Ciência e Tecnologia

Microrganismos ganham destaque na busca por mais resiliência agrícola

Estudos apontam que a interação entre solo, plantas e microrganismos é estratégica para aumentar a produtividade e reduzir os efeitos de eventos climáticos extremos.
Especialistas destacam que investir em ciência e inovação é fundamental para ampliar a resiliência agrícola e garantir a segurança alimentar no futuro.
Pesquisadores mostram como organismos invisíveis podem fortalecer a resiliência agrícola diante dos impactos das mudanças climáticas.

A relação entre microrganismos, resiliência agrícola e mudanças climáticas tem despertado cada vez mais a atenção da comunidade científica. Pesquisadores destacam que esses organismos desempenham um papel essencial na saúde do solo, no desenvolvimento das plantas e na capacidade das lavouras de enfrentar eventos climáticos extremos. Os estudos reforçam que soluções baseadas na natureza podem contribuir para uma agricultura mais produtiva, sustentável e preparada para os desafios impostos pelo clima. O avanço das pesquisas também abre caminho para novas estratégias de inovação no campo e para o fortalecimento da segurança alimentar.

O 1º Congresso Brasileiro de Diversidade Microbiana (CBDMicro 2026) promoveu, na tarde de 23 de junho, a mesa-redonda “Mudanças climáticas e diversidade de microrganismos de interesse agrícola”, reuniundo especialistas de diferentes regiões do país para discutir exemplos de trabalhos científicos nesse contexto de contribuir para enfrentar os desafios ambientais contemporâneos e garantir a produtividade no campo.

Abrindo as apresentações, o pesquisador Murillo Lobo Júnior, da Embrapa Arroz e Feijão, destacou que o uso de microrganismos no controle biológico preenche uma lacuna essencial para o manejo de doenças de solo em situações em que não se tem resistência genética ou controle químico eficaz. Ele alertou que as mudanças climáticas estão tornando mais complexo o panorama fitossanitário, favorecendo doenças emergentes em diferentes regiões do mundo e que passam a migrar de região conforme as oscilações climáticas, levando a mudanças geográficas de doenças importantes e que vão requerer adaptações no manejo e nos próprios sistemas de produção.

Citou exemplos como a “podridão de carvão”, causada pelo fungo Macrophomina phaseolina, que afeta mais de 200 plantas diferentes, inclusive culturas de importância econômica, que germina justamente em condições de estresse hídrico e está se tornando uma grande preocupação. Outra situação é a manifestação de doenças novas em algumas regiões, decorrentes da perda de diversidade no solo em razão do tipo de manejo centrado em decisões econômicas, que leva à perda de matéria orgânica e cobertura de solo.

“Então você vai perdendo aquele “efeito tampão”, que a gente chama assim, de supressividade das doenças que tem naturalmente no solo”. Para Lobo Júnior, a solução passa pela “agricultura regenerativa”, que busca recuperar a biologia do solo para restaurar o “efeito tampão” natural contra patógenos e controlar naturalmente várias doenças. “São formas de você conciliar controle biológico, com sistema de plantio direto, com eliminação de muitos químicos também do sistema de produção”, observa.

Nesse contexto de restauração da saúde do solo, o professor Maurício Dutra Costa, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), apresentou uma tecnologia inovadora que utiliza microrganismos para solubilizar rochas fosfatadas, transformando-as em fertilizantes naturais. Explicou também sobre pesquisas desenvolvidas durante 20 anos, que utilizam o conceito de economia circular ao aproveitar resíduos industriais, como bagaço de cana e casca de café, para fabricar insumos. O pesquisador enfatiza que, além de reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados, o processo resulta em um produto mais barato e menos agressivo para o ambiente.

Por sua vez, o pesquisador Aleksander Westphal Muniz, da Embrapa Amazônia Ocidental, em sua palestra abordou as transformações realizadas pelos microrganismos no ciclo de nitrogênio e como isso impacta nas mudanças climáticas. As informações são de pesquisa de pós-doutorado, realizada por ele na Alemanha, estudando as transformações nesse ciclo, que abordam os processos de nitrificação e desnitrificação e resultam na liberação de óxido nitroso, que é um dos principais gases do efeito estufa. Ele explicou que esse gás possui um impacto 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono e esses estudos demonstram como a dinâmica biológica do solo é um fator importante no contexto das mudanças climáticas contemporâneas.

Em seguida, a pesquisadora Eliane Aparecida Gomes, da Embrapa Milho e Sorgo, em sua palestra demonstrou como a prospecção da biodiversidade em ambientes extremos, como o Semiárido cearense, resultou em soluções práticas para proteger plantas contra a seca, citando o processo de desenvolvimento do bioinsumo Bioma Hydratus.

Mediante uma parceria estratégica com o setor privado, a pesquisa validou o uso de bactérias como o Bacillus subtilis para aumentar a tolerância de plantas como milho e soja ao estresse hídrico. Todo o processo levou cerca de 10 anos, desde a prospecção de microrganismos, iniciando com cerca de 1.000 bactérias e repasse de cinco cepas por meio de contrato com um parceiro até a validação do produto final.

Segundo a pesquisadora, a preservação da biodiversidade do solo é fundamental para a prospeção e o desenvolvimento de pesquisas visando novos produtos multifuncionais pois quanto mais diversidade taxonômica e biológica se tem, mais diversidade fisiológica vai se ter e isso é importante para o desenvolvimento de potenciais produtos para ajudar o crescimento das lavouras em cenários climáticos adversos. “A agricultura resiliente e sustentável é possível com bionsumos”, finalizou.

A programação faz parte do I Congresso Brasileiro de Diversidade Microbiana, que acontece em Manaus (AM) e reúne cerca de 500 participantes no auditório do Plaza Shopping. Com o tema “Perspectiva dos desafios frente às mudanças climáticas”, o evento congrega pesquisadores e estudantes de instituições de ensino e pesquisa do Amazonas e de outros estados brasileiros, em uma programação que inclui palestras, mesas-redondas e exposição de trabalhos científicos. O evento iniciou dia 22 e segue até o dia 26 de junho de 2026.

A solenidade de abertura pela manhã foi marcada por uma homenagem especial ao biólogo e pesquisador Gilvan Ferreira da Silva, da Embrapa Amazônia Ocidental, escolhido pela comunidade científica envolvida na realização do Congresso. A homenagem ocorre em reconhecimento à sua trajetória científica e contribuição para o estudo da diversidade microbiana amazônica, além de seu papel na formação de novas gerações de cientistas relacionados ao tema.

Em seu discurso, o pesquisador Gilvan Silva agradeceu à Embrapa Amazônia Ocidental, pela estrutura e propósito para dedicar sua carreira ao estudo da microbiota amazônica. “Esta homenagem, no entanto, não é individual — é coletiva. Este reconhecimento não existiria sem as dezenas de bolsistas, técnicos e parceiros, dentro e fora da Embrapa, de diversas instituições, que têm colaborado comigo ao longo dos anos para desvendar os segredos da microbiota amazônica”, afirmou.

Na abertura, Everton Rabelo Cordeiro, chefe-geral da Embrapa Amazônia Ocidental, destacou o impacto do trabalho do pesquisador, e informou sobre investimentos estruturais em relação ao tema do Congresso com a implantação de um novo laboratório na Embrapa em Manaus com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), planejado para atender também à comunidade científica nacional e internacional.

A relevância da região para o tema foi a tônica dos discursos. A coordenadora do congresso, Maria Aparecida de Jesus, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), celebrou a expressiva adesão de público. Já Laís Alves da Gama, diretora de pós-graduação do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), enfatizou que sediar o evento na Amazônia ressalta o potencial biológico da região e conecta a pesquisa científica diretamente à vida e aos desafios enfrentados pelas populações locais diante das mudanças climáticas.

Por sua vez, Marcos Vinícius de Farias Guerra, presidente da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado, ressaltou a importância de mapear a microbiota local, destacando a forte correlação entre esses microrganismos e a saúde humana, como no caso de fungos e zoonoses, que podem tanto causar doenças quanto fornecer elementos para a cura de enfermidades.

A organização do CBDMicro 2026 conta com a participação de diversas instituições de ensino, pesquisa e inovação, entre elas a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD-Fiocruz Amazônia), Instituto Federal do Amazonas (IFAM), Embrapa Amazônia Ocidental, Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Universidade Federal de Roraima (UFRR) e Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz RJ)

 

 

Fonte – Ascom – Embrapa Amazônia Ocidental

Texto com apoio da Inteligência Artificial/ Edição da Coopnews

Foto – Ascom/Maria Tupinambá

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