A vulnerabilidade alimentar influencia diretamente como comunidades amazônicas se relacionam com a natureza. Quando falta comida, a percepção sobre o meio ambiente se concentra quase totalmente na sobrevivência imediata, especialmente no acesso à água e alimentos. Já em contextos de menor insegurança alimentar, as pessoas conseguem reconhecer outros benefícios da natureza, como a regulação do clima, os valores culturais, espirituais e o lazer.
Essa é uma das conclusões de uma pesquisa do programa AmazonFACE, publicada no periódico científico Ecosystem Services. O estudo mostra que as necessidades básicas moldam a relação das populações com o ambiente e ajudam a explicar por que diferentes comunidades enxergam a natureza de maneiras distintas.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores realizaram 216 entrevistas com moradores urbanos, ribeirinhos e indígenas, além de cruzar esses relatos com dados sobre uso e cobertura do solo. O trabalho de campo foi feito em Manaus, Carauari e Tabatinga, municípios do Amazonas com diferentes níveis de vulnerabilidade alimentar, o que permitiu uma comparação mais ampla entre realidades sociais e ambientais.
O estudo também aponta que a percepção das comunidades funciona como um alerta precoce para problemas como poluição da água e escassez de peixes, muitas vezes antes de esses impactos aparecerem em dados técnicos. Segundo a bióloga Ana Luisa de Carvalho Cruz, líder da pesquisa, ouvir quem vive no território é essencial para construir políticas públicas mais justas e eficazes.
Os resultados desafiam a ideia de que a alta biodiversidade, por si só, garante segurança alimentar. Fatores como a sazonalidade dos recursos naturais e a dependência de mercados externos pesam no cotidiano das comunidades. Por isso, o projeto aposta em devolver os resultados às populações participantes, com materiais acessíveis, fortalecendo o diálogo entre ciência, conservação e vulnerabilidade alimentar.
Os próximos passos da pesquisa incluem investigar de forma mais aprofundada as pressões ambientais e climáticas que geram escassez, além de mapear as estratégias de adaptação já adotadas pelas comunidades. “Olhar para essas adaptações é fundamental para entender o que funciona, o que não funciona e como tornar as decisões mais inclusivas e eficazes”, destaca Cruz. A expectativa é que, por meio do AmazonFACE, os resultados fortaleçam a interface entre ciência e tomada de decisão, contribuindo para políticas públicas mais alinhadas às realidades locais.
Fonte – Agência Bori
Edição – Coopnews
Foto – Marko Monteiro / Acervo Pesquisadores




