Copa do Mundo e Jogos Olímpicos estão entre os maiores espetáculos esportivos do planeta, mas possuem histórias, objetivos e formatos bastante distintos. Embora compartilhem a capacidade de reunir nações e emocionar milhões de pessoas, cada evento exerce um papel singular na promoção do Esporte e na construção de legados sociais, culturais e educacionais. Em análise da professora Katia Rubio, da Faculdade de Educação da USP, o artigo explica o que aproxima essas competições e quais características fazem de cada uma um fenômeno único no cenário esportivo mundial.
Na década passada a palavra megaeventos era utilizada com facilidade para muitas competições que evidentemente tinham impacto econômico, senão político. Jogos Panamericanos, Jogos Olímpicos, Copa do Mundo e os inúmeros campeonatos mundiais de diferentes modalidades, e visibilidade global, que aconteceram em solo brasileiro, reforçam a condição de um megaevento.
Entretanto, quem vive no Estado de São Paulo e acompanha jogos estudantis ou os Jogos Regionais e Abertos do Interior entende que essas competições poderiam perfeitamente receber o carimbo de megaeventos porque mobilizam milhares de jovens atletas, uma infraestrutura gigantesca que envolve acomodações, arbitragem, transporte e alimentação, capaz de rivalizar com muitos pequenos países de outros continentes.
Eu arriscaria dizer que a condição de megaevento se justifica basicamente pelo impacto econômico e a visibilidade global que a competição promove, o que leva a uma outra questão, que é a proximidade dos eventos esportivos da condição de entretenimento e o distanciamento da sua função original, a saber, um fenômeno sociocultural. E é evidente que os dois principais marcos dessa discussão são a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos.
Vale lembrar que um ponto fundamental para essa discussão é o amadorismo, condição estruturante do Movimento Olímpico ao longo do século 20, dominado pela aristocracia europeia desde a sua fundação. Amadorismo significa “fazer por amor”, ou seja, a prática esportiva era privilégio de quem não precisava trabalhar. Isso mesmo, o amadorismo não significava, necessariamente, o oposto do profissionalismo que seria viver do esporte. O amadorismo delimitava claramente as camadas sociais que poderiam participar dos certames esportivos, principalmente na Inglaterra, berço do esporte moderno. Diante do impedimento determinado pela Football Association, as classes trabalhadoras inglesas se organizaram e promoveram seus próprios campeonatos, afirmando sua disposição em jogar aquele jogo capaz de despertar paixões.
Presente desde as primeiras edições olímpicas, o futebol seguiu dentro do Movimento Olímpico como uma fonte de atritos entre aqueles que desejavam o amadorismo puro e outros que entendiam que aqueles impedimentos eram apenas caprichos das elites.
O limite desse embate veio com a retirada do futebol do programa dos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles, o que levou Jules Rimet, presidente da Federação Internacional de Futebol, a Fifa, a organizar a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol no Uruguai, em 1930. Aquilo era um recado aos senhores dos anéis de que o futebol poderia sobreviver sem a aura olímpica. E diante do sucesso obtido, já na edição seguinte o futebol voltou a fazer parte do programa olímpico, não sem haver embates sobre quem poderia ou não fazer parte das seleções nacionais. A olimpização já era um fato, mas as cartas do futebol estavam nas mãos da Fifa.
O que se mantém desde então é o calendário quadrienal para as competições, porém em biênios distintos, para que não haja coincidência de datas. Com o passar dos anos ambos os eventos cresceram e, por que não dizer, se agigantaram. O profissionalismo no futebol rapidamente se estabeleceu, inclusive no Brasil, e o amadorismo olímpico não sobreviveu aos interesses, no princípio, da indústria de material esportivo e depois de todas as marcas que, de alguma forma, conseguiram associar seus produtos ao imaginário esportivo por meio da performance dos atletas.
Em termos econômicos, Copa do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos rivalizam como os eventos mais rentáveis do planeta, fazem girar milhões de qualquer moeda, mobilizam milhões de pessoas tanto nos jogos presenciais, como nas transmissões, desafiam a criatividade dos profissionais de marketing com diferentes formas de ativação e, com o passar dos anos, levam a uma desmobilização daqueles que gostam do jogo – atividade primária – para atingir quem deseja o entretenimento – atividade secundária.
Certamente essa leitura serve mais ao futebol do que aos Jogos Olímpicos. Isso porque a Copa é o campeonato mundial de uma única modalidade – ainda que de alcance global –, enquanto os Jogos Olímpicos são a grande competição de muitas modalidades e que ainda usufrui de um imaginário mítico, tão bem explorado ao longo de mais de um século. A questão é: até quando? Isso porque é possível observar como a areia da ampulheta olímpica passou a escorrer com maior velocidade ao longo deste século 21. No passado, as decisões demoravam muitos anos, senão décadas, para serem tomadas e daí alterarem normas ou regras. Na atualidade, as declarações sobre as novidades surpreendem até mesmo quem acompanha proximamente o Movimento Olímpico. Foi o caso da inclusão dos esportes eletrônicos, com o anúncio da primeira competição ainda este ano, missão abortada diante das imposições da indústria dos sports. E, mais recentemente, o anúncio dos prêmios em dinheiro para os atletas que subirem ao pódio, já na edição dos Jogos de Los Angeles, em 2028.
É evidente que as competições esportivas deixaram de ser meros campeonatos para se tornarem grandes negócios. Diante disso, é importante que os aficionados revejam suas expectativas com o objeto de suas paixões, uma vez que a força da grana que ergue e destrói coisas belas está em ação. O romantismo que mobilizou tantas gerações de torcedores e amantes do esporte é agora vendido nos inúmeros canais de streaming que escolhem os espetáculos mais rentáveis para divulgar e… só mesmo o tempo para dizer se esse é o caminho do futuro das competições esportivas ou o atalho para o seu fim.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
Foto – CBF




