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Muito além do ônibus – como a Tarifa Zero pode abrir as portas da saúde pública

Motor econômico: Com potencial de injetar R$ 60 bilhões na economia, a gratuidade universal é vista como uma política social no nível do SUS e do Bolsa Família.
Justiça social - Ao reduzir a segregação urbana, a Tarifa Zero surge como ferramenta contra o racismo estrutural e no combate à mortalidade materna.
O custo invisível - Pesquisa da UnB revela que o preço da passagem é a principal barreira para quem precisa de consultas e exames nas periferias.

Um novo estudo da Universidade de Brasília (UnB) revela que a mobilidade urbana é um determinante decisivo para a saúde pública no Brasil. Ao analisar barreiras enfrentadas por moradores de periferias, como a auxiliar Núbia Veras, pesquisadores defendem que a implementação da Tarifa Zero universal pode ser tão transformadora quanto o SUS. A medida visa eliminar obstáculos que hoje impedem o tratamento de doenças crônicas e agravam desigualdades raciais, como o risco de morte materna, que chega a ser o dobro entre mulheres negras devido a restrições de locomoção. Além do impacto humano, a gratuidade nas capitais tem o potencial de injetar R$ 60,3 bilhões anuais na economia do país.

A rotina de Núbia Sales Veras, de 52 anos, é um retrato das barreiras invisíveis impostas pela distância e pelo custo nas grandes cidades. Moradora da Cidade Ocidental (GO), ela percorre diariamente cerca de 50 km para trabalhar como auxiliar de serviços gerais no Lago Sul, bairro de elite em Brasília. Mais do que o cansaço físico, Núbia enfrenta o peso no orçamento: a passagem chega a custar R$ 18 por dia, um valor que limita sua vida social e as oportunidades educacionais de suas filhas.

O impacto mais severo, entretanto, recai sobre sua saúde. Núbia faz tratamento para fibromialgia, uma síndrome de dor crônica, mas a demora excessiva dos ônibus e o custo proibitivo da tarifa já a fizeram perder consultas fundamentais no Hospital Sarah, referência em reabilitação. “Já perdi compromisso, já perdi consulta do meu tratamento… tudo por causa da demora do ônibus e do valor da passagem”, relata a trabalhadora.

O diagnóstico da exclusão

A história de Núbia não é um caso isolado. Um novo estudo do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), intitulado “Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços”, confirma que a precariedade do transporte gera obstáculos concretos ao cuidado em saúde. O artigo aponta que a superlotação, a insegurança e a imprevisibilidade do sistema resultam em atrasos de diagnósticos e faltas frequentes em acompanhamentos preventivos de doenças crônicas.

A pesquisa destaca que o racismo estrutural é um componente central dessa exclusão. Como a população negra está sobrerrepresentada nos grupos de menor renda e em territórios periféricos, ela é a mais dependente do transporte público e, consequentemente, a mais afetada por suas falhas. De acordo com os pesquisadores, os tempos de deslocamento prolongados funcionam como agravantes de sofrimento psíquico, ansiedade e depressão.

Barreiras que custam vidas

A conexão entre mobilidade e saúde torna-se ainda mais drástica quando analisamos os dados de mortalidade. Números do DataSUS citados no estudo revelam que mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna em relação a mulheres brancas. Para os autores, essa disparidade está diretamente ligada às restrições materiais e espaciais de locomoção impostas pela segregação urbana, que impedem o acesso rápido e regular ao pré-natal e a emergências obstétricas.

Para Helena Simão, de 72 anos, o problema não é mais o preço, mas a eficiência. Mesmo com a gratuidade garantida para idosos, ela relata que ainda perde consultas médicas devido à baixa frequência de veículos na periferia. “Eu já não pago o transporte, mas demora muito para passar e já perdi consulta médica”, denuncia a aposentada, evidenciando que a Tarifa Zero precisa vir acompanhada de uma oferta de serviço digna.

Um novo horizonte para o país

Os pesquisadores defendem que a implementação da Tarifa Zero universal tem o potencial de ser uma política estruturante de redução de desigualdades, comparável ao impacto do Sistema Único de Saúde (SUS). “Tem potencial de transformar a relação da sociedade com uma política pública”, observa Paíque Duques Santarém, um dos autores do artigo.

Além do ganho social, a medida é vista como um poderoso motor econômico. Estima-se que a gratuidade nas 27 capitais brasileiras injetaria R$ 60,3 bilhões anuais na economia, gerando um efeito de distribuição de renda comparável ao do programa Bolsa Família. Para o estudo, desonerar integralmente o passageiro é a ferramenta estratégica necessária para garantir o acesso efetivo à cidade e romper com padrões históricos de exclusão racial e territorial.

 

 

Fonte – Agência Brasil

Texto com apoio da Inteligência Artificial/Redação e Edição da Coopnews.

Foto – © Marcelo Camargo/Agência Brasil

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