Ciência e Tecnologia

Biocombustíveis podem avançar sem aumentar desmatamentos e reduzir áreas para alimentos

Brasil tem potencial estratégico para ampliar a oferta de biocombustíveis sustentáveis nas próximas décadas.
David Tsai defende mais produtividade e uso de terras já abertas ou degradadas para ampliar a produção.
Estratégia busca evitar que a expansão dos combustíveis renováveis pressione novas áreas de vegetação.

A expansão dos biocombustíveis não precisa significar mais desmatamentos nem uma disputa por terras destinadas à produção de alimentos. A avaliação é de David Tsai, que aponta o aumento da produtividade e o aproveitamento de áreas já abertas e degradadas como alternativas para ampliar a produção sem avançar sobre novas áreas. A estratégia ganha relevância diante do potencial do Brasil para se tornar cada vez mais estratégico na oferta global de biocombustíveis sustentáveis nas próximas décadas. A ideia é aproveitar melhor as terras que já estão disponíveis, produzindo mais na mesma área e reduzindo a necessidade de expansão da fronteira agrícola. Dessa forma, a produção de biocombustíveis pode crescer paralelamente à produção de alimentos, sem que uma atividade necessariamente precise ocupar o espaço da outra. O desafio está em combinar ganho de produtividade, uso eficiente das áreas existentes e preservação ambiental, criando condições para que o setor avance sem transformar a expansão dos combustíveis renováveis em um novo vetor de pressão sobre a vegetação nativa.

Os biocombustíveis têm sido um dos grandes destaques no discurso socioambiental global por sua capacidade de surgir como uma alternativa para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e de colaborar com a redução das emissões de gases de efeito estufa. Um ponto a se considerar, porém, é que sua produção em larga escala depende de extensas áreas de terras hoje direcionadas aos cultivos agrícolas. A relação entre a produção de biocombustíveis e a produção de alimentos aparece, portanto, como um desafio.

David Tsai, engenheiro químico e gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente, explica que, como os biocombustíveis são produzidos a partir de biomassa (cana-de-açúcar, soja, milho, resíduos agrícolas e florestais), o Brasil tem um papel central nesse mercado, não fosse um dos maiores produtores mundiais de etanol e biodiesel, graças à alta produtividade da cana-de-açúcar, à experiência acumulada desde o Proálcool e à grande participação de renováveis na matriz energética. “O País também é visto como estratégico para expandir a oferta global de biocombustíveis sustentáveis nas próximas décadas.”

Ele alerta para o risco potencial de competição por terra entre biocombustíveis e alimentos, embora estudos mostrem que isso não precisa acontecer no Brasil, que possui cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas, dos quais parte pode ser recuperada para expansão agrícola e bioenergética sem avançar sobre florestas ou áreas de produção de alimentos. “Além disso”, diz Tsai, “ganhos de produtividade na agropecuária permitem produzir mais em menos área. O problema surge quando há expansão desordenada, monoculturas extensivas ou pressão indireta por desmatamento. Por isso, a discussão não é apenas alimento versus combustível, mas como organizar o uso da terra com planejamento, conservação ambiental e aumento de eficiência produtiva”.

Soluções

Nesse cenário, bem caberia a seguinte pergunta: quais seriam as principais soluções ligadas ao modelo de produção de biocombustíveis para conseguir reduzir a competição com a produção de alimentos? “As principais soluções passam por aumentar a produtividade e usar áreas já abertas e degradadas, evitando novos desmatamentos. Os estudos destacam a recuperação de pastagens degradadas, sistemas integrados como ILPF (Integração Lavoura – Pecuária – Floresta), plantio direto, agroflorestas e uso de resíduos agrícolas e urbanos para produção de biocombustíveis avançados e biogás”, argumenta Tsai. “Outra estratégia é ampliar combustíveis de segunda geração, feito de palha, bagaço e resíduos, reduzindo a necessidade de novas áreas agrícolas. Também são importantes critérios socioambientais rígidos, rastreabilidade das cadeias produtivas e políticas públicas que conciliem segurança alimentar, conservação ambiental e transição energética. Assim, o Brasil pode expandir a bioenergia sem comprometer a produção de alimentos.”

 

 

Fonte – USP

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews

Foto – Marcelo Camargo/Agência Brasil

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