O uso das redes sociais por crianças começa a despertar preocupação entre pesquisadores diante dos possíveis impactos no desempenho escolar. Pesquisas recentes apontam resultados considerados alarmantes para a educação, indicando uma relação entre o uso dessas plataformas e dificuldades no rendimento escolar. O avanço do acesso às redes sociais desde a infância coloca em discussão os efeitos que o tempo dedicado a esses ambientes digitais pode provocar na rotina de estudos. Embora o fenômeno ainda esteja sendo analisado, os primeiros resultados reforçam a necessidade de atenção de famílias, escolas e especialistas. O cenário também amplia o debate sobre como crianças e adolescentes estão utilizando as redes sociais e quais consequências esse comportamento pode trazer para a aprendizagem. A preocupação cresce justamente em um momento em que a presença das plataformas digitais na vida dos estudantes se tornou cada vez mais comum.
As crianças e adolescentes brasileiros estão mais on-line do que nunca. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 71% das pessoas entre 9 e 17 anos usam as redes sociais. Um estudo feito no norte da Itália constatou o impacto negativo das redes na performance acadêmica dos alunos.
Um dos principais efeitos do uso excessivo das telas é o prejuízo na cognição e nos relacionamentos sociais. “A sociabilização é um elemento central para o processo de cognição”, relembra Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação (FE) da USP e especialista em políticas educacionais. As redes sociais dificultam a criação de laços sociais profundos, “mas o que é mais grave é a perda de qualidade das relações sociais”, acrescenta o professor.
Um vício
Os aplicativos são desenhados para reter os usuários, nas crianças e adolescentes isso pode se tornar um vício. No fim de agosto, a Meta – empresa dona de Facebook, Instagram e WhatsApp – foi processada por um grupo de Estados americanos pelo dano causado às crianças, chegando a um acordo financeiro. Os valores exatos não foram divulgados, mas as especulações estão na casa dos US$ 16 bilhões/US$ 18 bilhões.
Esse design viciante é extremamente efetivo, tornando os jovens dependentes das plataformas e criando a ilusão de que “a vida está totalmente vinculada às redes sociais, o que diminui as interações [na vida real]”, explica o especialista.
Quanto antes, pior
A pesquisa italiana também descobriu que, quanto antes se inicia o uso, piores são os efeitos. Por isso, Cara se preocupa com os efeitos das telas em crianças na primeira infância. Os estudos sobre crianças mais velhas e adolescentes, por mais que estejam em estágios iniciais, mostram uma relação clara e negativa. Já em relação à primeira infância, “certamente o prejuízo é mais danoso e há pouca pesquisa nesse sentido”, alerta o professor.
No Brasil, 63% das crianças na faixa etária de 11 a 12 anos e 89% na faixa de 13 a 14 usam as redes sociais. No início do ano, uma parte dessas plataformas teve a sua classificação indicativa revista pelo ECA Digital, e a maioria tornou-se indicada para maiores de 16 anos. As exceções são aplicativos de mensagens, indicados para maiores de 14 anos.
Tentando frear a tendência
Para Cara, os pais podem estabelecer um diálogo com as crianças e adolescentes e enfatizar a importância das regras: “A criança busca cotidiano, estrutura e regra”. Definir limites de quando, onde e como usar as telas, com o entendimento dos filhos, pode limitar os impactos negativos.
Desde janeiro de 2025, o uso de celulares nas escolas brasileiras está proibido, mas no mundo se fala em restrições maiores. A Austrália foi a pioneira; lá, desde o fim do ano passado, menores de 16 anos não podem criar contas em redes sociais – a responsabilidade foi passada às empresas, e não às crianças e aos pais como em uma classificação indicativa. O Reino Unido planeja seguir os passos dos legisladores australianos e adotar uma medida parecida a partir de 2027.
Fonte – USP
Texto com apoio da Inteligência Artificial/Edição da Coopnews
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