Ciência e Tecnologia

Estudo internacional com participação da USP desvenda a origem do “osso da sorte” em aves e répteis

Pesquisa publicada na Science Advances aponta que a fúrcula resulta da união evolutiva entre as clavículas e a interclavícula.
Análise de embriões de espécies atuais, como o inhambu sul-americano, revelou elementos embrionários que esclarecem a anatomia dos antigos dinossauros terópodes.
Descoberta amplia a compreensão sobre a evolução esquelética e a diversidade anatômica dos animais ao longo de milhões de anos.

Um estudo internacional com a participação de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) trouxe novas revelações sobre a origem da fúrcula, popularmente conhecida como o “osso da sorte” das aves. Publicada na revista científica Science Advances, a pesquisa investigou o desenvolvimento embrionário de diferentes espécies atuais de aves e répteis para compreender como essa estrutura em formato de “V” se formou ao longo da evolução. Liderado pelo pesquisador Sebastián Jiménez-Villalón e orientado pela professora Tiana Kohlsdorf, do Laboratório de Evolução Integrativa (LEBI) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, o trabalho confirmou a hipótese de que a fúrcula tem origem composta, surgindo a partir da união das clavículas com a interclavícula. O achado fornece pistas cruciais sobre a história evolutiva dos dinossauros terópodes — ancestrais comuns das aves e de diversos répteis —, demonstrando como a análise de embriões atuais pode ajudar a desvendar mistérios anatômicos de espécies extintas há milhões de anos.

Quem já participou da disputa pelo osso da sorte após uma refeição talvez não imaginasse que o pequeno “V” localizado no peito das aves escondia um complexo mistério evolutivo. Embora a fúrcula seja amplamente reconhecida na anatomia das aves modernas e de seus ancestrais dinossauros terópodes, a origem exata dessa estrutura permanecia motivo de debate entre os cientistas.

Para esclarecer se o osso derivava exclusivamente das clavículas (equivalentes aos ossos dos ombros humanos), da interclavícula (osso central do peito presente em répteis como lagartos e jacarés) ou de ambas as estruturas, uma equipe internacional de pesquisadores recorreu ao estudo do desenvolvimento embrionário. O trabalho combinou conhecimentos de evolução e embriologia, na abordagem conhecida como Paleo-Evo-Devo, utilizando infraestrutura do LEBI-USP e materiais da Coleção Herpetológica de Ribeirão Preto.

Análise embrionária e evidências no inhambu

Como o registro fóssil dificilmente preserva as fases iniciais da formação esquelética — etapa que antecede a mineralização dos ossos —, a saída encontrada pelos cientistas foi analisar embriões de espécies atuais. O principal indicativo de que a fúrcula possui uma origem composta foi descoberto em uma espécie de ave sul-americana: a Nothoprocta perdicaria, conhecida popularmente como inhambu.

Nos embriões dessa ave, os pesquisadores identificaram inicialmente três elementos separados: dois nas regiões laterais, correspondentes às clavículas, e um na área central do peito, equivalente à interclavícula. Durante o desenvolvimento, esses três elementos se fundem rapidamente para formar uma única estrutura contínua. Em outras aves, como o frango (Gallus), o componente central pode ter sido perdido ao longo da evolução, restando apenas os elementos laterais. Essa constatação reforça que a fúrcula reúne tanto as clavículas quanto a interclavícula em sua gênese.

Implicações para a evolução dos dinossauros

A pesquisa aponta ainda que a fusão dessas estruturas pode ter ocorrido em associação com a redução dos membros anteriores nos primeiros dinossauros terópodes. Com o passar do tempo evolutivo, esses membros voltaram a se alongar e originaram as asas das aves, acompanhados pelo crescimento da fúrcula. O estudo contou com a colaboração da Universidad de Chile e do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

Fonte – Jornal da USP

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews

Foto – Petko Yotov/Wikimedia Commons

 

Evolução dos Dinossauros Origem da Fúrcula

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