construção, um olhar que nos convida a enxergar o envelhecer com mais consciência e menos medo.
Esse tema já me atravessava há alguns anos, mas eu ainda não o havia desenvolvido publicamente. A primeira vez que decidi encará-lo de frente foi no XII Congresso Latino-Americano de Psicoterapia Existencial, realizado em Búzios, no fim de outubro de 2025, a convite de Myriam Protasio. Ali, propus uma provocação: e se o envelhecer não fosse visto como declínio, mas como um processo contínuo de autodescoberta?
A ideia da velhice como obra de arte em construção parte desse princípio. Cada etapa da vida acrescenta novas cores, texturas e significados à nossa história. Envelhecer, nesse sentido, não é perder potência, mas atualizá-la. É aprender a olhar para a própria trajetória com mais maturidade e autonomia.
O convite para o episódio veio de Fernanda Paiva, que foi minha aluna há alguns anos. Seguimos cultivando essa troca, inclusive por meio de parcerias no Pilar Assessoria. Participar do programa foi também celebrar esses reencontros que a vida proporciona.
O episódio está disponível no Spotify e no YouTube. Compartilho o diálogo e também uma breve reflexão escrita para contextualizar melhor o conceito da velhice como obra de arte em construção. Falar sobre envelhecer é, antes de tudo, ampliar possibilidades e reconhecer que nossas velhices também podem ser vividas com sentido e orgulho.
O envelhecimento como força ativa vital
A velhice como uma “obra de arte” é uma perspectiva que transcende a visão meramente biológica ou social do envelhecimento, abordando-o sob um prisma de criação, sentido e estética, pois envelhecemos em nossos corpos, como já dizia Silvana Tótora, e, como tal, está em nossos próprios corpos a fonte da resistência aos discursos que negam a velhice e que querem nos congelar na juventude.
Compreender a velhice como uma obra de arte é afirmar o envelhecimento como força ativa vital. Embora poucos autores utilizem essa exata formulação literal, diversos teóricos fornecem fundamentos para essa interpretação, focando na vida como um projeto contínuo de autoconstrução e na sabedoria e singularidade acumuladas com a idade. Afinal, a velhice vem se tornando uma experiência potencialmente mais positiva para um número maior de pessoas.
Ou seja, estamos testemunhando mudanças drásticas na experiência do envelhecimento que precisam ser compreendidas em termos do contexto sociocultural de gerações. As pessoas idosas contemporâneas — eu me incluo nelas — desafiam grande parte do pensamento sobre a velhice e sua relação com a gerontologia, considerando a desigualdade, a heterogeneidade das experiências de envelhecimento e como elas se relacionam com classe social, gênero e etnia/raça.
Essa abordagem vem me instigando há alguns anos, provocada por diálogos na PUC-SP com Silvana Tótora, quando éramos docentes do então Pós em Gerontologia Social. Em seu livro “Velhice: uma estética da existência”, ela nos apresenta o filósofo Michel Foucault, que de forma mais direta contribui para pensarmos a velhice como obra de arte.
Nos volumes finais de sua História da Sexualidade (especialmente O Uso dos Prazeres e O Cuidado de Si), Foucault explora a “estética da existência” na Grécia Antiga. Ele descreve como os indivíduos buscavam moldar suas vidas, seus corpos e suas condutas de forma a transformá-las em algo belo e exemplar, como uma obra de arte. Essa “arte de viver” (ars vivendi) envolve práticas de cuidado de si, autodomínio e reflexão ética, visando à excelência e à autonomia.
Nesse contexto, podemos pensar que a velhice pode ser vista como o estágio final e a coroação dessa busca estética e ética: uma vida vivida com intencionalidade, autoconhecimento e cuidado, culminando em sabedoria e integridade. Seria a “obra-prima” do indivíduo. Não é apenas o que se fez, mas como se transformou a si mesmo ao longo do tempo.
Nas minhas andanças teóricas, instigada também por outras colegas, como Irene Arcuri, me deparo com Carl Jung, que postulou o processo de individuação como o desenvolvimento psicológico ao longo da vida, que visa à realização do self – a totalidade da personalidade. Jung enfatizou que a segunda metade da vida (a partir da meia-idade, a metanoia) é crucial para esse processo, onde o indivíduo se volta para o interior, busca integrar aspectos inconscientes e confronta a própria mortalidade, buscando um sentido mais profundo e uma totalidade.
A individuação na velhice é um processo criativo de autodescoberta e síntese. O “eu” que emerge na velhice, com sua sabedoria, experiências e uma visão mais integrada da vida, pode ser considerado uma forma de “obra de arte”, resultado de um longo e complexo trabalho interior realizado a todo instante.
Outras perspectivas teóricas, como as existencialistas apresentadas por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, enfatizam a liberdade radical do indivíduo para criar sua própria essência e significado através de suas escolhas e ações. A vida é vista como um projeto em constante construção, onde não há uma natureza humana predefinida, mas sim uma existência que se define através da ação.
Embora Simone de Beauvoir, em A Velhice, explore as dificuldades e a alienação que a sociedade impõe às pessoas idosas, a lente existencialista permite ver a velhice não como um declínio passivo, mas como uma fase onde a liberdade e a responsabilidade de dar sentido à própria vida permanecem.
A forma como um indivíduo escolhe enfrentar os desafios do envelhecimento, manter-se ativo, buscar novos significados e expressar sua identidade pode ser vista como um ato de criação contínua, uma “obra” em constante acabamento.
Aliás, Guimarães Rosa, escritor brasileiro que, dentre muitas obras extraordinárias, escreveu o clássico intitulado Grande Sertão: Veredas, lembrava que ninguém está pronto, que somos versões em constante construção, que mudar é sinal de vida!
Gaston Bachelard, embora não aborde diretamente a velhice como obra de arte, sua fenomenologia da imaginação sugere que a mente humana está constantemente engajada em atos poéticos e criativos que transformam a percepção do mundo. O tempo, a memória e os espaços íntimos são campos férteis para a imaginação.
Nesse sentido, a riqueza da memória e a capacidade de sonhar e reimaginar a própria vida na velhice podem ser entendidas como atos artísticos. A velhice pode ser um período de intensa atividade imaginativa, onde as experiências passadas são revisitadas, ressignificadas e tecidas em uma peça única (o corpo) de significado e beleza pessoal.
Contardo Calligaris, no livro O sentido da vida, fala sobre o hedonismo como um projeto de dedicação e atenção ao mundo, exatamente como o projeto de contemplar e apreciar uma obra de arte é um projeto de dedicação e de atenção à obra. Ele assinala que, quando julgamos uma obra de arte, o que julgamos é uma finalidade sem fim, ou seja, uma coisa que não tem outra finalidade fora dela mesma.
O que é uma excelente definição de obra de arte, mas que se aplica também às nossas vidas, as quais, quem sabe, não tenham outra finalidade fora delas mesmas. A vida é a obra de arte de cada um, a mais importante, a mais valiosa e talvez também a única. Ou seja, a vida de cada um de nós é a sua obra de arte.
Por fim, não poderia deixar de falar da Gerontologia, especialmente a vertente crítica humanística, para a qual a “história de vida” é um conceito central. Entende-se que os indivíduos constroem e recontam suas vidas, dando-lhes coerência e significado. A narrativa de vida é um processo dinâmico de autoconstrução e identidade.
Nessa perspectiva, entende-se que a velhice é o momento em que a “obra narrativa” da vida está mais completa. As pessoas idosas são frequentemente “contadoras de histórias” de suas próprias vidas, selecionando, interpretando e apresentando suas experiências de uma forma que reflete quem elas se tornaram. Essa construção da narrativa, que dá forma e sentido a uma existência, é um ato profundamente criativo e, em si, uma forma de arte.
Recentemente fizemos uma chamada de relatos de vivência para a Revista Longeviver, a fim de compor um número especial dedicado ao tema “Envelhecer com Sentido: Experiências e Narrativas de Vida em Diferentes Contextos” e, assim, celebrar a velhice como espaço de potência, sabedoria e reinvenção. Sugiro sua leitura.
Em síntese, a velhice como obra de arte é uma metáfora poderosa que nos convida a ver essa etapa da vida não como um processo de perda, mas como a culminação de uma vida de autoconstrução, reflexão, sabedoria e a persistente busca por significado e beleza na existência.
Velhice como Obra de Arte – https://youtu.be/dnEeZKprfvs
Fonte – Portal do Envelhecimento
Edição – Coopnews
Foto – iStock




